quarta-feira, 16 de maio de 2012

UM ROSTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Parte II

         A armadilha


Qual pai que ama sua filha não quer protegê-la? As meninas assim como passarinho são vítimas de uma armadilha, traídas pela sua própria candura que as impedem de reconhecer os ataques ferozes de seu algoz e se defender, escapando da arapuca a tempo.

Quantas meninas são encantadas por adultos que se passam por príncipes? 

Quantas, antes mesmo de sua festa de debutante, entregam sua inocência em troca dos sabores - e dissabores - da vida precocemente adulta? 

Com tão pouca idade, não há maturidade suficiente para discernir entre bem e mal, ou avaliar as conseqüências de seus atos. Toda menina tem direito de ser ingênua, porque para ela, nada a impede de viver de amor, como para qualquer menina-moça, o amor é suficiente.

Príncipe encantado, eterno namorado, grande amor de sua vida. Paixão inebriante que ordena que o siga e obedeça. Ainda que essa postura a faça desafiar os próprios pais. De repente, menina-moça passa a ser menina-mulher, brigada com sua própria família, afasta-se do lar doce lar e leva junto o primeiro filho.

Ainda de natureza doce e amigável, a menina-mulher convive com outra família, e a carência naturalmente a faz chamar outra de mãe e outro de pai. Para viver em harmonia, submete-se como uma filha às ordens e vontades alheias e estranhas.

Mas não demora muito para que o sonho representado nos romances pelo “felizes para sempre”, que por muito tempo esteve acalentado em seu peito, venha a parecer mera figura de linguagem aprisionada no final de livros e filmes.

Aos poucos, os vícios do companheiro – farrear e ficar de ressaca até tarde – o início das ofensas, dos empurrões começam a incomodar a menina-mulher, hoje não tão mais mulher, hoje semelhante à coisa.

Ressentida com a absoluta falta de carinho, o choro e a tristeza tornam-se companheiros do dia a dia. A violência doméstica lhe é empurrada goela abaixo, junto com o amargo da intolerância e a podridão da desumanidade. Quem sai do lar doce lar para sofrer? Quem entrega a vida em troca da morte?

O romantismo acabou. Amar transformou-se em sofrer. Nem mesmo o nascimento de um filho, que durante algum tempo lhe protegeu do mal e lhe dopou da triste realidade do cotidiano, lhe ajudou a administrar as agruras de um relacionamento conturbado, equilibrar-se sobre as bases frágeis da relação e, principalmente, esforça-se para não desagradar. Como o príncipe pôde tornar-se num ser desprovido de afeto, de piedade?  

As discussões, existentes em qualquer relacionamento saudável, ganham proporções gigantescas com a violência doméstica, passando a ser decididos na força física. A menina-mulher sente-se como propriedade e se vê muitas vezes acuada como um animal indefeso. Vinícius de Moraes descreve bem esse momento:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
 
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


UM ROSTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Parte I

Menina-moça

Menina-moça: a expressão carrega em si mesma uma perfeita combinação do que representa essa fase da vida de uma “não mais criança” e “ainda não mulher”. Cantada em prosa e em verso mundo afora, as adolescentes são como uma lufada de esperança, de sonho, de encanto. Fazem parte de um seleto grupo de mocinhas que, ao ver a luz do sol entrar pelas frestas dos casulos, já se sentem borboletas experientes, capazes de longos e seguros vôos pelos jardins da vida. Mergulhadas na mais densa ingenuidade, ignoram elas os perigos representados pelas intempéries da existência.

Acostumadas a viverem praticamente só entre os membros da própria família, protegidas pelos carinhos, cuidados e zelos dos pais, elas gostam do que toda garota de sua idade gosta: objetos cor de rosa, papel de carta decorado, poesias, alegria, música e descobertas. Qual menina não quer ir ao show de seus ídolos? Sair com as amigas para tomar sorvete na praça?

Qual menina, feito mandacaru florando na seca, não se pinta de manhã cedo, suspirando acordada? Nos idos de 1953, o mestre Luiz Gonzaga já cantava o desabrochar da menina-moça, que adoecia de amor, deixando o pai preocupado e dando trabalho para os profissionais de saúde.

Outro mestre, ainda mais antigo, também fala desse amor pueril. Machado de Assis, em 1870, descreve com sua pena incomparável o comportamento ora “recatado” ora “estouvadinho” desse ser que ele chama de “adorável e divino”, pois que essa é uma fase que “não é dia claro e é já o alvorecer; entreaberto botão, entrefechada rosa, um pouco de menina e um pouco de mulher. [...] Procura-se a mulher e encontra-se a menina. Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!.”

Menos românticos e mais realistas são os estudos e leis elaborados para cuidar e proteger esses seres que, por sua imaturidade, são vítimas fáceis de gente inescrupulosa. Seguindo esses estudos a Organização das Nações Unidas - ONU definiu como criança toda pessoa com idade inferior a 18 anos.  E, portanto, adulto qualquer um acima disso. 

Desde 1990, ou seja, há vinte anos, vigora no Brasil o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA). E a principal razão de sua existência é a falta de respeito por parte de alguns adultos pelas crianças e adolescentes, enquanto seres mais frágeis, cuja proteção É PAPEL DE TODA A SOCIEDADE, segundo a Carta Magna.

terça-feira, 24 de abril de 2012


Até que a morte nos separe?

O templo, as flores, os convidados, a apreensão do noivo no altar, as marchas nupciais de Mendelssohn e Wagner anunciando a entrada triunfal da noiva, o brilho do vestido branco, a grinalda, as damas de honra, os olhares fixos, as palavras do padre, as alianças, o inesquecível “sim”, o beijo de entrega total, a chuva de arroz, a festa e a lua de mel ainda fazem parte da memória e do álbum de fotografias de muitos que tiveram a privilegiada oportunidade de comungar sonhos e esperanças. Contudo, a sociedade tem sofrido, durante os últimos anos, incontáveis mudanças, principalmente no tocante às relações afetivas. Perdeu-se nas brumas do passado a promessa que soava como celestial: "até que a morte nos separe".
O princípio do amor eterno, representado nos romances pelo “Felizes para sempre”, por muito tempo arrancou suspiros e povoou o imaginário de gerações, mas permaneceu aprisionado no final de livros e filmes. O conceito do casamento indissolúvel se relativizou e admite-se o lógico: se os seres humanos são suscetíveis a erros, é possível errar a escolha do companheiro.
O mundo moderno sepultou o conservadorismo da legislação, como vaticina a teoria de Miguel Reale (fato, valor e norma), abrindo espaço para a busca de laços estruturados em afinidade, companheirismo e desejo. Aquela expressão utilizada nas cerimônias de casamento ganha novos contornos, sendo atualmente interpretada como “até que a justiça nos separe” e, com isso, começar uma nova vida.


Matryoshka
Tiros cortam os ares afugentando de uma só vez centenas de aves. Os gritos agoniados dos macacos fugindo pelas copas das altíssimas árvores soam como um mau agouro, despertando o guerrilheiro escondido sob a vegetação rasteira. Seu coração dispara. O constante estado de tensão dos vários dias de fuga desde a emboscada deixou seus nervos em frangalhos, já não pode confiar em seu raciocínio. Trêmulo e de respiração ofegante tanto pela fome como pelo cansaço, procura compreender o que acontece ao seu redor. Seu tremor aumenta ao perceber os zunidos dos facões abrindo uma picada na floresta virgem a poucos metros de onde se encontra.
O som dos passos firmes dos soldados inimigos dá-lhe a certeza de que logo será descoberto. De repente, ouve frases. A voz é familiar, mas o tom arrogante era-lhe até então desconhecido. Gélido, concluiu que o melhor de seus soldados fora na verdade o seu algoz. Pablo jamais usara aquelas palavras nos cinco anos em que o conhecia. Por um momento sente-se culpado: talvez ele tenha sido a principal fonte de informações sigilosas dos bolivarianos. Entendia agora o apego de Pablo à sua pessoa e aquela insistência em quebrar a barreira psicológica que sempre mantivera erguida contra relacionamentos.
Sentiu repulsa por aquela amizade e, por um momento, se perguntou por que havia se permitido isso, se tinha escolhido a solidão como companheira. Nem mesmo em pesadelo poderia se imaginar tal qual estava agora: sendo caçado como a um animal raro por alguém a quem oferecera todo o seu conhecimento e afeto. Instintivamente levou a mão sobre o peito e a amargura pareceu engrossar o sangue em suas veias. Vagamente, sentiu que já experimentara aquele mesmo terrível sentimento antes. Mas não atinou exatamente quando.
A culpa e a frustração enchem o seu coração. Não entendia como ele, um guerrilheiro de longa experiência em frentes de batalhas, pudera ser levado pela cega confiança a ponto de se deixar cair em uma armadilha tão óbvia. Sabia que eram comuns aquelas traições, mas talvez – difícil admitir isso! – tenha se deixado enredar naquela situação por ingenuidade, cometendo o pior erro que um comandante possa ter. Jamais passou pela sua cabeça que pudesse ser atraiçoado. Não por um de seus compañeros, alguém a quem queria bem como a um irmão. Percebeu o quanto realmente havia se enganado.
- Gazmoñero! Bastardo! Boñiga!
Ao pronunciar os xingamentos se deu conta, pela primeira vez em muito tempo, de tudo que deixara para trás. Esquecera-se até mesmo de sua língua materna.
O abatimento penetrou seu íntimo ao reparar em uma mancha de sangue na perna da calça do uniforme. Era de seus hermanos. O rumor causado na mata pelos paramilitares traz a sensação de que a idéia inicial de vingá-los é impossível. Aflige-se.
Revê mentalmente toda a emboscada. Uma semana antes do confronto recebeu informações de Pablo acerca de um ataque a um povoado ao norte do acampamento. O povo resistia bravamente, mas as munições – bem artesanais – estavam no fim. Precisavam de ajuda urgentemente. As informações garantiam que o ataque estava sendo feito por um pequeno grupamento anti-bolivariano e que, portanto, poderia ser facilmente derrotado com um simples ataque-surpresa executado por duas dúzias de guerrilheiros. Após o relato de Pablo, o grupo decidiu unanimemente que levariam socorro ao povoado. Antes mesmo de o sol nascer, os guerrilheiros avançaram na densa e escura floresta. Quando descobriu a armadilha em que estava refém, já era muito tarde. Mais da metade do grupamento fora exterminado pelos imperialistas.
* * *
No terceiro dia de chuva, a garoa mantinha-se irredutível na sua tarefa de aniquilar as condições físicas e emocionais do solitário guerrilheiro que, graças ao uniforme molhado, via seus movimentos se tornarem gradativamente dificultados. Ciente de sua incapacidade de locomoção rápida por causa da pesada roupa que atrasava seus meticulosos passos, seus movimentos e lhe aniquilava as poucas forças que ainda lhe restavam, concentrou todas as suas energias e esperança em uma alucinada tentativa de descer por um barranco que o levaria até o rio. Ali talvez tivesse uma chance de escapar.
O clarão de um relâmpago deu-lhe uma idéia. Agachou-se como um velocista e esperou para a desabalada carreira. Como se tivesse combinado com os céus, a trovoada acionou sua corrida e uma intensa chuva caiu sobre a floresta. Mas antes que conseguisse alcançar o barranco, o trovão se dissipou e outro relâmpago o deixou visível aos seus inimigos. Ouviu então um disparo e tudo o que sentiu em seguida foi um intenso ardor que queimou desde suas costelas até seu abdômen, ao mesmo tempo em que um forte impacto o lançou para frente dando-lhe a certeza de que o atirador acertara seu alvo.
Seu corpo se misturou então à lama e às folhas que se desprendiam do barranco enquanto deslizava em alta velocidade. Queria relaxar para não sentir as violentas pancadas nos troncos, mas precisava manter o corpo contraído a fim de evitar a hemorragia. Os segundos pareciam eternizar-se naquele início de temporal. Estava coberto com folhas e rolando velozmente até uma parte acidentada, cheia de pedregulhos pontiagudos. Na dolorosa descida, encaixou-se perfeitamente dentro de um tronco oco, que estava deitado no chão, apoiado numa árvore.
Sentiu um arrepio subir pela espinha dorsal. Olhou para o céu, buscando em meio às folhas verdes, a claridade daquela manhã, como que querendo recarregar as energias e diminuir aquela experimentação de dores que lhe invadiam todo o seu corpo. A tensão faz correr um fio de suor pelo rosto cicatrizado que lhe dava uma aparência muito mais velha do que a pouca idade que realmente tinha. Era quase um menino ainda, o que lhe valeu o apelido de “El Niño” quando chegou entre os camponeses indígenas, há seis anos. Contudo, seu currículo o denunciava como um velho combatente. Sentou-se com esforço, na tentativa de regular a respiração e arranjar forças para contrair os músculos a fim de evitar uma hemorragia. Pelo menos era o que presumia que acontecesse segundo seu precário conhecimento de medicina. Mesmo sentado, faltava-lhe força. O corpo não obedecia. Escutava gritos do outro lado da floresta. Inutilmente, El Niño tentou apanhar o rifle afundado na lama para seguir em frente. A chuva intensificava-se cada vez mais.
El Niño lutava contra a morte, mas para ele mais importante que sua própria sobrevivência era a segurança de seus companheiros e o sucesso da revolução latino-americana implantada há meia década. Compreendia com serenidade a situação delicada em que estava envolvido naquele momento, por isso não pretendia ser utilizado como arma contra seus hermanos, que, como ele, seriam capazes de se sacrificarem ao invés de servir para a coalizão inimiga. Enquanto se arrastava à procura de um lugar mais seguro, agonizava... Escondido dentro de um tronco oco, onde se protegia da chuva e dos inimigos.


domingo, 15 de novembro de 2009

Piada sem Graça!




Refiro-me ao Quadro “Quem chega lá” do Programa Domingão do Faustão exibido no dia 15 de novembro de 2009. O humorista Agildo Ribeiro fez parte de um Conselho de Jurados que avaliou três humoristas, entre eles, um bravo nordestino daqui do Piauí, de nome Amaury Jucá. Agildo teve a infeliz ideia de expor em rede nacional um sentimento repugnante de preconceito ao povo piauiense, à nação nordestina, ao nomear o Piaui como terra de ninguém. Esse tipo de comportamento só fortalece a desigualdade entre as regiões e o desconforto nacional frente a esse progressivo e cruel desequilíbrio que os políticos impõem sobre o Nordeste brasileiro. Tratam-nos como se o sol do Equador prejudicasse nossos neurônios e nos impedisse de sermos críticos, sensíveis e competentes. Pessoas como Agildo Ribeiro insistem num Brasil com geografia diferente, possuindo apenas como Estados, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. O seu desconhecimento, preconceito e etnocentrismo são uma afronta a quase 50% do povo brasileiro, pois representa uma visão de deboche, uma piada sem graça, que dói no coração de um NORDESTINO que acaba de deixar de ser seu fã. Finalizo convidando o Sr. Capitão do Preconceito a conhecer o Piauí e sua gente. Estamos de portas abertas. Assim protesto e me solidarizo com o grande profissional, orgulho do Piauí, Amaury Jucá!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Casa Grande em anos de chumbo

Acordei assustado com o barulho da janela batendo na parede, por causa do vento forte da madrugada. Resisti contra a necessidade de levantar para fechá-la. Mesmo coberto por um lençol e com o corpo todo encolhido, continuava sentindo frio. Muito exausto, fazia de tudo para pegar novamente no sono, tentando ignorar o rangido da janela que continuava balançando ao vento, agora sem dar pancadas.
Quando a dormência começou a me embriagar novamente, a janela voltou a bater, dessa vez com mais força. Parecia estar me provocando. O que será que ela tem contra mim? Será que não vê que estou com sono?, murmurei, brigando e esmurrando o colchonete. Enquanto levantava lentamente, fitei Arthur que continuava dormindo. Parecia estar bem melhor. Quando acordar, voltará a ser o mesmo!, sussurrei.
Deixando o amigo em seu merecido descanso, direcionei minhas atenções para a janela, única culpada por eu estar acordado. Pôxa vida, será que você não vê que estou tão cansado quanto Arthur?, reclamei mais uma vez antes de caminhar ao encontro da minha carrasca.
Com raiva, peguei em sua velha e maltratada madeira para fechá-la violentamente, mas logo fiquei com remorso imaginando há quantos séculos ela ali se sustentava bravamente. Arrependido pelos meus atos de incompreensão, fechei-a, para que ambos nos acalmássemos.
Quando me abaixei para apanhar um pedaço de madeira que pudesse escorar a janela barulhenta, escutei vozes baixas do lado de fora. Cautelosamente, estiquei o pescoço e me surpreendi com uma movimentação anormal na entrada da Casa Grande.
Estava muito escuro, a ponto de não se poder enxergar quase nada. O que querem com essa investigação, tamanha hora da noite?, indaguei-me. Poderiam ser ladrões, mas logo descartei essa hipótese, pois inexistia dentro da casa qualquer coisa valiosa. Será que alguém do grupo nos delatou? Pensei imediatamente em Gabriel, que naquele mesmo dia tinha demonstrado muito nervosismo e dado muitas desculpas para o seu atraso. Ele é o único que não olha as pessoas no rosto...
Aguçando mais a visão, percebi que eram cinco homens, sendo que os dois mais magros estavam olhando pela frecha da porta. Certamente não viam absolutamente nada. Se à luz do dia mal dava para enxergar o cofre que impedia a visão da galeria, imagine à noite! Os outros três, mais fortes, faziam a vigília ao lado da calçada. Aquilo era realmente muito estranho!
Meu coração acelerou abruptamente quando um dos que vigiavam ergueu a cabeça. Acho que não me viu! Será que me enxergou aqui, na janela? No mesmo instante, uma lanterna acesa foi direcionada para o buraco da porta, que estava protegida por um grande cadeado, no qual nunca confiei. Quando a luz da lanterna refletiu em suas roupas, percebi que eram “policiais”. Eles devem ter descoberto o nosso esconderijo!, afligi-me, colocando as mãos na cabeça.
Antes de acordar Arthur para uma fuga, olhei mais uma vez pela janela. Foi quando observei o guarda de maior estatura forçando o cadeado com um pé de cabra. Ele deve ter me visto! Corri em direção a Arthur, que acordou totalmente assustado. Logo ele, que acabara de se recuperar de uma das piores crises de esquizofrenia, passando quase dois dias fugindo das alucinações, agora teria que encarar a temível invasão, há tanto tempo esperada, e que quase o levou à loucura. Arthur não sabia o que fazer diante do medo e da aflição.
Depois de enrolar os três colchonetes, comecei a recolher todos os papéis, para eliminar qualquer suspeita sobre a nossa presença naquele lugar. Arthur não conseguia fazer absolutamente nada. Estava mais atrapalhando do que ajudando!
Quando o som que identifiquei ser o arrombamento da porta entrou em nossos ouvidos, ele se desesperou e correu para pegar o revólver que mantinha escondido por trás de uma janela. Pensei que fosse nos defender dos guardas, mas quando vi que estava apontando para a própria cabeça, entendi que passava por dois sérios problemas: os policiais e a esquizofrenia de Arthur, que acabara de voltar!
Pedi a ele que se acalmasse, contudo parecia nem me conhecer. Recuando para evitar que eu me aproximasse, quase enfiou o pé num buraco do piso, o que teria posto tudo a perder. Já tomado pelo desespero, coloquei minhas mãos em sua boca para que calasse, pois os policiais o escutariam e subiriam imediatamente. Não compreendendo o meu gesto, Arthur mordeu dois dedos da minha mão direita. Com a dor, quase deixei cair os papéis segurados pelo braço esquerdo.
Não tendo outra alternativa, cerrei o punho e dei um forte soco em seu rosto, esticando a mão rapidamente para segurar o revólver. Escutei as pisadas investigativas dos policiais, que já estavam dentro da Casa Grande. Pus as coisas no chão e segurei Arthur, com receio do piso ruir.
Antes de subir para o telhado, observei pelo buraco da madeira a luz da lanterna no primeiro pavimento. Logo estariam aqui no segundo andar. Tomei todo o cuidado para não fazer nenhum barulho. Nessas horas, qualquer som que não escutamos normalmente, parecia alto e agudo.
Com muito esforço consegui colocar Arthur na parte mais segura do telhado. Embora não crêssemos que uma invasão pudesse acontecer, havíamos nos preparado para isso. Nós, não! Arthur havia preparado aquela parte do telhado, cujo acesso se dava no final do corredor do segundo andar, para servir de esconderijo dentro da Casa Grande de Simplício Dias!
Voltei quase correndo para pegar todas as coisas que nos desvendaria. Agarrado aos três colchonetes, agachei-me para segurar os papéis e livros. Quando o fiz, deixei cair um bloco de anotações no piso de madeira, fazendo um barulho que imediatamente foi ouvido pelos policiais. Enquanto corria rumo ao telhado, entre tremores e gestos de agonia, escutei ordens de comando para o segundo pavimento.
Sem tempo a perder, subi para o telhado e lacrei a saída com seis telhas, deixando apenas uma brecha para observar a movimentação. A noite estava muito escura, dificultando o trabalho dos policiais e facilitando a nossa fuga.
Escutei quando subiram correndo. Tive certeza de que se continuassem naquele ritmo, a frágil estrutura do segundo pavimento não os agüentaria. E não deu em outra: quando os dois maiores subiram as escadas, no intuito de cumprir a ordem do superior, e colocaram os pés no piso de madeira, o mesmo se quebrou, jogando-os para o primeiro andar que, com o impacto do peso dos dois homens, também se rompeu. Daí, escutei apenas os gemidos de dores dos nossos algozes, que tinham ido parar, finalmente, no chão do térreo.
Enquanto os outros três cuidavam dos que caíram, escutei a voz irritada do que parecia ser o comandante da operação: Essa casa está completamente podre! Talvez aquele barulho tenha sido do piso, já querendo desmoronar. Não tem ninguém aqui!, esbravejou furiosamente. Senti um alívio ao ouvir aquele comentário. Estávamos, agora, a salvos.
Mesmo com o frio cortante da madrugada e a escuridão da noite sem lua, resolvi esperar um pouco mais no telhado. Com a confusão, não observei os dois pequenos cactos que cresciam no telhado. Joguei Arthur sobre eles, machucando-o ainda mais. Senti pena, mas não tive outra maneira de contornar aquela tensa situação. Até o amanhecer, permaneci assustado e atento a cada som.
Quando a aurora despontava no horizonte, retirei as telhas que nos ocultavam, e fui verificar como ficara o nosso esconderijo. Logo que cheguei ao lugar em que dormia, enxerguei uma imensa cratera no piso de madeira. O estrago impedia o contato com a escada que nos conduzia ao térreo e à galeria. Como faremos para sair daqui?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tortura em anos de chumbo



Estava no meio de um pesadelo. Os policiais avançavam sobre mim, tapando meu nariz com tanta força, que eu sentia dor na face e não conseguia respirar. Preciso acordar! É só um sonho ruim...!, dizia, sufocado. Abri os olhos e me dei conta de que tudo aquilo estava acontecendo realmente! Melhor seria ter permanecido dormindo. Eles haviam invadido a Casa Grande e, dessa vez, nem a janela barulhenta me ajudou!
Não conseguia mover-me, nem reagir. Imobilizado contra o colchonete, não fazia a menor idéia do que havia acontecido com Arthur, até que vi, através dos reflexos das lanternas que usavam para guiarem-se na escuridão da Casa Grande, que ele permanecia dormindo tranqüilamente, no canto da parede. Entendi que queriam apenas a mim. Não conseguia saber quantos havia.
Tentei gritar, mas já estava amordaçado. Ergueram-me pelos cabelos e enfiaram um saco na minha cabeça. Rapidamente, fui conduzido pela escadaria. O silêncio era assustador. E só foi interrompido pelo rangido da porta que se abriu, deixando entrar no casarão o frio gélido da madrugada sem chuva. Estava totalmente acordado, e tentava não fazer nada que pudesse piorar minha situação. Como me encontraram???
Senti quando dobramos a esquina. Lá, empurraram-me bruscamente, fazendo-me perder o equilíbrio. Caí por cima de um dos meus braços, que estavam amarrados para trás. Retorci-me de dor. Em seguida, encostaram o meu rosto na calçada e uma chuva de pancadas caiu sobre mim. Sentia ser espremido pelo impacto dos punhos que faziam minha cabeça bater, repetidas vezes, contra as pedras da calçada. Aos poucos, o saco se tornou uma tortura a mais. Procurava ar para respirar e não o encontrava. O pano que me amordaçava impedia que eu lançasse para fora o sangue que jorrava. Sentia a boca cheia de sangue quente. Comecei a engasgar.
Eles chutaram com tanta força o meu corpo, que senti fraqueza imediatamente. Sem ar, sentia-me zonzo. Em agonia dentro daquele saco, já cheio de sangue, dava gemidos abafados de dor. Pareciam nem escutar o meu sofrimento. Estou morrendo...
Escutei, então, uma ordem para pararem de bater. Mesmo atordoado, distingui facilmente aquela voz familiar. - Dantas! Pressenti sua presença na saída da Casa Grande, mas não quis crer. Ouvi pisadas. Mais alguém havia chegado. Parecia estar ali apenas para assistir meu suplício, pois permanecera calado o tempo inteiro. Arrastaram-me como um animal morto por muito tempo. Agora sei o que Vicente sentiu!
Apesar do esmorecimento físico, fiz mais um esforço: passei a língua por dentro da boca e notei a ausência de alguns dentes. Devo ter engolido-os! Senti então uma dor lancinante enquanto arrastavam-me pelo chão. Com a roupa rasgada, minhas costas nuas iam sendo feridas pelo calçamento. Provava, assim, o gosto amargo das conseqüências de querer libertar a cidade que eu adotara como minha.
Dominado por uma sensação de desmaio, escutava apenas as fortes pegadas dos que me levavam. Eles permaneciam mudos, e concentrados no que faziam. O último som que ouvi foi o rangido de uma pesada porta sendo aberta. Não sei o que aconteceu depois.
Quando voltei a mim, estavam abrindo minhas pálpebras inchadas. Senti que derramavam um pó, que caiu também em meus lábios. Era pimenta! Impulsivamente, puxei as mãos para tentar aliviar a terrível ardência. De nada adiantou. Estava preso por correntes, que fizeram um barulho estridente.
A pimenta despertou-me totalmente. Escutei gargalhadas. De braços abertos e joelhos encostados no chão, senti-me um animal num matadouro. A corrente que contornava o meu corpo, indo até os pés, era bastante apertada, fazendo-me sentir claustrofobia. Meus olhos latejavam e eu os piscava seguidamente para que o ardor insuportável diminuísse.
Meus torturadores começaram a me interrogar sobre o paradeiro do meu avô. Eu não sabia o que responder. Um nó se formou em minha garganta, travando-a. Fiquei calado. Pelo que ouvi de um deles, não queriam que eu apagasse ou dormisse. E, principalmente, não queriam que eu morresse.
Com o rosto latejando e completamente inchado, tentei erguer a cabeça, que parecia estar amassada, para observar onde estava. Abri os olhos pela milésima vez, mas só divisei alguns detalhes ao meu redor que lembravam a masmorra aonde Vicente fora torturado até morrer. De repente, mãos fortes puxaram meus cabelos.

- Tá aqui o moleque, patrão!
- Há, há, há, há! O velho safado mandou esse moleque para me afrontar? É muito covarde mesmo! Quer usar o neto como isca! Se ele estiver aqui, vai ter que aparecer, pois o “netinho” dele está em minhas mãos – falava e me cuspia, fechando as mãos em punho.

Olhou-me bem, e me provocou:

- Como se não bastasse a mulher e a filha, quer te sacrificar agora, é? É brincadeira, não? É muito frouxo um homem desse! Fugiu há mais de vinte anos e agora manda o netinho na frente, para depois vir cantar de galo. Mas eu vou mostrar para ele. Ora se não vou! – exclamou gaguejando e me cuspiu novamente.

Aquele era o plano. Usar-me para pegar meu avô. Virou-se para Domingos e ordenou:

- Não o deixe dormir. E brinque um pouquinho com ele, para que aprenda a lição que o avô já devia ter aprendido. Ah!, e veja se consegue arrancar alguma informação do paradeiro daquele canalha.
- Há, há, há, há! Pode deixar, patrão, que a gente dá um jeitinho nele! Tava até com saudade disso. Fazia um tempinho que a gente não dava um trato em alguém, né, não, Dantas?
- Com certeza, Domingos!

Tentei escutar o que diziam depois que se afastaram, mas não ouvia nada. Algo escorria dos meus ouvidos, diminuindo cada vez mais minha audição. Minutos depois, com os olhos ainda ardendo por causa da pimenta, experimentei erguer pela segunda vez a cabeça e observar onde estava. Era o mesmo canto em que Vicente ficara pendurado na masmorra. Vendo-me aparentemente consciente, Domingos correu em minha direção e enfiou o cotovelo no meu estômago, fazendo-me abaixar novamente a cabeça, jorrando sangue. Quantas vezes me arrependi de tal atitude!

- Tá com saudades das minhas surras, moleque? Já quer começar a brincar de novo?
- Domingos, deixe para mais tarde!
- Que é isso Dantas? Tá mole, homem? O que tá acontecendo contigo?
- Nada, apenas quero vê-lo melhor... Depois, você pode fazer o que quiser!
- Tá com pena, Dantas?
- Não, apenas eu quero lhe perguntar umas coisinhas...
- Tudo bem! Faça o que lhe for da cabeça, mas deixe as pancadas pra mim. Ele é todo meu! Enquanto você conversa com o moleque, vou atrás de um fio de ferro para brincar com ele mais tarde.

Ainda consegui escutar um fio de voz daquele homem, mas não sabia se ele estava realmente se distanciando. Não confiei na minha audição, pois a perdia rapidamente. Nem percebi quando Dantas se aproximou de mim. Vi apenas os sapatos brilhantes encostarem-se ao meu joelho. Demorou alguns minutos em pé. Até que puxou meus cabelos para cima e, com um pano, limpou o meu rosto completamente desfigurado. Parecia estar me analisando.
Entre manchas brancas na visão, vi a testa franzida daquele homem. De repente, ele começou a abrir e fechar a boca, como se estivesse falando alguma coisa. Estou completamente surdo! Eu queria enxergar melhor os detalhes do seu rosto, mas parecia estar perdendo também a visão. Em uma das vezes que passava o pano para limpar o sangue endurecido da minha face, senti um carinho vindo das mãos pesadas de Dantas. Mesmo sem ter provas, parecia já estar seguro da conclusão que para ele também devia estar sendo macabra. Juro que naquele momento acreditei que fosse me salvar!
Finalmente, Dantas deixou cair a minha cabeça. Ergueu-se e ficou parado à minha frente, provavelmente dizendo alguma coisa. Angustiava-me muito não conseguir ouvir nada do que aquele homem falava. Até que tocou as correntes, balançando-as de leve, e se foi tranqüilamente, sem olhar para trás.
Ao mesmo tempo em que estava chocado com a frieza daquele homem, sentia-me aliviado por estar agora sozinho. Não percebia a presença de mais ninguém além de mim. A tristeza aos poucos demoveu minhas últimas forças. Chorei silenciosamente. Já não sentia medo, apenas amargura e decepção. As cenas do dia anterior na praça sucediam-se em minha mente. Mas eu não queria pensar nelas, pois aumentavam meu sofrimento.
Lamentei pela falta de cuidados na segurança. Como pude ser tão tolo? Arrisquei-me com tanta facilidade. Não poderia ter continuado na Casa Grande depois daquela invasão! Os pensamentos me atormentavam agora mais do que meu corpo, em trapos. Temi por aqueles homens e mulheres que haviam declarado publicamente apoio ao movimento; pessoas como Galdino Veras que, desde o dia em que se declarou a favor, fora deixado de lado pelo regime, e seria destruído depois.
Recusava-me a pensar sobre o que tinham feito a Arthur. Se não tivesse sido seqüestrado também, provavelmente conjeturava que eu fugira para a fazenda, abandonando a causa. As duas possibilidades me entristeciam. Não havia chance de socorro. A morte seria o meu consolo. Torci para que ela chegasse antes de Domingos. Deixei-me morrer. Até que um arrepio percorreu todo o meu corpo.
Um frio confortante penetrou nos meus sentidos, fazendo-me lentamente recuperar a visão, a audição e, principalmente, o equilíbrio mental. Senti-me novamente motivado a viver, mesmo tendo que suportar o suplício das torturas que sabia virem pela frente. Algo me dizia para continuar aparentando debilidade. Nesse momento, uma voz interior me disse: Você irá viver!
Mesmo com uma disposição absolutamente diferente, decidi permanecer na mesma posição para evitar que Domingos me flagrasse de pé. E ele chegou meia hora depois. Entre risos e palavras de escárnio, recomeçou a me espancar. Eu não sentia nada! Estava transpassado pela dor. Ainda cheguei a escutar a respiração ofegante de Domingos, que cansou o braço de tanto me bater. Como que revoltado com a recusa do seu corpo em continuar me torturando, Domingos disse: O que está havendo comigo? Nunca fiquei tão cansado em meus serviços!
Dominado pela raiva, pegou um pedaço de ferro. Foram alguns golpes leves. Logo ouvi o barulho do bastão bater na parede. Domingos sentou-se no chão, de tão exausto que ficara. Acho que estou ficando gripado... Todos os meus ossos doem! Você tem sorte, moleque! Vai ser o primeiro torturado a dormir, mas ninguém pode saber disso, viu? É o nosso segredinho! Veio em minha direção e verificou meu pulso. Ao confirmar que ainda estava vivo, deixou-me sozinho. Não confiava nele. Talvez tivesse apenas ido buscar outras ferramentas para me torturar ou até trouxesse outra pessoa para substituí-lo.
Muitas horas já haviam se passado sem que ninguém me incomodasse. Lentamente me recuperava. Cada minuto parecia uma eternidade. Esperava tensamente alguma outra investida de Domingos contra meu corpo.
Evitava cochilar, pois temia que quando o fizesse, seria acordado e novamente torturado. Cheguei a pensar que o melhor seria ficar ali e aproveitar o tempo sem suplícios. Se dormir..., sussurrei, ouvindo pela primeira vez o eco da minha voz dentro daquela masmorra, e sentindo a ausência dos dentes. Não consegui terminar a frase. Mas calculava que se dormisse seria surrado. Acordado estou a salvo!
Aliviei a bexiga, molhando as calças como uma criança. Mal saberia que quando fizesse isso de novo, sentiria uma dor que jamais esqueceria.

- Vovô o senhor está vivo?
- O que é isso, meu neto?
- Mas e o Movimento?
- Movimento o quê?
- É, vovô... os meus amigos: Vicente, Arthur, Antônio... Caroline! O que aconteceu com eles?
- De quem você está falando?
- Vovô, são as pessoas que estão me ajudando em Parnaíba!
- Há, há, há! Foi só um sonho, meu neto! Foi tudo um sonho!
- Não, eu tenho certeza que não foi, pois lembro da Casa Grande, da Praça da Graça, enfim de Parnaíba! Eu andei em suas ruas. Conheci a sua gente e quis lutar pela sua liberdade. Por que vim parar aqui? O que houve?
- Meu filho, é claro que você conheceu Parnaíba. Só que através de fotos. O que é muito diferente de pessoalmente. Vejo que essas estórias que ando lhe contando estão fazendo você ver coisas. Insisto, foi apenas um sonho.
- Não! – grito – Não foi! Eles são reais!

Vovô olhou-me colérico e disse:

- Você nunca foi de gritar comigo! O que está acontecendo com a educação que eu lhe dei! Chamarei um médico para saber o que está havendo! Vamos para a capital.

Fitei o rosto daquele homem, que nem de longe, parecia o meu avô, e firmemente lhe mandei embora, dizendo-lhe que não iria para onde ele queria me levar.

- Vá embora! – gritei-lhe.
- Menino! Respeite o seu avô!
- Ele jamais falaria comigo dessa forma! – retruquei.

O homem que tinha o mesmo aspecto físico do meu velho afastou-se, gritando para seu Zé que eu estava doente e precisava de um médico urgente. Quando os dois se aproximaram de mim, fitei-os grosseiramente.

- Zé, não vê? Ele nem me conhece mais!
- Por que ele está de olhos arregalados? Parece querer nos matar!
- Saiam daqui! Vão embora! – esperneei, mas estava preso em uma cama.

Os dois impostores sumiram e senti minha roupa sendo retirada. Acordei e percebi que não passara de um sonho e que eu continuava na masmorra. Observei Domingos retirando lentamente a minha bermuda. A primeira impressão que tive foi a de que ele cometeria um abuso sexual. Enxerguei, então, uma haste de ferro e um isqueiro, e fiquei apavorado! O que esse louco pretende, meu Deus?!
Fechei os olhos tentando fazer tudo aquilo desaparecer, mas de nada adiantou. Domingos enfiou vagarosamente a haste dentro do meu canal urinário. Escutando meus gemidos de dor, ele dava gargalhadas e pulava de felicidade. Espera que têm mais!, vibrava com sadismo.
Senti náuseas, e vomitei no seu rosto sorridente. Recuando, Domingos arrancou de uma vez o ferro que estava dentro de mim. E agora com raiva, enfiou rapidamente e acendeu o isqueiro, colocando para esquentar a ponta de fora da haste. Tento não lembrar das dores e sofrimentos que passei, mas até hoje tenho pesadelos.
O ferro foi esquentando e dilatando. A temperatura era cada vez mais elevada. Queimava tudo por dentro. Involuntariamente, me urinei. Aquele líquido saindo forçosamente pelo canal torturado pela haste de ferro quente, foi para mim um dos mais terríveis momentos da minha vida!
Apesar de estar perdendo os sentidos por causa do sofrimento, escutei quando a urina saiu chiando, como se estivesse fervendo instantaneamente. O que para aquele louco foram apenas alguns minutos de diversão e prazer, para mim foram horas de agonia. Depois que retirou a haste, senti-me impossibilitado de qualquer reação.
Entregue ao desfalecimento, senti a presença de uma segunda pessoa no local.

- Como está o nosso prisioneiro? –perguntou uma voz não muito estranha, carregada de sarcasmo.
- Estava esperando por você até agora, mas como demorou demais, dei o trato nele sozinho!
- Não dá para fazer de novo?
- Dá, ora!... É pra já!

Não conseguia identificar quem era aquele homem que guardava tanto ódio de mim e que, sem piedade, pedira mais uma tortura daquelas. Da mesma forma que antes, Domingos enfiou a haste com força. Gemi e apaguei. Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente, nem quantos choques e pancadas me deram para que eu acordasse.
Vagamente escutei Domingos conversar com a pessoa que viera me ver ser torturado. Agucei a audição, mas ainda não identificava quem era o homem. Ele estava de costas para mim. Eu conheço essa voz!...
Os risos de escárnio, mesclados com prazer e ódio, aumentavam minha ânsia em sair daquela situação.
Num fio de esperança, analisei meu estado físico. Quanto tempo ainda posso suportar até aparecer uma chance de fugir? Olhei então para meu braço direito e vi meu punho totalmente roxo. Tentei mover os dedos, mas eles continuaram cerrados. Fiquei preocupado! A mensagem enviada pelo cérebro não funcionava. Lentamente, mirei meu outro braço, e reparei que vários ferimentos o contornavam até à mão que, ao contrário da esquerda, não estava arroxeada e podia mexer-se normalmente. Fiquei ainda mais tenso!
Das dezenas de pancadas que levei, nenhuma justificava a perda dos movimentos da mão direita ou aquela cor, que já se aproximava do preto. Então lembrei da claustrofobia que tive quando me vi preso pela corrente. E ela apertou muito o meu punho direito! Mas já faz tempo que não a sinto mais...
Sustentava todo o meu corpo sobre os joelhos esfolados. Sentia cãibra na perna esquerda. De cabeça baixa e mergulhado em pensamentos, nem percebi a aproximação do impiedoso rapaz que conversava com Domingos. Quando se dirigiu a mim, fingi estar desmaiado, o que não era muito difícil já que eu mal tinha forças para levantar a cabeça ou abrir meus olhos, por causa do inchaço.
Evitei encará-lo, pois já sabia a quem encontraria. Senti quando ele cuspiu duas vezes em meus cabelos. Ao ouvi-lo de perto, não tive mais nenhuma dúvida. Apesar do tom estar completamente carregado de ódio, reconheci a voz de Gabriel Marques.

- Este é o nosso prisioneiro, Domingos?
- Há, há, há , há!
- Pensa que é só chegar e mandar em tudo? Eu nunca fui teu empregado, sabia? – perguntava-me, chutando - Fiz questão de atrasar o teu almoço todos os dias. Eu adorei fazer isso, pois sabia que ficava te roendo de fome! Foi logo dominando o Antônio, e depois, a cada um dos meus amigos. Mas eu... eu nunca caí na tua lábia, seu moleque! Veio só para infernizar as nossas vidas! Nós já tínhamos feito história, não precisávamos fazer mais nada. Era só continuar como sempre fizemos: curtir nossa fama e nos gabar dos feitos de antigamente... Criticar? Criticar o quê? Por quê? A gente só tinha que falar mal nos bares, onde nenhum bêbado levasse a sério nossas palavras! Para parecer que somos oposição, que somos revolucionários. Intelectuais! Fazer umas poesias cheias de palavras que ninguém entende, que nunca vão ser entendidas nos cabarés nem nas igrejas. Nada de sair falando ou escrevendo coisas para despertar esse povo idiota que se diverte só falando mal da vida dos outros. Mas não! Tu convenceu todo mundo a cometer esse suicídio, acabando nossa política de boa vizinhança com o regime. Eu jamais fui com a tua cara, desde a primeira vez que te vi, lá na sinuca. Todo filho de uma puta! Mas a gota d’água foi quando me fez passar vergonha na reunião, com o Antônio me chamando atenção na frente dos outros. Foi a primeira vez que ele não me elogiou, não me engrandeceu por um dos títulos que eu tenho. Sabe quantos títulos eu tenho, seu moleque? Eu sou Gabriel Marques, membro de quatro academias! Na reunião passada ele tinha elogiado meu poema sobre a morte do meu pai. E agora, quando ele me chamou atenção, eu vi o teu olhar de gozação! Pensou que fosse ficar barato, né? Não ficou mesmo! – exclamou, colocando a ponta de um pedaço de madeira no meu queixo e me fazendo levantar a cabeça. Senti seu hálito de cachaça quando se aproximou e me cuspiu. Continuei de olhos fechados, como se estivesse inconsciente. Temia que ele fizesse mais alguma maldade contra o meu corpo, já destroçado – Naquele momento, prometi que me vingaria.

Como pude confiar numa pessoa tão desumana! Logo eu que cresci aprendendo a discernir quem tem caráter ou não! Vejo que não foi apenas o descuido com a minha própria segurança que fez eu ser preso. Foi uma traição que me trouxe até aqui! Enquanto lamentava, revia mentalmente a face de Gabriel na última reunião do Movimento. Deveria ter dado mais atenção àquele olhar rancoroso que ele me dirigiu durante alguns minutos.
Quantas revelações viriam mais pela frente! Depois de algum tempo de conversa, Gabriel se retirou e Domingos voltou para o seu posto, só que agora com um balde pesado na mão. Deve ter pegado na saída, pois acompanhara o coroinha sem carregar nada. Quando me viu consciente abriu um sorriso. Mesmo no escuro, divisei seus enormes dentes brancos, que chamavam a atenção. Ocupado em observar aquele rosto marcado por cicatrizes, esqueci de tentar descobrir o que havia dentro daquele balde. Não quero nem saber! Por que não me mata logo?
Domingos mudou de estratégia, ou essa atitude faz parte de uma nova fase de tortura! Estava psicologicamente destruído e temia que Domingos tivesse alguma nova idéia. Senti então a temperatura do balde, encostado propositalmente no meu joelho esquerdo, que imediatamente ficou queimado. Ao lado, encontravam-se a haste de ferro e o isqueiro que me tiraram metade da vida. Parado ali, continuavam sendo uma forma de martírio para mim. Domingos era impiedoso.

- Se abaixar a cabeça, jogo pimenta nos olhos! E se não responder as minhas perguntas, vai tomar um banho bem gostoso! Por mim, faria as duas coisas agora, mas o chefe não quer desse jeito!...

Como poderia falar para aquele monstro? Será que ele não vê que estou impossibilitado de pronunciar qualquer frase?! Quando tentei pronunciar algumas palavras, quase não agüentei de dor. E ainda tinha que manter erguida a minha cabeça, que duplicava o peso a cada minuto. Mesmo tremendo muito, escutei atentamente cada questionamento. E com muito sofrimento, respondia. Às vezes, Domingos completava as frases para mim, por causa da minha pronúncia quase inaudível. Percebi que o interesse dele era obter o máximo de respostas sobre o Movimento, e passei a usá-las da melhor maneira que podia. Tentava ganhar tempo para que a água esfriasse no balde.
Mesmo com apenas um olho aberto, observava cada reação daquele monstro. Ele queria saber onde meu avô estava e o que queria. Foram horas de interrogatório, só interrompidas com respingos da água quente do recipiente, pois Domingos irritava-se com minha tremedeira e me queimava, sacudindo o balde. A cada instante, passei a dar informações mais precisas. Satisfeito com as respostas, jogou a água, já morna, no meu corpo, fazendo-me encolher por inteiro.
Como consegui inventar tantas mentiras?! Dissera que vovô se escondia no Palacete da Chagas Rodrigues, e que de lá controlava todo o Movimento. Disse ao monstro que meu avô não era o único envolvido. Havia muita gente por trás de todo o esquema libertário. Minha satisfação em ter me livrado da tortura passou instantaneamente. Provavelmente vou morrer quando ele voltar! Arrepiei-me ao perceber que tinha piorado minha situação. Quando chegasse no palacete e não constatasse nada do que falara, voltaria disposto a me matar. No entanto, aos poucos, a idéia de morrer foi-me parecendo o único alívio.
Enquanto aguardava a morte definitiva, as memórias da minha infância na fazenda começaram a me confortar. Vovô, o senhor faz tanta falta! Logo nos encontraremos novamente! E seremos, outra vez, o menino e o velho fidalgo... Meus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela súbita volta de Domingos. Escutei os troncos do corredor caírem no chão. Ele vem furioso!... Mas por que voltou tão rápido?
Não importava. Cada pisada daquele monstro representava para mim um alívio. Tentava sorrir, contudo não conseguia. Iria perder a vida, e isso não me entristecia. Estava ansioso para que ele terminasse tudo. Queria enfrentar a morte com o mínimo de dignidade! Fiquei de pé com muito esforço. Vi então uma pessoa se aproximar. Era muito mais magro do que Domingos. Quem será? A escuridão me impedia de enxergar mais detalhes do seu porte físico. Estava muito confuso, pois só conseguia abrir apenas um olho, e ainda pela metade.

- Carlos! – chamou uma voz feminina, suavemente – Onde você está?

Caroline! Eu tenho certeza que é Caroline! Mesmo achando que fosse um delírio, gemi alto para que me escutasse. Quase não agüentei de felicidade, quando senti a delicadeza de suas mãos ao tocar em meu rosto deformado. Doeu-me muito quando perguntou se era eu mesmo que estava ali acorrentado. Juro que naquele momento quis morrer, mas compreendi tal desconfiança diante do que provavelmente estava vendo. Olhava para o meu rosto, chorando.

- Estou com medo!
- Ele voltará. Fuja! – falei baixinho, duvidando que estivesse escutado.
- Vamos sair daqui o mais rápido que pudermos, meu amor! Domingos acabou de sair e pode voltar a qualquer momento. – dizia, com a voz trêmula, enquanto me soltava das correntes – Meu Deus! O que fizeram com você? – lamentava chorando entre soluços, ao mesmo tempo em que tentava me carregar apoiada em seu ombro. – Não morra! Eu preciso de você mais do que nunca!

Ela precisa de mim! Ela me ama! Sentia-me disposto a viver. E como primeira atitude, decidi diminuir, com muito esforço, o peso que Caroline carregava. Abaixei a cabeça para apoiar os pés corretamente, e vi na cintura dela um revólver, o que me deixou mais seguro.
Subimos com muita dificuldade os degraus da masmorra. No momento em que abríamos a porta da prisão subterrânea, deparamo-nos com Domingos Jorge Velho. Surpreso, ele demorou alguns segundos para reagir. Até que se lançou sobre nós, empurrando-nos escada abaixo. Felizmente, Caroline caiu sobre mim.

- Cadê o revólver? – perguntava-se, procurando com desespero a arma que trazia na cintura.

Domingos desceu furioso e, pisando em mim, puxou os cabelos de Caroline que continuava à procura da arma. Ele levantou Caroline, sacudindo-a longe. Estiquei a mão para apanhar o revólver, mas nada achei. Desesperado, apressei-me para impedir que Caroline fosse espancada. A única coisa que enxergava eram os braços de Domingos, que se levantavam e se abaixavam sobre o corpo frágil de Caroline. Tentei gritar, correr, pular em cima daquele monstro, contudo com a queda na escada, meu corpo mantinha-se imóvel.
Em uma das inúmeras tentativas de me erguer, senti no chão o cano frio do revólver. Tentei abrir a mão direita, mas ela permaneceu fechada. Virei-me, sentindo meu corpo rasgar-se, até que consegui agarrar a arma. Apontei para as costas de Domingos, apertei o gatilho três vezes. Ouvi então um forte barulho. Abri meu olho destro e vi Domingos caído por cima de Caroline. Arduamente, fui me arrastando, mas os centímetros que me separavam dos dois, pareciam quilômetros.
Empurrando o corpo de Domingos, encontrei Caroline respirando sofregamente. Coloquei a mão em seu rosto e o senti encharcado de sangue. Enquanto eu tentava balbuciar algumas simples palavras, levantava a sua cabeça. Quando o fiz, ela sentiu a minha presença e, molemente, começou a falar chorando.

- Carlos, meu amor... você não pode morrer!... Não desista! Liberte esse povo. Só você pode fazer isso! Eu... eu estou morrendo!
- Caroline, não!... – balbuciei, desesperado.
- Nós seríamos uma família... uma família muito feliz... Eu, você... e... o nosso... filho...

(ela estava grávida)

- Meu Deus!!! Caroline!!! Caroline!!! Caroline!!!