segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Parnaíba e um olhar para si mesma


Das águas de um caudaloso rio a cidade roubou seu nome. E a intimidade com o Rio Parnaíba fez com que diferentes povos, a começar pelas nações indígenas pré-coloniais, por essas terras se apaixonassem. Foi assim com os desbravadores vindos d’além mar, que logo foram seduzidos pelo balanço das águas sempre se oferecendo à terra e presenteando-a com recursos e promessas de prosperidade. E os novos habitantes foram abençoados com séculos de riqueza, graças à capacidade do rio de se estender como um tapete até o Oceano Atlântico, permitindo-lhes alcançar às mais longínquas margens.
A partir dessa época, Parnaíba começou a se destacar como um importante centro sócio-econômico brasileiro, construindo uma História digna de ser propagada e reconhecida aquém e além dos limites do seu Estado. Desses anos áureos, herdou um variado patrimônio histórico que reúne desde um rico conjunto arquitetônico até uma expressão folclórica única, ainda viva em seus bairros mais antigos. Também construiu uma extensa lista de ações protagonizadas por parnaibanos, o que traduz a potencialidade dessa gente.
Contrastando com o atraso do restante do país, a altaneira Vila de São João da Parnahyba foi proclamada Metrópole das Províncias do Norte, título recebido de Dom Pedro I, em 1823, por ter sido a primeira desta região a proclamar a Independência do Brasil. Logo depois, ainda embalada pelo espírito de liberdade, a vila aderiu ao Movimento republicano e separatista da Confederação do Equador, indo de encontro aos interesses do Imperador que, meses antes, solicitara o apoio parnaibano de Simplício Dias oferecendo em troca a transformação de Parnaíba em capital do Piauí. Simplício não aceitou o convite para assumir o cargo de Presidente da Província piauiense, rompendo com o Império e aliando-se aos ideais de Frei Caneca. Recusou o cargo para permanecer fiel aos próprios ideais e Parnaíba continuar como o berço da liberdade da região.
Após o fracasso do movimento republicano e a morte de Simplício, o Coronel Miranda Osório assume o comando de Parnaíba e obtém o ápice das conquistas políticas: a elevação de sua vila à condição de cidade, em 14 de Agosto de 1844. Infelizmente essa promoção, que já era merecida há muito tempo, teve um preço alto: a repressão da rebelião popular maranhense, Balaiada, que teve o apoio de parte da população parnaibana. Miranda aliou-se aos interesses do Império e destruiu os planos dos balaios revoltados contra aquela estrutura sócio-política e econômica, que oprimia a massa pobre formada por índios, negros e mestiços.
Acalmados os ventos revolucionários à custa de baioneta e cadeia, a nova cidade seguiu se desenvolvendo e se afastando cada vez mais da realidade estadual. Nas artes, na política e nas obras, a ousadia era a marca parnaibana. Precursora no Nordeste da navegação comercial de longo curso para a Europa e da industrialização, Parnaíba ganhou a fama de pioneira. Os primeiros barcos a vapor, locomotiva, bicicleta e automóvel do Estado apareceram por aqui. Enquanto as outras vilas piauienses eram ultrapassados feudos, em Parnaíba já imperava um espírito capitalista por ser possível adquirir os últimos modelos do mercado internacional. Mandava-se para o estrangeiro matéria-prima com a ânsia de receber sofisticados produtos. A elite parnaibana ostentava a vaidade de cidade cosmopolita graças aos móveis, roupas, perfumes, alimentos, medicamentos, ferramentas, automóveis e utensílios domésticos de várias partes do mundo que se misturavam aos produtos industrializados na própria terra.
Tudo o que era produzido no estrangeiro existia na Princesinha do Igaraçu e aeroclube, estação radiofônica, televisão, telefone, usina elétrica, hospital, farmácia, banco, agência dos correios, biblioteca e escola pública foram algumas de suas novidades, assim como os dois primeiros times de futebol piauiense, também criados em Parnaíba: o “International Athletic Club” e o “Parnahyba Sport Club”. Por trás dessas conquistas existiam pessoas que, além de poder financeiro, possuíam erudição e visão de futuro. Era o legado cultural daqueles que, tempos atrás, criaram aqui a segunda orquestra sinfônica do Brasil.
Poucos sabem, mas a velha Rua Grande guarda vários estilos arquitetônicos, fenômeno raro na região, o que revela ainda a existência de diferentes ciclos econômicos, pois como é próprio em cada época, a arquitetura reflete a natureza do poder. Uma descrição dessa fortuna construída com pedras, e que simboliza o passado glorioso da cidade, vem de uma estreita relação entre a opulência e a fé. Das inúmeras igrejas e capelas, nenhuma é tão simbólica quanto a Igreja de Nossa Senhora da Graça. Cheia de detalhes, como o revestimento em ouro do altar-mor, a Matriz é rica nos estilos barroco e rococó que, nos séculos XVIII e XIX, caracterizavam as cidades mais desenvolvidas do Nordeste brasileiro.
Mas Parnaíba não foi apenas um centro comercial e industrial, pois atraídas pela possibilidade de riqueza, pessoas de todas as regiões brasileiras e do exterior geraram a mais complexa formação social do Estado: em diferentes épocas, índios, africanos, brasileiros, europeus e árabes miscigenaram-se, originando uma sociedade de identidade cultural aparentemente informe. O sotaque, o modo de vida e o conjunto de prédios diversificados – expressão mais visível dessas culturas que aqui aportaram – refletem essa extraordinária variedade.
O devido reconhecimento dessa formação miscigenada, no entanto, ainda não ocorreu. Desde o início, a mistura racial foi marcada pelo etnocentrismo existente principalmente nos brancos ocidentais que aportaram em Parnaíba. Ante os outros povos, os europeus buscaram impor seu tradicionalismo gerando parnaibanos preocupados com a exaltação de suas origens estrangeiras. Começava assim o apego aos brasões e sobrenomes como forma de se diferenciarem pela genealogia. Era a garantia de pertencer à civilização ariana, a uma linhagem superior, única descendente de Adão, possuidora da “verdadeira fé” (a religião do Papa), da “cor” de Deus e da língua culta. Naturalmente, a postura diante dos descendentes de outras etnias – negros e índios – era de desrespeito. Para os sem tradição restava um tratamento de inferioridade, pois eram vistos como “sub-raças”. Com o sistema escravocrata, a riqueza concentrava-se exclusivamente nas famílias tradicionais, enquanto para o povo sobrava a miséria e uma desumana exploração.
Mesmo em períodos de declínio, as famílias tradicionais mantiveram-se no comando de toda a vida parnaibana. A mudança só veio após o último ciclo de desenvolvimento econômico da cidade. A exportação de cera de carnaúba durante as duas Grandes Guerras, levou Parnaíba a uma de suas maiores participações na economia internacional. Esse quadro se alterou drasticamente com o fim da Segunda Guerra Mundial. A nativa carnaúba parecia vingar, por fim, as excluídas massas parnaibanas que nada aproveitaram dos tempos de glória vividos apenas pela casta dominante. A decadência da cidade, chorada desde então pela elite, refere-se, na verdade, à sua própria derrocada econômica. O tempo em que a tradição genealógica era sinônimo de abastança passava junto com o apogeu da cera de carnaúba.
O golpe foi tão profundo que, pela primeira vez, a riqueza se afastava das margens do rio. Diante disso, a elite não se conformou com o fato de, mesmo detendo os conhecimentos, ter perdido o controle sobre o fluxo financeiro que, gradualmente, mudava de endereço passando a concentrar-se nos arredores da cidade, talvez até nas mãos daqueles que, outrora, não passavam de serviçais em pomposas indústrias e residências. Essa brusca mudança trouxe um desafio histórico para Parnaíba. Como jamais houve em outras épocas, surgiu uma luta diferente: a cidade vê-se desafiada a encontrar sua verdadeira identidade e retomar as rédeas de seu destino, decidindo para onde e de que jeito quer ir, antes de voltar a crescer.
Para que as águas do progresso deságüem de novo no mar, a sociedade parnaibana, formada por pessoas de diversas origens, deve assumir sua miscigenação e reconhecer que sua História foi construída do esforço não apenas de europeus, como reza a elite, mas do suor de indígenas, afro-brasileiros, judeus, árabes, e brasileiros de todos os cantos desse país que fincaram às barrentas margens do Igaraçu seus projetos e sonhos. Só o reconhecimento dessa cultura híbrida pode orientar a construção de um modelo de desenvolvimento que leve Parnaíba a considerar as necessidades de todo seu povo, ao contrário do que ocorreu ao longo do tempo. Qualquer planejamento para o futuro deve nascer de uma ampla discussão dos diferentes setores sociais, onde cada um tenha voz e exercite sua cidadania, sem diferenças de qualquer natureza. Esse deve ser o novo espírito dessa terra, pois os rumos de Parnaíba não podem mais serem decididos apenas por uma camada social que se agarra a preconceitos contra quem não pertence às famílias tradicionais.
A miscigenação não pode mais ser vista como fraqueza, tibieza, perversão e causa de desgraças, como convém à cultura formal, sempre a postos para reproduzir os pontos de vista dos dominadores, agora traumatizados com sua decadência. Junto com esse comportamento entranhado de posições preconceituosas e da supervalorização da cultura estrangeira cresceu o sentimento pessimista e a barreira que impede o associativismo, o reconhecimento do sucesso alheio, o incentivo ao desenvolvimento comunitário e a participação na vida pública. Daí a expressão “Parnaíba, terra do já teve”, que permeia desde poemas e cantigas até os meios de comunicação. Mais grave: dificulta a valorização da História parnaibana, pois mesmo já não mantendo a “pureza” da cor em virtude da mistura que já ocorreu, a elite parnaibana insiste em agir como se os de origem popular ou pobre devessem manter-se em papéis subservientes, não servindo, portanto, para casarem dignamente, exercerem funções de chefia numa empresa ou até mesmo participarem de uma boa conversa na calçada de casa.
Há uma luta de classe, portanto, também cultural, pois é a visão de mundo da elite que tem balizado as manifestações artísticas reconhecidas em Parnaíba: ao retratar seus temas de interesse, a elite reproduz sua visão dos acontecimentos como se essa fosse sagrada e indiscutível. A apropriação da História pela elite se concretiza nas datas cívicas. Tradicionalmente, as confraternizações são marcadas por eventos de cunho intelectual e participativo somente em redutos elitizados, relegando-se aos parnaibanos comuns a concessão de participarem através de números folclóricos, como o bobo da corte. Nos bairros, montam-se circos de apresentações artísticas, como se o povo não tivesse direito ao conhecimento, nem sua opinião fosse digna de ser ouvida.
Para reverter isso, faz-se imprescindível resgatar e incluir na História oficial parnaibana a memória daqueles que até hoje permanecem anônimos - negros, índios e migrantes -, embora tenham sido suas mãos que consolidaram a glória dessa terra. Isso poderá dar fim ao estranhamento entre o povo e a cidade: aquele se sente à parte da História; esta se queixa da rejeição de seus filhos, sem compreender que ela é quem os tem ignorado, não lhes permitindo reconhecer-se como um só povo – genuíno troféu conquistado num secular percurso marcado por paixões e combates. Com a inclusão desses novos personagens e a releitura dos fatos, a extraordinária trajetória histórica de Parnaíba poderá ser enriquecida, ganhando contornos ainda mais valorosos. A reconciliação da cidade com seus desconhecidos heróis deverá começar pela cultura popular, quando essa for cantada em verso e prosa pelos artistas da terra. Ao se reconhecer na arte, o povo sentir-se-á sinônimo de Parnaíba, identificando-se inteiramente com ela, com suas ruas, com seus feitos, sentindo-se sua alma, cúmplice de seus sonhos e desejos, desesperadamente comprometido com seu destino.
Mesmo nos poucos registros deixados pelos senhores brancos, vestígios da memória popular podem ser extraídos. E no espaço físico, ela ainda está trancafiada nos bairros, nos guetos, apartada do centro da cidade. Essas áreas preservam a heterogeneidade cultural parnaibana, com costumes bem distintos entre si. Ao ignorá-los, mantém-se silenciadas as classes populares que, ao longo de sua existência, foram encontrando, especialmente no artesanato, meios de expressarem suas características e visões de mundo: com produtos típicos da região, os artesãos vão retratando nativos, cenas do cotidiano e, assim, modelando a face da cidade, que é reconhecida como o centro artesanal mais criativo do Nordeste. E as lendas dos nossos índios, que jamais tiveram destaque em espaços elitizados, ressurgem em peças teatrais construídas em escolas públicas da periferia. Dos povos indígenas, dizimados do Piauí pela brutal ocupação branca, ficou um legado cultural protegido pelos braços do Delta do Parnaíba. Enquanto nas comunidades deltáicas a presença indígena é perceptível, no Catanduvas, um dos berços de Parnaíba, ainda se conserva costumes africanos que não puderam ser apagados pelos grilhões da escravidão, assim como os belos sonhos que deram à luz ao encantador bumba-meu-boi jamais foram abortados pelo pelourinho.
Sabiamente, José Saramago aconselha: “Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas”. Quem são, portanto, os verdadeiros pais de Parnaíba? E quem construiu os casarões? Ou onde estão anotados os nomes dos que abriram picadas nas matas, expandindo a cidade para além da Esplanada da Estação? Que fim levaram os vareiros do Rio Parnaíba quando a navegação decaiu? Que “causos” ocorreram durante o crescimento, não apenas do Porto Salgado, mas das dezenas de bairros que surgiram em menos de um século?
Por tudo isso, Parnaíba precisa olhar para si mesma e reler toda a sua trajetória. É chegada a época de seu amadurecimento histórico, de um reencontro do povo com a cidade e, consequentemente, suas causas. Os desafios atuais são outros, mas o espírito de luta é o mesmo. Parnaíba requer de seus filhos, com ou sem tradição, um empenho em favor de seu crescimento e de sua vocação como pólo regional. Assim como Simplício Dias (e possivelmente outros menos renomados) foi capaz de abrir mão de seus próprios bens em favor das causas parnaibanas, é necessário que cada um assuma seu papel de cidadão, consciente de que qualquer modelo de desenvolvimento precisa passar pelo crivo de toda a sociedade.

Aquarela do Delta



Com o olhar fixo na tela presa no cavalete, o artista observa minuciosamente seu costumeiro cenário: aberta, a janela cinza mostra uma vista turva, de onde se pode ver as últimas folhas secas caindo no chão. Ao fundo, ruínas de casas abandonadas. Não há vida, tudo é desolação. As lembranças retratadas são sempre tristes. A amargura guardada em seu peito não lhe permite enxergar a vida das cores. Porém, uma olhada para conferir os detalhes oferecidos pela cidade flagra os últimos raios do pôr da lua prateando o Rio Igaraçu e uma nova imagem surge em sua mente absorta. O pintor toma o colorido das tintas para substituir as pinceladas de cor fúnebre pela luminosidade que lhe invade os olhos e, de pincel na mão, ele começa, rapidamente, a alterar os sombrios traços. Uma cidade-aquarela nasce junto com seus sonhos.
A partir do parapeito da cobertura do histórico Hotel Delta, divisa-se uma imensa floresta de palmeiras, oitizeiros e coqueiros que se assemelham a um mar verde. Ao longe, dunas brancas ponteiam o horizonte. Como se saísse das entranhas desse paraíso, o Igaraçu desliza manso pelo cais do Porto das Barcas. Embaixo, os pássaros fazem barulhentas revoadas nas copas das árvores parecendo anunciar as novidades do dia, enquanto os seculares casarões preparam-se para avançar mais um passo majestoso em suas existências misteriosas.
Erguida à base de óleo de baleia, Parnaíba sobreviveu aos modismos passageiros, à busca do enriquecimento fácil e só nas últimas décadas começou a superar as frustrações pela perda do filão da cera da carnaúba. Do passado, ficaram palacetes e ruelas que vêm testemunhando a luta contínua do povo parnaibano para alcançar novos apogeus econômicos. A brilhante trajetória histórica que a destacou no Nordeste a torna agora delicada e frágil, carente de políticas públicas responsáveis.
Nascida sob o signo do pioneirismo e riqueza, Parnaíba é a única cidade piauiense que pode se orgulhar de ter sustentado os gastos do Estado e sido um importante pólo de desenvolvimento econômico. Suas características a credenciam como Portal para o único Delta das Américas em mar aberto. Isso faz com que aos interesses comuns com as outras cidades, como saneamento básico e melhoria das vias de acesso, sejam somados outros desafios de caráter interno. Muito há para conquistar. Prova disso é que a Embratur classificou esse paraíso como o terceiro Pólo Turístico do Brasil ainda inexplorado.
Ironicamente, todo esse patrimônio sócio-ambiental manteve-se protegido ao longo do tempo graças às fracassadas tentativas de transformar Parnaíba em sede do Governo Estadual e, posteriormente, ao retrocesso econômico sofrido pela Princesinha do Igaraçu ocasionado pela conjuntura internacional do Pós-guerra e agravado pela absorção draconiana de recursos pela neófita capital, que ainda hoje suga o grosso dos investimentos a fim de sobreviver no tórrido e inóspito interior do Piauí. Devida a essa incômoda relação política, os municípios deltáicos são obrigados a tolerar a presença predatória da capital (Teresina) no Pólo Costa do Delta.
Nem mesmo o declínio financeiro sofrido por Parnaíba em meados do século passado impediu sua natural vocação para o crescimento que, ao contrário de outros tempos, tem agora perspectivas livres da necessidade de destruir seu santuário ecológico. Basta compreender que se o progresso do século XX tivesse sido desenfreado em Parnaíba, e todos que aqui chegaram houvessem enriquecido, não teríamos um Delta preservado com suas ilhas cheias de pássaros, caranguejos, manguezais e animais silvestres em pleno século XXI. E os traços pintados por Simplício Dias da Silva, ainda no início do século XIX, formando o primeiro mapa do Delta do Rio Parnaíba, comporiam apenas um quadro surrealista.
Se tivesse sido assim, Parnaíba não seria uma das cidades mais românticas do Nordeste com sua doce tranqüilidade nas ruas, ar puro, silêncio à noitinha, amigos de infância e lugares sossegados para passear. Não existiriam carroças puxadas por cavalos nas avenidas, as praças não seriam lugares para solitários pensadores e os donos das quitandas não confiariam que um desconhecido qualquer quitasse uma dívida depois. O encontro perfeito entre o pôr do sol e a curva do Igaraçu na Beira Rio não seria tão bonito, nem as águas barrentas poderiam embalar solitárias canoas presas ao tronco, à espera do labor do dia seguinte. Talvez o mar não conservasse mais seu sedutor tom verde-esmeralda. Diante disso, surge uma intrigante pergunta: essa é uma rica cidade pobre ou uma pobre cidade rica?
Com uma posição geográfica privilegiada, similar às metrópoles litorâneas, Parnaíba vê diante de si a possibilidade de ascender sem cometer os mesmos erros dessas grandes cidades, cujo desenvolvimento se fez à custa da destruição dos mangues, mata nativa, flora e fauna silvestre, recursos naturais, e da modificação de suas características originais. A exploração imobiliária nas orlas priva a população da brisa do mar e altera o fluxo natural da ventilação continental, acarretando o aumento progressivo da temperatura e agravando os efeitos da poluição, provocando assim danos irreparáveis na vida dos animais e vegetais. As águas fluviais deixaram de serem potáveis pela poluição de resíduos lançados por indústrias, residências e até hospitais. O desregrado crescimento populacional dessas cidades vem gerando vários problemas que comprometem seriamente os aspectos sócio-ambientais, refletindo não só nas alterações ecológicas, mas nas relações humanas que necessitam das benesses do meio ambiente para sobreviver.
Parnaíba ainda guarda um jeito de cidade pequena. As festas ainda são familiares; à tardinha, rodas de cadeiras se formam nas calçadas atraindo vizinhos para manterem os assuntos em dia, sem medo algum da violência urbana. Mesmo resguardando essas raridades na globalização e no capitalismo, a Princesinha do Igaraçu ocupa uma importante posição política no Estado por ter potencial para se transformar num pólo referencial de desenvolvimento equilibrado no Nordeste brasileiro, e talvez no mundo.
É em sua história gloriosa que a cidade também encontra outra interessante fonte de enriquecimento: dona de um Patrimônio Histórico e Natural, Parnaíba poderá se consolidar no Turismo Cultural. Para isso é necessário interromper o processo de abandono e deterioração que muito desse legado – em especial a Memória – tem sofrido com o passar do tempo. O prédio de maior importância histórica do Estado, a Casa Grande de Simplício Dias, está em ruínas assim como as Histórias de Parnaíba e do Piauí, que vêm sendo continuamente violadas. Com os prédios novos que desfiguram as antigas construções sobram-nos as migalhas de uma cultura que cada vez mais fica esquecida.
E os poucos que tentam relembrá-la e perpetuá-la vão se deixando levar pelo esmorecimento ao avistar o asfalto, produto da modernidade, avançar sobre o impotente Centro Histórico. Enquanto os palacetes vão sendo cruelmente demolidos ou alterados, as galerias subterrâneas permanecem esquecidas. Há pouco tempo perdemos os jardins Landri Sales e Rosário do Largo da Matriz. Menos sortes tiveram as praças Cel. Jonas Correia e a Antônio do Monte, que viraram pocilgas. Enterradas nesses escombros, estão as verdadeiras festas populares. Não há mais lugar para as lembranças do carnaval de rua do Simpatia e do Bloco Tulipa, das festas juninas, do bumba-meu-boi, dos forrós, das marujadas, do coco perenuê, das quermesses e dos desfiles cívicos. Nem recordações dos fraternos Natais e Ano Novo que eram vividos na Praça da Graça. Para os que resistem ao desânimo resta fantasiar a História contada pelos mais velhos.
Ainda assim, a cidade mantém-se firme. Não se sabe se por causa da brisa do rio ou da majestade das palmeiras, o fato é que Parnaíba sempre se postou ao lado da liberdade, do desprendimento, às vezes pagando caro por insistir em ser um tanto orgulhosa. Cada calçada guarda uma pegada histórica, um sonho, uma vida. Pelas suas ruelas caminharam homens com a disposição de guerreiros, prontos para batalhas em prol não apenas da sobrevivência, mas da independência e de idéias ousadas para suas épocas.
Hoje, a cidade precisa, urgentemente, resgatar suas lendas e mitos, seus fatos e seus personagens, pois do contrário, casarões e becos não conseguirão revelar os tesouros que guardam. Para envolver a população, que é componente fundamental desse projeto de resgate, é imprescindível ampliar o conhecimento dos cidadãos acerca de todo esse patrimônio. A participação do povo na definição dos rumos de sua cidade é uma das maneiras mais seguras de garantir, por exemplo, a colaboração com a preservação dos bens tombados e, conseqüentemente, com o sucesso do Turismo Cultural, que deverá ser uma das bandeiras da região.
Preparando-se para recepcionar um tipo específico de turistas, Parnaíba poderá cultivar um turismo diferente de outros cantos do Brasil. É importante compreender que Parnaíba detém ecossistemas frágeis, que não podem ser arriscados em hipótese alguma em decisões que atendam apenas aos interesses meramente econômicos. Isso não significa dizer que com o Turismo Cultural e o Ecoturismo haverá perdas financeiras, pois o setor é sustentado por um público com alto poder aquisitivo.
No espaço urbano, o cuidado tem que ser reforçado para atender às especificidades de cidade-aquarela do Delta. Por isso, os cidadãos precisam utilizar os mecanismos de atuação social. É o caso do Plano Diretor, que disciplina o progresso e adequa cada área da cidade às verdadeiras necessidades da comunidade, alicerçando um modelo que criará impactos positivos na situação econômica, social, física, territorial e ambiental de Parnaíba. Com o Planejamento Urbano, Parnaíba não só está obedecendo à Lei Federal Nº 10.257/01, como está se organizando para o futuro.
Ciente de que pertence a um corredor turístico, Parnaíba experimenta novamente o papel de líder supremo do Norte. Esse novo ciclo de crescimento deverá superar definitivamente as distorções deixadas na região pela desorganizada urbanização promovida no Brasil a partir da segunda metade do século XX, quando se emanciparam centenas de pequenas localidades, ávidas por gerir sozinhas seus próprios recursos, pois as sedes dos municípios a quem pertenciam eram vistas apenas como concentradoras de renda. Foi assim que a extensa Parnaíba se viu desnorteada, com a transformação de sua zona rural em cidades circunvizinhas.
Em pouco tempo, os recém-criados municípios perceberam que a emancipação política não garantia a independência sócio-econômica. Do sistema de saúde ao comércio, tudo ainda passa por Parnaíba. Essa necessidade de convivência facilitou o apagamento da mágoa causada pelas separações e, novamente, Parnaíba se reencontrou com o seu destino, tendo pela frente o desafio de planejar um desenvolvimento equilibrado e sustentável para o futuro e que leve em conta a realidade de todas as localidades que dependem de sua infra-estrutura.
Os planejamentos devem incluir as necessidades dos vizinhos, considerando-se que Parnaíba tem uma participação decisiva nos interesses da região. A atuação em grupo é o modelo político que deverá se consolidar nesse século, pois no mundo globalizado tem mais poder quem está coeso. O fato do Norte do Piauí ter municípios tão diferentes entre si possibilita a formação de consórcios nos mais variados setores, abrangendo desde o potencial agropecuário até à exploração turística de seus cerca de sessenta sítios arqueológicos. Essa rica diversidade dá ao pólo do Delta uma particularidade que o torna referência nacional: em geral, os pólos agregam cidades com características bem semelhantes, concentrando-se em poucas áreas.
A centralização de equipamentos em Parnaíba habilita-a como gestora do pólo do Delta, pois enquanto cidade-universitária cabe-lhe formar profissionais qualificados para a região, assim como conduzir o processo de transformação da realidade regional, visando a otimização da Bacia leiteira; a estruturação do Ecoturismo (Lagoa do Portinho, Delta do Rio Parnaíba, Parque Nacional de Sete Cidades, Pedra do Sal, Projeto Peixe-boi, desenvolvimento do Projeto Orla...); a criação da Universidade Federal da Parnaíba; a organização do Artesanato e do Distrito de Irrigação dos Tabuleiros Litorâneos; a internacionalização do aeroporto para a exportação dos produtos do agronegócio e do extrativismo; a melhoria da infra-estrutura; e o ordenamento dos recursos pesqueiros.
Nesse projeto de desenvolvimento Parnaíba deve priorizar também a recuperação da qualidade ambiental do Baixo Parnaíba, que vem há muito tempo sendo degradado desde o Alto e Médio Parnaíba pelo desmatamento das matas ciliares e das várzeas, assoreamento, queimadas, esgotos, erosão e lançamento de agrotóxicos. Há dez anos, cientistas japoneses publicaram pesquisa realizada no Rio Parnaíba que identificou muitos desses problemas. Segundo os pesquisadores nipônicos, medidas adequadas e investimentos poderiam transformar o rio em uma grande hidrovia. O tempo passou e nada disso aconteceu. O descaso para com o Parnaíba agravou a situação de tal forma que a poesia de H. Dobal sobre o Velho Monge está prestes a virar profecia: “É um fio na memória um rio esgotado”.
De acordo com estudos da Fundação Rio Parnaíba (Furpa), em menos de duas décadas, a quarta maior bacia brasileira e a segunda do Nordeste corre o risco de ser extinta. A sobrevivência do Piauí e de parte do Maranhão depende da urgente reabilitação do Rio Parnaíba. A preservação da aquarela de Simplício Dias depende inteiramente da conscientização sobre a nossa vital relação com esse meio ambiente. Embora cada cidadão tenha sua parcela de responsabilidade, essa é ainda maior nas mãos daqueles que dispõem, no presente, de condições legais para elaborar e gerir as políticas públicas que edificarão o futuro parnaibano. Finalizo parafraseando o poeta R. Petit, autor do Hino da Parnaíba: “A doce sombra da paz suprema, progredir sempre é o nosso lema”.

Ilha do Amor

Saudades da Ilha do Amor (São Luís)! Nostálgicas lembranças da capital do Maranhão, fundada por franceses, colonizada pelos portugueses e cobiçada pelos holandeses.
“Terra Morena” de Gonçalves Dias, Aluízio de Azevedo, Manoel Beckman, Josué Montello, Ferreira Gullar, João do Valle, Zeca Baleiro, Alcione, Maria Aragão, Ana Jansen, Carlos Nina, Nina Rodrigues... Terra do arroz de cuxá, do tambor de crioula, do Cacuriá de Dona Tetê, do Boizinho Barrica, da jussara com camarão, do guaraná Jesus, das ruas estreitas de nomes curiosos (Rua do Sol, Beco da Bosta, Praça da Alegria...), casarões antigos, cidade dos azulejos, cidade dos bem-te-vis, tão bem retratada na música Ilha encantada de Zé Pereira Godão: “São Luís, minha ilha encantada namorada das noites de luar navegante amor, vem meu beija-flor/mãe guerreira, amante das ondas do mar...”; e de tantas outras personalidades renomadas.
Ah, quem dera estivesse lá agora e encontrasse os poetas no Reviver... Rever o amigo ancião de barbas e cabelos inteiramente alvos, sandálias franciscanas, camisa de mangas compridas, branca, por fora da calça folgada, da mesma cor - o velho poeta Nauro Machado, um amado artista ludovicense. Encontrei-o uma vez apoiado em sua bengala, encostado em uma das pedras de cantaria da Praia Grande, quando o reconheci não me segurei e lhe dei um abraço.
A primeira vez que estive em São Luís, esta bela e afável cidade, foi em meados do ano de 1999. Recordo-me de como meu coração de 16 anos se sentiu quando atravessei a ponte São Francisco e avistei, com os olhos atentos, o Centro Histórico. Foi algo difícil de descrever e que só tempos depois entendi na letra do Hino da cidade, intitulado “Louvação de São Luís”, de autoria de Bandeira Tribuzi: “Quero ler nas ruas: fontes, cantarias, torres e mirantes, igrejas, sobrados nas lentas ladeiras que sobem angústias sonhos do futuro glórias do passado”.
Intitulada de Atenas Brasileira, São Luís despertou em mim uma irresistível inveja. Olhar aqueles prédios conservados, suas fachadas multicoloridas, o cheiro boêmio da vida, a luz dourada do crepúsculo nas calçadas e paralelepípedos das ladeiras... era uma mistura de exaltação e angústia. Ao mesmo tempo em que me encantava com os seus laços de fita estendidos como um tapete por onde eu passava, doía-me lembrar de Parnaíba, talvez a mesma dor de Carlos Drummond de Andrade em sua “Confidência de Itabirano”: Itabira é apenas uma fotografia na parede.Mas como dói!
São Luís é uma resposta convincente pra quem diz que ninguém se interessa por prédios históricos! É uma prova viva de que conservar cada azulejo vale à pena. De que zelar cuidadosamente de sua cultura é uma questão de sobrevivência. Andar pelo Reviver é como atravessar um portal do tempo... lendo “Os Tambores de São Luís” (autor: Josué Montello) a gente consegue ouvir até os ruídos dos cascos dos cavalos sobre as pedras da Rua da Estrela.
Depois de apreciar o pôr-do-sol na escadaria do João do Vale, recuperei o fôlego na lanchonete do francês (experimentando o croissant... e o brioche...). Para alimentar o espírito, visitei o Poeme-se – um sebo onde funciona um ciber e uma livraria -, e a Casa do Maranhão, onde os artistas moram e criam suas obras.
Na parte nova da cidade, não deixei de ir à Litorânea. Aproveitei tudo o que tem lá, especialmente a comida. O caranguejo ainda é maranhense, ao contrário do Ceará, que há muito só consome o do Delta...
De qualquer forma, sei que fui encantado (sou ludovicense de coração) por uma terra que seduziu inúmeros piauienses, como César Nascimento que em versos resume bem o que o sinto: “Eu jamais te esquecerei São Luís do Maranhão” (trecho da música Ilha Magnética, de César Nascimento).

Psicografia



Fora do quarto, o vento quente e a tempestade de areia cobrem as ruas e distanciam cada vez mais a chegada das chuvas do mês de Dezembro. Imagino a velocidade e o avanço das dunas na Lagoa do Portinho. Realmente John Darst estava certo quando disse que “o Homem modificou a face do Globo a ponto de destruir a harmonia do meio em que estava destinado a viver”. De um tempo para cá, o clima de Parnaíba tem sofrido grandes mudanças. A cidade nesse final de ano respira um ar melancólico: o verde desbotado das árvores, o canto triste dos pássaros, o gemido fúnebre do rio Parnaíba fazendo-me recordar as palavras de Mário Baptista: “A vida piauiense está, de tal maneira presa ao Parnaíba, que se por cataclismo, este desaparecesse, não há dúvida de que o Piauí também não poderia continuar vivendo”. O nosso poeta H. Dobal escreveu em versos os seus sentimentos sobre a lenta e agonizante morte do Rio Parnaíba: “Meu rio Parnaíba feito lembrança, não corre mais entre barrancos, é um fio na memória um rio esgotado”.
Pois bem, foi envolvido nesse cenário que de caneta em mãos comecei, lentamente, a rabiscar uma folha de papel. Fiz um traço e pus nela três pontos, identificando algumas fases de minha vida. Detive-me por um tempo tentando alcançar, de imediato, a conclusão almejada pelos meus pensamentos. Era um assunto novo, contudo não era inédito. No dia anterior eu havia pensado nisso e exposto o assunto com incipientes detalhes. É interessante e misterioso o complexo funcionamento do nosso espírito. As coisas estão sempre ali, porém nos afastamos de tal maneira que começamos a esquecer das coisas, dos momentos...
Os meus primeiros anos de vida foram cobertos por uma escuridão, daquelas de mata fechada, coberta pelas verdes copas das árvores. Lá, eu divagava, sem saber para onde ir, sem destino algum. Teve um instante, do qual não me recordo nitidamente, que desgarrei daquele bando perdido na floresta. Fugi como um animal selvagem seguindo os seus próprios instintos de sobrevivência.
A cada investida na mata e a cada mudança de atitude, o clarão da luz do sol invadia os meus olhos, quase cegos pelo negrume da floresta. Fazia muito tempo que planejava quebrar os grilhões, contudo nem eu mesmo sabia disso. Todavia quando decidi não colocar mais as máscaras, e sim mostrar o que sou, sofri pesadas represálias, da mesma forma que um animal selvagem tentando sobreviver sozinho diante das leis da natureza.
Foram anos sem compreender o porquê as hipocrisias me angustiavam. Até que eu percebi que o motivo estava intimamente vinculado à minha maneira de não ser eu mesmo e ser um deles, hipócritas. Tirei as vestimentas do corpo e me encarei no espelho. Foi doloroso chegar à terrível conclusão de que até aquele momento eu não era diferente de nenhum daqueles aos quais eu repugnava.
Completada essa primeira etapa, levei mais alguns anos remando, penosamente, contra a correnteza de um rio carregado de piranhas. Agora, sinto-me no outro lado da margem, imaginando e ainda me preocupando com o rumo da vida dos que ficaram perdidos na mata.
Naquele tempo tive que sacrificar muitas coisas dentro de mim, assim como o vaqueiro que na passagem da boiada pelo rio, oferta um dos seus gados mais fracos, em troca da integridade física do rebanho. Muitos sentimentos tiveram que ser retirados das minhas costas, não só para me salvar fisicamente, mas, também, para não afundar, pois sentia-me muito pesado e o ato de nadar era quase impossível.
A travessia para o lado oposto do rio deixou-me coberto por uma frieza gélida, daquelas de congelar o coração. Definitivamente não sou o mesmo. Perdi a necessidade de visitá-los, não os sinto mais dentro de mim, e o pior, vejo-os como nocivos ao meu equilíbrio corpo-espírito. A sensação que tenho é que eu parti para nunca mais voltar.
Aquele tempo representa a minha mais decisiva e importante transição de vida. Sinto-me independente, seguro do que sinto e do que sou capaz de sentir. Alimentei durante anos angústias, amarguras e ressentimentos, sem saber o que tanto pretendia buscar e que tanto essas emoções ruins sobrecarregavam a minha alma e prejudicavam a minha saúde. Enquanto divagava na mata ou nadava contra a correnteza, enfrentando o rio e suas pestes, estava acometido por uma doença espiritual, que pouco a pouco formava manchas doloridas em meu corpo. Há tempos estava atrás do instante exato em que me tornara livre dos pensamentos ruins. A cada dia que passa o meu espírito está em ascendente processo de harmonia e paz. Agora sobre a minha ausência, ela se deu por vários e profundos motivos, que vão além do óbvio, do real.
Foram anos construindo a minha edificação do outro lado da margem. Enganei-me quanto à firmeza de seu alicerce. A enxurrada levou as paredes e junto com ela, o eco guardado de minha voz, de minhas confissões. Sentado na lama e com o corpo desfalecido, chorei vendo o que escorria pelos meus dedos. Ouro - pensei. Deixei-me cair no chão para que o meu corpo fosse consumido pela lama. Quando as nuvens escuras encheram o céu e as luzes do sol sumiram, vi o quanto havia sido enganado: não era ouro o que segurava em minhas mãos, era apenas sangue, o meu sangue.

Meus oito anos

O primeiro vento frio de dezembro sopra forte, sacudindo com força a copa da árvore que me abriga e assanhando meus cabelos brancos. Levo a mão à cabeça e, pela primeira vez, sinto que o tempo tornou-me igual ao meu avô. Surpreendo-me com a sensação agradável que essa convicção me traz. Sinto diminuir no meu peito a desolação causada pelo tremor que deixou meus dedos inseguros. Mas outra vez a certeza da proximidade inexorável da morte, que tanto tem me atormentado esses dias, volta e junto com ela o nó na garganta.
O medo terrível que me invade e me deixa sem forças mesmo nos lugares mais movimentados toma conta de mim. As palavras engasgadas e o medo não são apenas causados pela proximidade da morte. Algo mais angustiante me domina, algo que só agora no fim da vida me dei conta. Algo que tem a ver com a humanidade, com o que verdadeiramente somos e o que nos une nesse curto tempo em que vivemos. Relembrar a minha trajetória será como revisar o passado e encontrar respostas, melhor, encontrar soluções para o que me atormenta.
Olho ao meu redor e me emociono com a beleza da praça iluminada pelas luzes de Natal. A água cristalina do pequeno córrego no meio do largo fica colorida pelo reflexo das luzes. Uma alegria intensa me invade quando ouço os risos de uma criança vindos por trás de mim. Viro-me e vejo uma menininha, brincando de esconde-esconde com a mãe entre as palmeiras imperiais e violetas que contornam as vias da praça. E hoje, os ramos floridos que embelezam a pérgula estão ainda mais cheios de vida. Um casal luta para conter os seus filhos que insistem em alimentar as tartarugas da pérgula. Ali perto no coreto, uma linda garota compõe melodias com seu violão enquanto rapazes concorrem por espaço na escadaria para vê-la.
Levanto a vista e percebo que essa era a cena que há muito tempo eu sonhava em ver nesse lugar, cercado por imponentes palacetes e bangalôs. Os prédios históricos restaurados e repletos de luzes coloridas, pessoas nas sacadas, casais abraçados, crianças correndo em círculos... Ainda havia gente comprando presentes nas lojas.
Por ironia do destino, dos que participaram daquele movimento, eu era o único que estava vivo! A lágrima que escorre agora, lentamente, pelo meu rosto enrugado não é de tristeza, mas de saudade. Eles ficaram para trás, mas durante todos esses anos eu os trouxe comigo para verem, desse banco, as tardes de domingo esvaírem-se.
Fecho os olhos e penso: - Foram tantos anos lutando, trabalhando na reconstrução dessa cidade, que mal tive tempo para parar e refletir sobre a minha vida. Percebo agora, depois de tantas décadas, que a busca pelas respostas do passado do meu avô trouxeram uma nova identidade para mim. Mas não me recordo com precisão do momento em que deixei de ser aquele menino da fazenda, deixei de ser Carlinhos... Despedir-me de Carlinhos não foi apenas deixar no passado a minha infância, não, definitivamente não. Relegar ao ostracismo Carlinhos foi o mesmo que esquecer a minha humanidade, o que havia de mais puro e perfeito – o elo do amor, unicamente do amor. Pois de todas as lições que aprendi esta foi a única que valeu a pena. Escrever sobre a minha vida será o mesmo que buscar o amor que deixei escondido, privado de mim, restrito unicamente na vida de Carlinhos, no elo com meu avô.

* * *

Essa história começa por um episódio que mudou minha vida, quando eu e meu avô morávamos em uma fazenda, um lugar que exalava o perfume da paz e onde o tempo parecia nem existir.
Nossa casa era bem rústica, porém muito aconchegante. Os únicos móveis requintados e bem trabalhados eram os do escritório do vovô. As cadeiras altas, a mesa de cedro e as estantes que alcançavam o teto fascinavam-me. Escadas eram utilizadas para alcançar os livros mais distantes. Cada vez que eu entrava lá, era como se adentrasse em outro mundo. Aquele gabinete cheio de livros foi minha única escola.
De sua imponente cadeira, vovô sedimentou toda a minha educação. Não freqüentei escolas. Vovô repetia por diversas vezes que as escolas brasileiras eram despreparadas e incapazes de gerar pensadores. E que para você pensar tinha que se desviar dos livros alienadores, dos professores livrescos e buscar por si mesmo o conhecimento, a sua própria metodologia de aprendizagem. Livrar-se dos determinismos ideológicos, pensar e sentir como um só ato. Sempre achei que sua relutância em me levar à escola não era apenas baseada nessa visão. Havia algo mais, mas em vida nunca me dissera.
Pois bem, a minha educação foi toda sedimentada por ele. Apertava forte minha mão e dava tapinhas em meu ombro a cada sucesso meu. Descobri mais tarde que era sua forma de elogiar. Foi assim das primeiras palavras até ao último texto que escrevi para que ele lesse.
Meu rigoroso preceptor não dava trégua para que eu me distraísse com a vista oferecida pela janela que me seduzia com o sereno lago que refletia todos os tons de verde e azul. Somente quando encerrava nossas aulas matinais, tinha permissão para juntar-me aos patos e marrecos criados por seu Zé, um homem negro e forte que há muito tempo era nosso caseiro. Lá aprendi a nadar e a pescar, imitando os grasnos dos bichos. Passávamos o dia em contato com a natureza, estudando seus fenômenos e encantos, pois vovô aproveitava todas as situações para me ensinar alguma coisa.
Quando o verão se estendia mais do que o esperado e o calor dentro de casa tornava-se sufocante, costumávamos ficar embaixo da copa verde do tamarineiro, uma árvore secular que ainda teimava em guerrear com o tempo. Ele costumava apontar para uma casa abandonada feita de paredes de barro que ficava no pé da colina, logo após o cercado e começava a contar estórias de terror. Passei a infância e boa parte da adolescência sem coragem de chegar perto daquele lugar. Quase sempre no mesmo horário da tarde víamos o sorridente Zé puxar dois jumentinhos carregando barris em direção ao rio mais próximo. Todos os domingos percorríamos quilômetros montados em jumentos rumo à farinhada, onde comprávamos além de farinha, mercadorias vindas da cidade. Quando voltávamos de lá, corria em direção à porteira de casa já sonhando com a água gelada da bica. Subindo o caminho feito de enxada desviava-me das bananeiras e coqueiros que existiam até o alto da colina. Ouvia lá de trás o grito do meu velho pedindo para ligar a máquina. Puxada por um motor e levada por um extenso cano metálico a água saía geladinha. A água chegava com força. Deixava o meu rosto por um bom tempo sentindo aquela sensação de alívio invadir. O calor era substituído pelo arrepio do frio.
Os meus brinquedos eram feitos artesanalmente. Juntava latas de leite e as enchia de areia. Amarradas por uma corda elas rolavam no chão enquanto eu as puxava. Quando não corria atrás de galinhas e pescava piabas, passava horas a fio brincando no terraço de casa com aquele caminhão improvisado. No final, as latas já estavam quase vazias e a areia que havia nelas fora deixada no caminho, junto com a disposição de brincar. Vovô costumava dizer que a rapadura, a maxixada, a coalhada e o leite mugido eram os culpados pela minha energia desmedida durante o dia.
O mundo em que cresci era cheio de amor, unicamente de amor. Nunca pensei que fosse conhecer e desbravar outro além daquele em que nasci. Contudo ele me foi apresentado numa manhã chuvosa, daquelas que fazem os pensamentos correrem em recordações do passado.



* * *

Seis horas

Manhã cinzenta. Gotas insistentes na vidraça do quarto me despertaram antes do previsto. A claridade mansa do dia que começava chuvoso atravessou minhas pálpebras pálidas interrompendo meu sono. Tinha apenas oito anos e isso ainda me dava o privilégio de continuar a dormir na cama do vovô.
Sonolento, abri a porta do seu quarto, pronto para implorar pela permissão de deitar com ele, mas não o encontrei. Depois de investigar em todo o quarto, entrei em pânico: estou sozinho em casa? O pensamento me fez procurá-lo pelo resto da casa, sem sucesso. A idéia de encontrá-lo caído em algum lugar me apavorava. E foi justamente naquele momento que lembrei do porão da nossa casa, único lugar em que não o procurara.
Ofegante, corri até àquela porta, e me surpreendi ao encontrá-la entreaberta, como nunca esteve antes. Tive a certeza de que era lá que vovô estava. Ele sempre fora muito cuidadoso com aquele lugar, mas naquele dia havia falhado ou talvez eu houvesse despertado inesperadamente. Ele não deve ter girado totalmente a maçaneta da porta. O medo voltou a me dominar, todavia era preciso entrar ali para conferir se ele estava bem.
Jamais me aventurei a entrar no porão antes, porque aquele era o retiro de vovô, sua eira sacra, para onde ele só vinha em ocasiões muito especiais como Natal e outras datas que ele se recusava a me explicar. A fim de não me magoar, deixava que eu dormisse antes que fosse até lá. Era seu jeito de evitar que eu me sentisse rejeitado. E, mesmo sendo apenas um menino, eu entendia e respeitava isso.
Da minha janela, muitas vezes o vi esqueirar-se por aquela porta que agora estava aberta para mim, num convite irresistível, num apelo que pulsava tão profundo e violento que impulsionava minhas ações, meu corpo. Eu não podia perder aquela oportunidade!
Empurrei a porta cuidadosamente com a ponta dos dedos, acreditando que não faria qualquer tipo de barulho. Porém minha pouca força acabou deixando a velha e pesada porta fechar-se, provocando um som de dar gastura. Mesmo com esse deslize, não ouvi nenhum sussurro. Acuei aflito: será que meu velho está mesmo aqui? E se está, o que prende tanto sua atenção a ponto de fazê-lo esquecer do mundo?
Rapidamente, todas essas indagações foram abafadas pela minha curiosidade que imediatamente se aguçou por aquele lugar. Quase caí quando dei os primeiros passos. Tive que me apoiar na parede. Segurei firme o lençol para não tropeçar. Só depois que meus olhos adaptaram-se à penumbra, enxerguei a escada de madeira antiga e de difícil acesso, tamanha a verticalidade dos degraus.
Dei-me conta de onde estava quando, ao tentar me apoiar na parede, senti a umidade daquele lugar que exalava um cheiro forte que só voltaria a sentir anos depois. Tive que descer fazendo força para segurar o peso do meu próprio corpo, pois poderia tombar para frente. Desci a escada devagar e voltei a lembrar o que viera fazer ali quando a escuridão se desvaneceu por causa de um foco luminoso que batia timidamente nos últimos degraus.
Chegando ao final, avancei uns passos e virei o rosto para a direita, em direção à luz. Era uma pequena luminária sobre um banco. Observei a luz caindo por cima do meu avô, agachado em frente a um baú grande, velho e aparentemente muito pesado. O que estará fazendo? O que eu realmente queria saber era o que havia naquele baú!
Enquanto ele não percebia a minha presença, olhei em volta todas as coisas que havia no porão. Uma mesa empoeirada à minha direita chamou minha atenção. Passei o dedo e uma camada grossa de poeira indicava que há muito tempo fora colocada ali. Sobre ela havia uma foto, em preto e branco, coberta por enormes teias de aranha. Tentei identificar quem era a mulher, mas a pouca luz não ajudou. A luminária mal dava para clarear o local. Nesse ínterim, acompanhei meu avô que continuava imóvel, com um sorriso nos lábios e um olhar concentrado no que havia dentro do baú. Parado, fiquei um momento a fitar o seu rosto. Não me conformando com sua estranheza, levantei a voz e perguntei:

- O que o senhor está fazendo aqui?

Não entendia a sua mudez! Ele continuava absorto, de cabeça baixa, em frente ao baú. Sem obter resposta, nem ver nenhum esboço de reação por parte dele, senti aflição ao ver que não mais conhecia aquele homem. Que estranho!, pensei. “Era como se o porão o tivesse transformado”. Eu não fazia a menor idéia de quem ele era naquele instante. Meu coração palpitava cada vez mais forte. Decidi chamá-lo baixinho, pois talvez o conseguisse trazer de volta daquele transe.

- Vovô...! Está tudo bem? – chamei-o fagueiramente, tentando fazê-lo me enxergar ali.

Silêncio absoluto e bastante prolongado. Nenhum movimento.
Ainda mais assustado, estendi corajosamente meu braço para tocar em seu ombro, empurrando-o de leve. Quando o fiz, ergueu-se de uma vez, como se estivesse fazendo algo de errado. Olhou-me enrubescido, e depois me dirigiu algumas palavras:

- Que susto! – exclamou estrondosamente, levantando-se e me fazendo recuar rápido, com temor.
- Não precisa se preocupar! - continuou vovô, ao perceber meus olhos arregalados, cheios de lágrimas, e meu rosto contraído, tentando evitar o choro.
- Eu não vou brigar pela sua curiosidade que o fez entrar em lugares sem permissão! - falou isso pegando carinhosamente em meu ombro com a sua mão grande e pesada. Sentiu meu tremor e, para me acalmar, abrandou a voz - Aliás, foi até melhor assim. Quer conhecer as preciosidades que estão dentro desse baú?

Aquela proposta foi feita com um olhar de expectativa, como se implorasse para que eu aceitasse. Queria dividir algo comigo. E eu precisava ajudá-lo. Antes que eu respondesse, puxou meu braço com força, fazendo-me ajoelhar junto ao baú. Parecia mais criança do que eu, mostrando e explicando tudo ao mesmo tempo. Atentamente escutei, prestando-lhe uma solidariedade tácita. Não queria desanimá-lo, caso deixasse transparecer que compreendia pouca coisa.

- Tentei me conter todos esses anos! Não queria que você viesse a conhecer as recordações e saudades que tenho da minha terra. Mas vejo que é chegado o momento de lhe apresentar a cidade onde eu e sua mãe nascemos. – falava como se fosse confidenciar um crime - Parnaíba é a cidade mais rica dessa região! – dizia, puxando um mapa do baú - Tanto no comércio, como na indústria, agricultura, cultura e História! Parnaíba foi a primeira cidade do Nordeste a manter navegação de longo curso para a Europa. Era muito fácil você comprar móveis, roupas, utensílios domésticos de outros países – explicava, abrindo os braços e gesticulando muito - Os navios iam para o estrangeiro carregados de charque, ceras de carnaúba, algodão, babaçu, mamona...– e continuava com um orgulho desmedido pelas peculiaridades daquela terra - A primeira bicicleta do Piauí rodou na minha cidade, sabia? E também os primeiros automóveis, barcos a vapor e locomotiva. Aeroclube, estação radiofônica, usina elétrica só existiam em Parnaíba! Carlinhos, os dois primeiros times de futebol do Piauí foram criados em Parnaíba: o “International Athletic Club” e o “Parnahyba Sport Club”... – e nesse ritmo, meu avô prosseguiu na dissertação histórica da cidade. Foram horas e horas a fio, simbolizando uma verdadeira declaração de amor àquela terra até então desconhecida para mim.

Cada palavra era aquecida pela chama do ufanismo e da euforia que, aliás, nunca mais se apagaram. Tinha certeza que estava conhecendo um outro avô, ainda mais especial do que já o era!

- Vou lhe mostrar até fotos que comprova o quanto Parnaíba é uma terra abençoada! – disse, olhando-me de uma forma desafiadora.

Puxou uma caixa de cetim azul por fora e branco por dentro de uma abertura lateral do baú que eu nem tinha notado, e me mostrou toda a beleza de Parnaíba. Fiquei maravilhado! Pôs a caixa em meu colo e explicou cada foto e recordação com magnífica inspiração.
Fotos, retratos e uma pequena escultura serviram para que vovô demonstrasse o minucioso conhecimento que possuía daquela cidade. Esbanjava orgulho com as histórias e lendas.

- Vê esses retratos?
- Sim, quem são eles?
- São as maiores figuras da História do Piauí! – e desfiou uma longa história sobre Simplício Dias[1] e Leonardo Castelo Branco[2] – São dois heróis da Independência do Brasil! - identifiquei-me particularmente com “Simplição”, como é carinhosamente chamado. Anos depois, pude ver que nossa disposição de abrir mão de tudo em prol de nossos ideais era o ponto em comum. De Leonardo, tomei emprestado a bravura e a capacidade de enfrentar perigos. A lembrança desses dois seria decisiva para mim em muitos momentos da maior luta que travei na vida. Vovô nem poderia supor quanta intimidade eu viria a ter com Simplício.
- Preste atenção nessa escultura. – disse-me, sério.
- Sim, vô. O que é?
- Esse é o famoso Cabeça de Cuia – falava o nome envaidecendo-se da escultura de madeira. Você a quer de presente? É uma relíquia! – sua frase soou tentadora!
- Ele é muito feio! – disse-lhe – Ele é doente, vovô? Por que ele é assim?
- Ah! Essa é uma estória muito assustadora. Você não vai querer escutar!
- Não, vô, eu quero escutar... Conte-me, por favor! – fiz o pedido com os olhos faiscando de curiosidade. Ele adorava me provocar!
- Não me culpe se tiver pesadelos...
- Eu já sou bem grandinho – insisto – Não tenho medo de nada! Durmo até de luz apagada! Não vê minha coragem? Entrei até no seu porão! – argumentei para convencê-lo de vez.
- Ah! Mas depois dessa estória, tenho certeza que você não dormirá mais no escuro. Vai acabar me dando trabalho de noite...!

E foi nesse suspense que vovô começou a contar a lenda.

- Essa escultura é de um rapaz chamado Crispim que matou a própria mãe, batendo com um osso em sua cabeça, pois ficara com muita raiva e fome por não ter pescado um peixe sequer nas águas do Poti, um afluente do rio Parnaíba, o “Velho Monge” do Nordeste brasileiro. Antes de morrer, a mãe o amaldiçoou, dizendo que ele ficaria com a cabeça deformada e penaria eternamente entre a terra e as águas – disse compassadamente – De fato, a cabeça do rapaz começou a crescer, fazendo-o apavorar-se, jogando-se nas águas do Parnaíba! Seu corpo, porém, nunca foi encontrado. Dizem que até hoje ele passa a metade do ano na terra praticando “fantasias” – expressão que utilizou para amenizar a promiscuidade do personagem - e a outra metade nas águas do rio, causando enchentes e afogando banhistas e pescadores. Muitas embarcações já viraram por causa dele. E ele só deixará de penar no dia em que devorar sete mulheres virgens, o que ainda não deve ter acontecido, pois o amaldiçoado continua vivo nas tragédias contadas pelo povo - finalizou meu velho fazendo o personagem ganhar vida naquele instante.

Vendo-me com os olhos espantados, começou a dar gargalhadas, acrescentando: “Não fique assim, meu neto! Prometo que não acontecerá nada com você, mesmo porque já é quase amigo íntimo dele, não é?”- disse isso olhando para a escultura que estava na minha mão.
Durante toda a minha infância quis acreditar nessa tal amizade. Mesmo assustado com a estória, decidi manter a escultura por perto, para evitar que nos atormentassem. A estratégia deve ter funcionado, pois jamais tive pesadelos ou medo d’água. Todas as vezes ele acrescentava que lá nas águas do “Velho Chico”, como é carinhosamente chamado o rio São Francisco, há um ser mitológico que possui os mesmos hábitos do Cabeça de Cuia e que é conhecido como Negro d’Água. E contava como se estivesse contado pela primeira vez. Meu carinho por ele era tanto que eu ouvia com o mesmo sentimento de novidade. Só depois de adulto é que percebi que as repetições eram, em verdade, sinais da velhice.
A partir daquele dia, vovô passou a contar essas lendas freqüentemente. Após o Cabeça de Cuia, ele sempre dava um jeitinho de contar a da Macyrajara[3], uma depois da outra, repetidas vezes. Mesmo adoentado e de voz cansada, não desistia. O desejo do meu velho de perpetuar aquela tradição oral ocupou grande parte de minha infância. Todo ano, no dia 22 de agosto, comemorávamos o Dia do Folclore relembrando as estórias que faziam parte da riqueza híbrida do imaginário popular brasileiro.
Em noites de lua cheia, quando tudo se aquietava na fazenda, ele levava sua cadeira de madeira e pano para a varanda. Bastava isso para que eu entendesse que devia pegar minha cadeirinha, também de madeira, pois iria ouvir estórias. Ficávamos olhando os reflexos prateados da lua no nosso lago. Então ele começava a contar, compenetrado, todas as estórias que vinham em sua mente! Saci-pererê, boitatá, caipora, lobisomem, mãe d’água, mula-sem-cabeça, negrinho do pastoreiro, uirapuru, cuca, iara, curupira, moço bonito, matintapereira, eram como aperitivo para vovô explicar as origens e heranças culturais deixadas por índios, negros africanos e colonizadores portugueses. Ele as usava para me ensinar História, Geografia, Antropologia, Sociologia e até Filosofia.
Prometendo explicar melhor as fotos da cidade, tornou, pois, a meter a mão no baú e devagar, demonstrando muito respeito, retirou um pano de seda, cuidadosamente dobrado. Levantou-se, desdobrou, e falou com orgulho:

- Essa é a bandeira da Parnaíba. Olha como é bonita! – disse, sem esconder a emoção. - Foi criada por Christino Félix de Melo. Ele dividiu a bandeira em três faixas, sendo duas brancas e uma intermediária, de cor azul, com uma estrela branca. Christino usou as duas faixas brancas para homenagear as comunidades do Porto das Barcas e Testa Branca, que deram origem à cidade. As Armas Municipais, que aparecem no canto superior esquerdo, representam a cidade de Parnaíba. E o mais interessante é que esse símbolo, que representa o município, é o brasão de armas concedido a Simplício Dias da Silva!
- E o que são esses números?
- Ah, são mais do que simples números! Antes de ser uma cidade, o povoado era conhecido apenas por Vila de São João da Parnaíba. A primeira data, 1762, é o ano da fundação da Vila. A segunda, 1844, foi quando a Vila foi elevada à condição de cidade, recebendo o nome de Parnaíba. O último ano inscrito na bandeira é 1963, quando foram instituídas as Armas Municipais.

Depois das explicações de meu avô, que dividiu comigo todo aquele mar agitado de sentimentos, percebi que sua alma estava em paz. Ele despertava agora para uma nova fase de sua vida. Durante aqueles instantes mostrou-se tão alegre que não se conteve. Apanhou livros, dentre eles o Almanaque da Parnaíba, e recortes de jornais.

- Esse é o mais antigo Almanaque em circulação no país. Foi idealizado por um amigo querido, o Bembém[4]. É um tesouro. E é seu agora. Tome-o! – Deu-me de presente, sem titubear. Fiquei ainda mais emocionado quando ele me disse:
- Trate de cuidar de todas essas coisas com muito carinho. Confio em você!

E foi com essa confiança que me senti guardião da fortuna que havia acabado de receber.

Depois daquele dia, minha vida se transformou. Todo final de tarde, lá estava eu, ao lado do vovô, insistindo para que ele contasse mais uma passagem histórica da Princesinha do Igaraçu. Ele não se fazia de rogado. Seu olhar espiando o vazio tinha algo de especial e merencório, e a voz ficava solene ao proclamar as grandezas da “Metrópole das Províncias do Norte” - um título que ele sentia prazer em dizer e eu, em ouvir, porque soava belo aos meus ouvidos. Parecia-me digno de uma cidade altaneira, especialmente por ter sido dado por um imperador. “Parnaíba recebeu esse título de Dom Pedro I, em 1823, por ter sido a primeira cidade do Norte e Nordeste a proclamar a Independência do Brasil!”, exclamava vovô, com orgulho, numa postura estufada como se fosse ele próprio, o dono do título.
Ensinar-me sobre Parnaíba foi o coroamento da instrução intelectiva que vovô me ofereceu. Era também a maneira encontrada por ele, para fazer as pazes com o passado! Deleitava-se tanto com isso, que se esquecia de sua frágil saúde. Havia momentos em que parecia um jovem combatente, defensor ferrenho dos valores e ícones daquela terra. Declamava poesias parnaibanas e encerrava cantando o hino daquela terra. Talvez pela idade avançada, invariavelmente perguntava-me se eu sabia que Raimundo Petit era o autor da letra. Eu dizia que sim, e ele completava: “belíssima música a de Ademar Neves, não é, meu neto?”.
Não era apenas da História oficial de Parnaíba que meu avô falava. Contava também sobre o povo, as histórias das famílias, inclusive a podridão da alta sociedade de sua época. Sabia detalhes sórdidos! Mas preferia fazer-me conhecer algumas obras literárias que denunciavam os podres daqueles a quem chamava de aristocracia decadente: “De resto, somente a plebe rude presta, em Parnaíba!”, dizia, com sarcasmo.

- Carlinhos, a beleza de Parnaíba só não é completa por causa dessa epidemia. – disse-me um dia, em tom de lamento – Infelizmente, as pessoas pararam no tempo, iludidas com a pompa que um dia tiveram. Vivem de lembranças, porque não têm forças para trabalhar, estudar e tantas outras atividades que enobrecem o ser humano. Acostumaram-se com a indolência, como se ainda fossem velhos senhores de escravos! Não possuem nada e arrotam títulos e sobrenomes, rastejando atrás de um reconhecimento social que não merecem porque não possuem mérito algum. É de dar pena vê-los nas festas, exibindo-se com roupas alugadas, como se uns não soubessem da vida financeira dos outros. Todos encenam entre si! Mesmo endividados, continuam posando de ricos!...
- Então eles mentem uns para os outros e não sentem vergonha disso?
- Ah, meu filho, um grande artista francês, Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière, já dizia: “A hipocrisia é um vício que está tão na moda que vira virtude, e qualquer hipócrita representa o papel de homem de bem com razoável perícia”.

Vovô sempre enfatizava que Parnaíba não era apenas um centro comercial e industrial, pois atraídas pela possibilidade de riqueza, pessoas de todas as regiões brasileiras e do exterior geraram a mais complexa formação social do Estado. Ele enchia a boca quando pronunciava:

- Em diferentes épocas, índios, africanos, brasileiros, europeus e árabes miscigenaram-se, originando uma sociedade de identidade cultural aparentemente informe. O sotaque, o modo de vida e o conjunto de prédios diversificados – expressão mais visível dessas culturas que aqui aportaram – refletem essa extraordinária variedade.

Quando o meu velho falava do patrimônio arquitetônico eu sempre me lembrava das cidades de São Luiz e de Belém.
Nossa vida a dois foi muito reservada. Meu velho dedicava dias inteiros à minha educação e amadurecimento literário. Vovô chegava a brincar comigo no chão como se tivesse a minha idade. Apesar disso, sabia exatamente que valores queria enraizar em mim. Mais do que conhecimentos, ele queria que eu tivesse a capacidade de ser, a um só tempo, nobre, culto e solidário, especialmente aos mais fracos.
Essa formação só foi possível porque meu maior contato com o mundo exterior era através dos livros do escritório de meu velho, uma verdadeira biblioteca. Representantes de toda a literatura universal encontravam-se naquelas estantes organizadas numa ordem metódica. Por falar nisso, quando criança, pensava que as paredes do escritório eram feitas de livros.
Ainda lembro dos primeiros livros que ele me deu. Fez questão que eu me interessasse inicialmente pelos de Assis Brasil[5]. O primeiro foi “O cantor prisioneiro”, um livro infantil que me fazia imaginar executando um vôo reto e firme de liberdade como o sabiá, personagem principal do livro. Como era um livro de alicerce no mundo da leitura, meu avô teve paciência. Aliás, o conceito de liberdade que Assis Brasil me mostrou foi substituído quando li Rousseau na minha adolescência. Ele pregava: “O homem nasceu livre, e em toda parte, está na cadeia”. Frase que hoje me faz todo o sentido.
O que me fez realmente pegar gosto pelos livros na infância foi um clássico de Jean de La Fontaine com fábulas traduzidas para o português. Demorei uma semana para ler as primeiras palavras. Naquela época um livro com muitas letras ainda não me interessava. Chegava até a dar sono! O que realmente me atraía eram os desenhos de animais. Uma maravilha! Cada um mais bonito do que o outro!
O livro do “francês”, como vovô gostava de chamá-lo, foi uma escolha sapiente e paciente. No início, como todo menino traquino, a cada vez que ele perguntava como ia minha leitura, mentia dizendo que estava lendo, achando que o enganava. Ele sabia que eu não tinha lido absolutamente nada, mas também tinha certeza da grande atração que os desenhos me despertavam.
Enquanto ele bebia seu vinho tinto, eu fingia ler o francês, só para agradá-lo. Viajava com os desenhos de animais, fazendo um conversar com o outro. Com o tempo, observei que as minhas estórias eram sem graça e repetitivas. Foram necessários sete dias para atingir esse estágio. Ele sabia de tudo o que se passava.
Comecei, desde então, a procurar a conexão entre as palavras e os desenhos. Compreendi que as estórias narradas acerca das gravuras eram mais interessantes que as minhas. Após essa constatação, devorei o livro em horas!
Ao terminar, não me controlei. Incandescente com o aprendizado, fui contar as descobertas para meu avô. De tão empolgado, não percebi os risos de meu velho. Ele me deixou à vontade! Contei todas as fábulas, sempre explicando os desenhos.
Assentada a poeira do meu impulso de menino, ele me disse uma frase baixinho, da qual nunca esqueci.

- “O saber é tão solidário, que o seu dono não se contém, tem que dividir, ensinando o próximo”.

Depois dessa frase, pedi desculpas pelas mentiras e destaquei a fábula mais sábia e interessante do “francês”. “Era um busto oco e maior que o natural. A raposa, louvando o esforço da escultura: Bela cabeça, disse, mas quanto ao cérebro... nada... Quantos grandes senhores são bustos, são nada!”. Essa fábula, intitulada “A Raposa e o Busto”, foi um dos grandes ensinamentos de minha meninice. As estórias do “francês” me ensinaram o que é um leão e o que é uma raposa. E desse conhecimento, passei a compará-los com o homem.
A biblioteca de meu velho era repleta de literatura piauiense, além de brasileira e estrangeira, das quais ele não perdia a oportunidade de se gabar. Passávamos noites e mais noites discutindo o conteúdo dos livros. Nessas memoráveis conversas, ora nos emocionávamos, ora nos revoltávamos. Ensinávamos e aprendíamos mutuamente, numa constante descoberta do saber. “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente, aprende, meu filho. O escritor Guimarães Rosa sabia o que estava dizendo quando falou isso!”, disse certa vez quando o surpreendi com uma nova descoberta filosófica. Enquanto pôde, vovô orientou minha formação. Cresci assim - cercado de amor, cultura, arte e ensinamento filosófico. Mas isso tudo foi apenas o começo.

[1] Simplício Dias da Silva (1773, Parnaíba – 1829). Foi Alferes de Cavalaria Miliciana da ordenança da Parnaíba, comandante militar da Vila de São João da Parnaíba, coronel comandante do Regime de Cavalaria Miliciana, professo na Ordem de Cristo, teve o foro de fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial e foi dignatário da Imperial Ordem do Cruzeiro. Em 19 de outubro de 1822, proclamou, com outros compatriotas, a independência em Parnaíba.

[2] Leonardo Senhora das Dores Castelo Branco (1788, Barras – 1873) – Político, militar, poeta, prosador, filósofo e mecânico. Obras: “Memória acerca das abelhas da Província do Piauí”, “Astronomia e mecânica leonardina”, “A criação Universal”, “O ímpio confundido”, “O Santíssimo Milagre”. Participou do movimento 19 de outubro de 1822 e da Confederação do Equador. É Patrono da Cadeira n° 17 da Academia de Letras do Vale do Longá e da Cadeira n° 33 da Academia Parnaibana de Letras.

[3] Macyrajara é a lenda da criação da Lagoa do Portinho: uma linda índia de olhos cor de mel e cabelos negros que desafiou seu pai, o chefe Botocó da tribo dos tremembés, por causa de Ubitã, um jovem guerreiro pertencente a uma tribo inimiga. Essa paixão levou o pai da índia a prendê-la numa oca vigiada por bravos guerreiros. Ubitã, aconselhado por Tupã, procurou salvar o seu grande amor. E nessa empreitada, foi atingido no peito por uma flecha, levando-o a morte. Ao saber da tragédia, Macyrajara corre na escuridão da noite e passa três dias vagando pela mata, até encontrar um olho-d´água, onde começa a chorar. Tupã comove-se com o pranto da índia e decide transformar suas lágrimas numa lagoa para separar as duas tribos. A lagoa chama-se Portinho e separa hoje, Luiz Correia de Parnaíba.

[4] Benedicto dos Santos Lima (1893 – 1958), carinhosamente chamado de Bembém pela população parnaibana. Foi proprietário do Almanaque da Parnaíba, surgido em 02 de agosto de 1923. Foi ainda, Gerente do Jornal A Praça, Diretor e proprietário do Jornal Aljava, co-editor do Livro do Centenário da Parnaíba, Fundador da Biblioteca da Criança, Primeiro Presidente da Associação Profissional dos Jornalistas da Parnaíba, Membro da Associação Brasileira da Imprensa, Membro da Academia Charadística Luso Brasileira e Patrono da Cadeira n°3 da Academia Parnaibana de Letras.

[5] Assis Brasil (Francisco de Assis Almeida Brasil) – n 18-02-1932 – Parnaíba (PI). Romancista, crítico literário, jornalista e professor Já publicou mais de cem obras. Dois dos seus romances foram laureados com o prêmio Walmap (maior prêmio literário do Brasil). Membro da Academia Parnaibana de Letras e da Academia Piauiense de Letras.

Cartão de Visita


Escrever é remir o tempo curto deste sopro de vida com uma ocupação que cura a nossa alma, que nos eterniza num diálogo intenso com o leitor. Escrever é tão solitário e complexo como respirar. Mexer com palavras é marcar o momento exato de um milagre – respirar, inspirar e transpirar... um processo que marca o princípio e o fim da própria vida. É como cavar em nós mesmos. Tão imprevisível quanto as marés e o vento. Tão inexorável como as estações. É como parar frente a si mesmo e dar voltas e mais voltas em torno de racionalizar os sentimentos, experimentando a mesma conclusão de Oscar Wilde: “As emoções do homem são despertadas mais rapidamente que as idéias”.
O escritor poderia ser comparado a um agricultor que se lança à terra, vorazmente, na estação apropriada a fim de aproveitar bem o breve tempo de que dispõe. Engana-se quem pensa que a estiagem não serve para nada! É nela que ele trata a terra para que esteja apta a receber as primeiras gotas de chuva. Como a nossa geratriz encontra-se, fundamentalmente, na dedicação resoluta, o escritor sente-se com uma responsabilidade parecida com a de um jardineiro ou como a de um ourives que, persistentemente, lapida o papel tentando em vão descobrir a alma.
Existirá algum livro que jamais foi lido, cujas páginas não foram tocadas, manuseadas, não despertando em qualquer pessoa as emoções nele guardadas - tal qual uma pessoa que passou pela existência sem nunca ter experimentado qualquer tipo de amor?
O fim do escritor é o leitor? Ou será o começo? Não se sabe ao certo. A verdade é que entre ambos pode nascer uma bela amizade. No início dela, apenas a apresentação do escritor, não existe muita reciprocidade, é algo ainda unilateral, sem conhecimento mútuo, uma fase árida porque praticamente só lidamos com as diferenças (que, em geral, consideramos como defeitos).
Uma boa amizade requer tempo e dedicação. Para suportar os temporais. O bom seria nos apresentarmos ao vivo como somos, sem máscaras, sem muitos rodeios e falando daquilo que vivemos no dia-a-dia. Escrever de verdade é partir pra isso, é mergulhar desta forma. O livro é o cartão de visita do escritor e a palavra dele vai logo adiante, revelando muito sobre sua personalidade.
Os personagens são as várias faces do escritor, reconhecidas por ele e trabalhadas num papel por meio da sensibilidade. A arte do escritor no papel começa inconscientemente a trabalhar a alma do leitor, a sensibilidade mofada, quase inerte. Aí vem o turbilhão de emoções: riso, choro, raiva, dor, medo, curiosidade, paixão... Parar ou continuar? Uma pergunta que surge no leitor após o choque com a sensibilidade do escritor, pois esta mexe com a dele também. Ler e escrever não são apenas verbos, são ferramentas que lapidam o nosso ser.
O escritor e o leitor são muito parecidos. São tão humanos, demasiadamente humanos. Continuar ou parar?

- Esse livro eu gostei demais, muito bom! – poderá dizer um.
- Um lixo de livro! – exclamará outro.

Numa mesma obra artística poderão ocorrer efeitos bem distintos socialmente, mas que no íntimo são muito parecidos. A mensagem de um livro sempre caberá no espaço de seu espírito, no universo de seu mundo, identificando-se ou não. Vinícius de Morais sabiamente já pregava: “A gente não faz amigos, reconhece-os”.
O livro depositado pela mente do escritor é um instrumento de amizade. São neles que o escritor se apresenta e o leitor se reconhece com as atitudes e falhas de caráter dos personagens, falando dos erros dos outros, dando a cara à tapa, sendo franco e mentiroso consigo mesmo, ou até fazendo joguinhos que revelem tanto o lado bom como o ruim. Somos ou não seres humanos? E o que são os humanos, sem a sua maior qualidade – os defeitos!?
É estranho ver num livro só mocinhos ou mocinhas, e até uma biografia impecável. Histórias bonitas não são necessariamente uniformes, coerentes. Talvez estas sejam as mais desonestas, as mais corruptas. Não se enganem! Em toda forma de expressão cultural o artista se revela. Muitas vezes utiliza apetrechos de dissimulação, mas isso tudo faz parte. Pode parecer até mais louco do que já é, ou não. Quem é são nisso tudo? O escritor? O leitor? A criação? A criatura? O que significa ser são? É um bom questionamento.
Não é de hoje que se discute os critérios de enquadramento de loucura. Se por um lado, a loucura é algo tão chocante que a Bíblia e os livros espíritas se referem a ela como o extremo da degradação humano, por outro, pensadores como Michel Foucault, Erasmo de Roterdã, Émile Durkhein, Jean Paul Sartre, Frans Kafka e até Machado de Assis e Graciliano Ramos trataram o tema por outra perspectiva – a do questionamento.
Consensualmente, concluíram que é classificado como louco todo aquele que não se enquadra nos padrões sociais vigentes. Foucault, por exemplo, aborda o fato de se classificar alguém como louco a fim de tirar a sua condição de sujeito. Para ele, o fato de alguém ter o poder de classificação e triagem é algo perigosíssimo que atenta contra aquilo que hoje chamamos de democracia. Ao atribuir a alguém a condição de louco, desqualificasse-lhe como sujeito social, como cidadão. Mas desqualifica o quê, exatamente? Ora, seu discurso, isto é, seus posicionamentos e posturas, valores, livre arbítrio, tira-lhe toda liberdade. Pois, foucaultianamente falando, a “palavra é alvo do exercício de poderes que a controlam; os poderes não incidem apenas sobre os corpos, mas também sobre as palavras”. E qual o código dos livros? – Palavras!!!
O abstrato e o concreto se confundem nas palavras, no seio da mente tanto do leitor como do escritor. O livro é a única coisa palpável, indiscutivelmente vivo, queimando nas mãos, na mente. As palavras são como água de cachoeira. Lá do topo a pena do escritor jogando água sobre a mente do leitor. Informações mil se encontram, numa mistura de vidas, que por carregarem experiências tão distintas parecem pintar quadros diferentes em leituras a cada tempo, assim vão se formando as interpretações, as várias leituras de um mesmo livro. Não existe releitura de um livro. A releitura é um processo que acontece dentro de nós mesmos. A relação de amizade entre o escritor e o leitor é um encontro de emoções diferentes, mas ao mesmo tempo tão parecidas, porque são humanas. Um vínculo que pode se tornar tão intenso quanto o que entrelaçou Jonatas e Davi. Ao mostrar quem é, e como é, o escritor oferece uma amizade verdadeira e leal, em que pode ser que aconteça de magoar com sua rudeza, mas jamais com a falsidade ou com a falta de solidariedade. Quantos amigos você tem? Que tal um cartão de visita?