quarta-feira, 16 de maio de 2012

UM ROSTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Parte II

         A armadilha


Qual pai que ama sua filha não quer protegê-la? As meninas assim como passarinho são vítimas de uma armadilha, traídas pela sua própria candura que as impedem de reconhecer os ataques ferozes de seu algoz e se defender, escapando da arapuca a tempo.

Quantas meninas são encantadas por adultos que se passam por príncipes? 

Quantas, antes mesmo de sua festa de debutante, entregam sua inocência em troca dos sabores - e dissabores - da vida precocemente adulta? 

Com tão pouca idade, não há maturidade suficiente para discernir entre bem e mal, ou avaliar as conseqüências de seus atos. Toda menina tem direito de ser ingênua, porque para ela, nada a impede de viver de amor, como para qualquer menina-moça, o amor é suficiente.

Príncipe encantado, eterno namorado, grande amor de sua vida. Paixão inebriante que ordena que o siga e obedeça. Ainda que essa postura a faça desafiar os próprios pais. De repente, menina-moça passa a ser menina-mulher, brigada com sua própria família, afasta-se do lar doce lar e leva junto o primeiro filho.

Ainda de natureza doce e amigável, a menina-mulher convive com outra família, e a carência naturalmente a faz chamar outra de mãe e outro de pai. Para viver em harmonia, submete-se como uma filha às ordens e vontades alheias e estranhas.

Mas não demora muito para que o sonho representado nos romances pelo “felizes para sempre”, que por muito tempo esteve acalentado em seu peito, venha a parecer mera figura de linguagem aprisionada no final de livros e filmes.

Aos poucos, os vícios do companheiro – farrear e ficar de ressaca até tarde – o início das ofensas, dos empurrões começam a incomodar a menina-mulher, hoje não tão mais mulher, hoje semelhante à coisa.

Ressentida com a absoluta falta de carinho, o choro e a tristeza tornam-se companheiros do dia a dia. A violência doméstica lhe é empurrada goela abaixo, junto com o amargo da intolerância e a podridão da desumanidade. Quem sai do lar doce lar para sofrer? Quem entrega a vida em troca da morte?

O romantismo acabou. Amar transformou-se em sofrer. Nem mesmo o nascimento de um filho, que durante algum tempo lhe protegeu do mal e lhe dopou da triste realidade do cotidiano, lhe ajudou a administrar as agruras de um relacionamento conturbado, equilibrar-se sobre as bases frágeis da relação e, principalmente, esforça-se para não desagradar. Como o príncipe pôde tornar-se num ser desprovido de afeto, de piedade?  

As discussões, existentes em qualquer relacionamento saudável, ganham proporções gigantescas com a violência doméstica, passando a ser decididos na força física. A menina-mulher sente-se como propriedade e se vê muitas vezes acuada como um animal indefeso. Vinícius de Moraes descreve bem esse momento:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
 
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


UM ROSTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Parte I

Menina-moça

Menina-moça: a expressão carrega em si mesma uma perfeita combinação do que representa essa fase da vida de uma “não mais criança” e “ainda não mulher”. Cantada em prosa e em verso mundo afora, as adolescentes são como uma lufada de esperança, de sonho, de encanto. Fazem parte de um seleto grupo de mocinhas que, ao ver a luz do sol entrar pelas frestas dos casulos, já se sentem borboletas experientes, capazes de longos e seguros vôos pelos jardins da vida. Mergulhadas na mais densa ingenuidade, ignoram elas os perigos representados pelas intempéries da existência.

Acostumadas a viverem praticamente só entre os membros da própria família, protegidas pelos carinhos, cuidados e zelos dos pais, elas gostam do que toda garota de sua idade gosta: objetos cor de rosa, papel de carta decorado, poesias, alegria, música e descobertas. Qual menina não quer ir ao show de seus ídolos? Sair com as amigas para tomar sorvete na praça?

Qual menina, feito mandacaru florando na seca, não se pinta de manhã cedo, suspirando acordada? Nos idos de 1953, o mestre Luiz Gonzaga já cantava o desabrochar da menina-moça, que adoecia de amor, deixando o pai preocupado e dando trabalho para os profissionais de saúde.

Outro mestre, ainda mais antigo, também fala desse amor pueril. Machado de Assis, em 1870, descreve com sua pena incomparável o comportamento ora “recatado” ora “estouvadinho” desse ser que ele chama de “adorável e divino”, pois que essa é uma fase que “não é dia claro e é já o alvorecer; entreaberto botão, entrefechada rosa, um pouco de menina e um pouco de mulher. [...] Procura-se a mulher e encontra-se a menina. Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!.”

Menos românticos e mais realistas são os estudos e leis elaborados para cuidar e proteger esses seres que, por sua imaturidade, são vítimas fáceis de gente inescrupulosa. Seguindo esses estudos a Organização das Nações Unidas - ONU definiu como criança toda pessoa com idade inferior a 18 anos.  E, portanto, adulto qualquer um acima disso. 

Desde 1990, ou seja, há vinte anos, vigora no Brasil o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). E a principal razão de sua existência é a falta de respeito por parte de alguns adultos pelas crianças e adolescentes, enquanto seres mais frágeis, cuja proteção É PAPEL DE TODA A SOCIEDADE, segundo a Carta Magna.

terça-feira, 24 de abril de 2012


Até que a morte nos separe?

O templo, as flores, os convidados, a apreensão do noivo no altar, as marchas nupciais de Mendelssohn e Wagner anunciando a entrada triunfal da noiva, o brilho do vestido branco, a grinalda, as damas de honra, os olhares fixos, as palavras do padre, as alianças, o inesquecível “sim”, o beijo de entrega total, a chuva de arroz, a festa e a lua de mel ainda fazem parte da memória e do álbum de fotografias de muitos que tiveram a privilegiada oportunidade de comungar sonhos e esperanças. Contudo, a sociedade tem sofrido, durante os últimos anos, incontáveis mudanças, principalmente no tocante às relações afetivas. Perdeu-se nas brumas do passado a promessa que soava como celestial: "até que a morte nos separe".
O princípio do amor eterno, representado nos romances pelo “Felizes para sempre”, por muito tempo arrancou suspiros e povoou o imaginário de gerações, mas permaneceu aprisionado no final de livros e filmes. O conceito do casamento indissolúvel se relativizou e admite-se o lógico: se os seres humanos são suscetíveis a erros, é possível errar a escolha do companheiro.
O mundo moderno sepultou o conservadorismo da legislação, como vaticina a teoria de Miguel Reale (fato, valor e norma), abrindo espaço para a busca de laços estruturados em afinidade, companheirismo e desejo. Aquela expressão utilizada nas cerimônias de casamento ganha novos contornos, sendo atualmente interpretada como “até que a justiça nos separe” e, com isso, começar uma nova vida.


Matryoshka
Tiros cortam os ares afugentando de uma só vez centenas de aves. Os gritos agoniados dos macacos fugindo pelas copas das altíssimas árvores soam como um mau agouro, despertando o guerrilheiro escondido sob a vegetação rasteira. Seu coração dispara. O constante estado de tensão dos vários dias de fuga desde a emboscada deixou seus nervos em frangalhos, já não pode confiar em seu raciocínio. Trêmulo e de respiração ofegante tanto pela fome como pelo cansaço, procura compreender o que acontece ao seu redor. Seu tremor aumenta ao perceber os zunidos dos facões abrindo uma picada na floresta virgem a poucos metros de onde se encontra.
O som dos passos firmes dos soldados inimigos dá-lhe a certeza de que logo será descoberto. De repente, ouve frases. A voz é familiar, mas o tom arrogante era-lhe até então desconhecido. Gélido, concluiu que o melhor de seus soldados fora na verdade o seu algoz. Pablo jamais usara aquelas palavras nos cinco anos em que o conhecia. Por um momento sente-se culpado: talvez ele tenha sido a principal fonte de informações sigilosas dos bolivarianos. Entendia agora o apego de Pablo à sua pessoa e aquela insistência em quebrar a barreira psicológica que sempre mantivera erguida contra relacionamentos.
Sentiu repulsa por aquela amizade e, por um momento, se perguntou por que havia se permitido isso, se tinha escolhido a solidão como companheira. Nem mesmo em pesadelo poderia se imaginar tal qual estava agora: sendo caçado como a um animal raro por alguém a quem oferecera todo o seu conhecimento e afeto. Instintivamente levou a mão sobre o peito e a amargura pareceu engrossar o sangue em suas veias. Vagamente, sentiu que já experimentara aquele mesmo terrível sentimento antes. Mas não atinou exatamente quando.
A culpa e a frustração enchem o seu coração. Não entendia como ele, um guerrilheiro de longa experiência em frentes de batalhas, pudera ser levado pela cega confiança a ponto de se deixar cair em uma armadilha tão óbvia. Sabia que eram comuns aquelas traições, mas talvez – difícil admitir isso! – tenha se deixado enredar naquela situação por ingenuidade, cometendo o pior erro que um comandante possa ter. Jamais passou pela sua cabeça que pudesse ser atraiçoado. Não por um de seus compañeros, alguém a quem queria bem como a um irmão. Percebeu o quanto realmente havia se enganado.
- Gazmoñero! Bastardo! Boñiga!
Ao pronunciar os xingamentos se deu conta, pela primeira vez em muito tempo, de tudo que deixara para trás. Esquecera-se até mesmo de sua língua materna.
O abatimento penetrou seu íntimo ao reparar em uma mancha de sangue na perna da calça do uniforme. Era de seus hermanos. O rumor causado na mata pelos paramilitares traz a sensação de que a idéia inicial de vingá-los é impossível. Aflige-se.
Revê mentalmente toda a emboscada. Uma semana antes do confronto recebeu informações de Pablo acerca de um ataque a um povoado ao norte do acampamento. O povo resistia bravamente, mas as munições – bem artesanais – estavam no fim. Precisavam de ajuda urgentemente. As informações garantiam que o ataque estava sendo feito por um pequeno grupamento anti-bolivariano e que, portanto, poderia ser facilmente derrotado com um simples ataque-surpresa executado por duas dúzias de guerrilheiros. Após o relato de Pablo, o grupo decidiu unanimemente que levariam socorro ao povoado. Antes mesmo de o sol nascer, os guerrilheiros avançaram na densa e escura floresta. Quando descobriu a armadilha em que estava refém, já era muito tarde. Mais da metade do grupamento fora exterminado pelos imperialistas.
* * *
No terceiro dia de chuva, a garoa mantinha-se irredutível na sua tarefa de aniquilar as condições físicas e emocionais do solitário guerrilheiro que, graças ao uniforme molhado, via seus movimentos se tornarem gradativamente dificultados. Ciente de sua incapacidade de locomoção rápida por causa da pesada roupa que atrasava seus meticulosos passos, seus movimentos e lhe aniquilava as poucas forças que ainda lhe restavam, concentrou todas as suas energias e esperança em uma alucinada tentativa de descer por um barranco que o levaria até o rio. Ali talvez tivesse uma chance de escapar.
O clarão de um relâmpago deu-lhe uma idéia. Agachou-se como um velocista e esperou para a desabalada carreira. Como se tivesse combinado com os céus, a trovoada acionou sua corrida e uma intensa chuva caiu sobre a floresta. Mas antes que conseguisse alcançar o barranco, o trovão se dissipou e outro relâmpago o deixou visível aos seus inimigos. Ouviu então um disparo e tudo o que sentiu em seguida foi um intenso ardor que queimou desde suas costelas até seu abdômen, ao mesmo tempo em que um forte impacto o lançou para frente dando-lhe a certeza de que o atirador acertara seu alvo.
Seu corpo se misturou então à lama e às folhas que se desprendiam do barranco enquanto deslizava em alta velocidade. Queria relaxar para não sentir as violentas pancadas nos troncos, mas precisava manter o corpo contraído a fim de evitar a hemorragia. Os segundos pareciam eternizar-se naquele início de temporal. Estava coberto com folhas e rolando velozmente até uma parte acidentada, cheia de pedregulhos pontiagudos. Na dolorosa descida, encaixou-se perfeitamente dentro de um tronco oco, que estava deitado no chão, apoiado numa árvore.
Sentiu um arrepio subir pela espinha dorsal. Olhou para o céu, buscando em meio às folhas verdes, a claridade daquela manhã, como que querendo recarregar as energias e diminuir aquela experimentação de dores que lhe invadiam todo o seu corpo. A tensão faz correr um fio de suor pelo rosto cicatrizado que lhe dava uma aparência muito mais velha do que a pouca idade que realmente tinha. Era quase um menino ainda, o que lhe valeu o apelido de “El Niño” quando chegou entre os camponeses indígenas, há seis anos. Contudo, seu currículo o denunciava como um velho combatente. Sentou-se com esforço, na tentativa de regular a respiração e arranjar forças para contrair os músculos a fim de evitar uma hemorragia. Pelo menos era o que presumia que acontecesse segundo seu precário conhecimento de medicina. Mesmo sentado, faltava-lhe força. O corpo não obedecia. Escutava gritos do outro lado da floresta. Inutilmente, El Niño tentou apanhar o rifle afundado na lama para seguir em frente. A chuva intensificava-se cada vez mais.
El Niño lutava contra a morte, mas para ele mais importante que sua própria sobrevivência era a segurança de seus companheiros e o sucesso da revolução latino-americana implantada há meia década. Compreendia com serenidade a situação delicada em que estava envolvido naquele momento, por isso não pretendia ser utilizado como arma contra seus hermanos, que, como ele, seriam capazes de se sacrificarem ao invés de servir para a coalizão inimiga. Enquanto se arrastava à procura de um lugar mais seguro, agonizava... Escondido dentro de um tronco oco, onde se protegia da chuva e dos inimigos.