domingo, 15 de novembro de 2009

Piada sem Graça!




Refiro-me ao Quadro “Quem chega lá” do Programa Domingão do Faustão exibido no dia 15 de novembro de 2009. O humorista Agildo Ribeiro fez parte de um Conselho de Jurados que avaliou três humoristas, entre eles, um bravo nordestino daqui do Piauí, de nome Amaury Jucá. Agildo teve a infeliz ideia de expor em rede nacional um sentimento repugnante de preconceito ao povo piauiense, à nação nordestina, ao nomear o Piaui como terra de ninguém. Esse tipo de comportamento só fortalece a desigualdade entre as regiões e o desconforto nacional frente a esse progressivo e cruel desequilíbrio que os políticos impõem sobre o Nordeste brasileiro. Tratam-nos como se o sol do Equador prejudicasse nossos neurônios e nos impedisse de sermos críticos, sensíveis e competentes. Pessoas como Agildo Ribeiro insistem num Brasil com geografia diferente, possuindo apenas como Estados, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. O seu desconhecimento, preconceito e etnocentrismo são uma afronta a quase 50% do povo brasileiro, pois representa uma visão de deboche, uma piada sem graça, que dói no coração de um NORDESTINO que acaba de deixar de ser seu fã. Finalizo convidando o Sr. Capitão do Preconceito a conhecer o Piauí e sua gente. Estamos de portas abertas. Assim protesto e me solidarizo com o grande profissional, orgulho do Piauí, Amaury Jucá!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Casa Grande em anos de chumbo

Acordei assustado com o barulho da janela batendo na parede, por causa do vento forte da madrugada. Resisti contra a necessidade de levantar para fechá-la. Mesmo coberto por um lençol e com o corpo todo encolhido, continuava sentindo frio. Muito exausto, fazia de tudo para pegar novamente no sono, tentando ignorar o rangido da janela que continuava balançando ao vento, agora sem dar pancadas.
Quando a dormência começou a me embriagar novamente, a janela voltou a bater, dessa vez com mais força. Parecia estar me provocando. O que será que ela tem contra mim? Será que não vê que estou com sono?, murmurei, brigando e esmurrando o colchonete. Enquanto levantava lentamente, fitei Arthur que continuava dormindo. Parecia estar bem melhor. Quando acordar, voltará a ser o mesmo!, sussurrei.
Deixando o amigo em seu merecido descanso, direcionei minhas atenções para a janela, única culpada por eu estar acordado. Pôxa vida, será que você não vê que estou tão cansado quanto Arthur?, reclamei mais uma vez antes de caminhar ao encontro da minha carrasca.
Com raiva, peguei em sua velha e maltratada madeira para fechá-la violentamente, mas logo fiquei com remorso imaginando há quantos séculos ela ali se sustentava bravamente. Arrependido pelos meus atos de incompreensão, fechei-a, para que ambos nos acalmássemos.
Quando me abaixei para apanhar um pedaço de madeira que pudesse escorar a janela barulhenta, escutei vozes baixas do lado de fora. Cautelosamente, estiquei o pescoço e me surpreendi com uma movimentação anormal na entrada da Casa Grande.
Estava muito escuro, a ponto de não se poder enxergar quase nada. O que querem com essa investigação, tamanha hora da noite?, indaguei-me. Poderiam ser ladrões, mas logo descartei essa hipótese, pois inexistia dentro da casa qualquer coisa valiosa. Será que alguém do grupo nos delatou? Pensei imediatamente em Gabriel, que naquele mesmo dia tinha demonstrado muito nervosismo e dado muitas desculpas para o seu atraso. Ele é o único que não olha as pessoas no rosto...
Aguçando mais a visão, percebi que eram cinco homens, sendo que os dois mais magros estavam olhando pela frecha da porta. Certamente não viam absolutamente nada. Se à luz do dia mal dava para enxergar o cofre que impedia a visão da galeria, imagine à noite! Os outros três, mais fortes, faziam a vigília ao lado da calçada. Aquilo era realmente muito estranho!
Meu coração acelerou abruptamente quando um dos que vigiavam ergueu a cabeça. Acho que não me viu! Será que me enxergou aqui, na janela? No mesmo instante, uma lanterna acesa foi direcionada para o buraco da porta, que estava protegida por um grande cadeado, no qual nunca confiei. Quando a luz da lanterna refletiu em suas roupas, percebi que eram “policiais”. Eles devem ter descoberto o nosso esconderijo!, afligi-me, colocando as mãos na cabeça.
Antes de acordar Arthur para uma fuga, olhei mais uma vez pela janela. Foi quando observei o guarda de maior estatura forçando o cadeado com um pé de cabra. Ele deve ter me visto! Corri em direção a Arthur, que acordou totalmente assustado. Logo ele, que acabara de se recuperar de uma das piores crises de esquizofrenia, passando quase dois dias fugindo das alucinações, agora teria que encarar a temível invasão, há tanto tempo esperada, e que quase o levou à loucura. Arthur não sabia o que fazer diante do medo e da aflição.
Depois de enrolar os três colchonetes, comecei a recolher todos os papéis, para eliminar qualquer suspeita sobre a nossa presença naquele lugar. Arthur não conseguia fazer absolutamente nada. Estava mais atrapalhando do que ajudando!
Quando o som que identifiquei ser o arrombamento da porta entrou em nossos ouvidos, ele se desesperou e correu para pegar o revólver que mantinha escondido por trás de uma janela. Pensei que fosse nos defender dos guardas, mas quando vi que estava apontando para a própria cabeça, entendi que passava por dois sérios problemas: os policiais e a esquizofrenia de Arthur, que acabara de voltar!
Pedi a ele que se acalmasse, contudo parecia nem me conhecer. Recuando para evitar que eu me aproximasse, quase enfiou o pé num buraco do piso, o que teria posto tudo a perder. Já tomado pelo desespero, coloquei minhas mãos em sua boca para que calasse, pois os policiais o escutariam e subiriam imediatamente. Não compreendendo o meu gesto, Arthur mordeu dois dedos da minha mão direita. Com a dor, quase deixei cair os papéis segurados pelo braço esquerdo.
Não tendo outra alternativa, cerrei o punho e dei um forte soco em seu rosto, esticando a mão rapidamente para segurar o revólver. Escutei as pisadas investigativas dos policiais, que já estavam dentro da Casa Grande. Pus as coisas no chão e segurei Arthur, com receio do piso ruir.
Antes de subir para o telhado, observei pelo buraco da madeira a luz da lanterna no primeiro pavimento. Logo estariam aqui no segundo andar. Tomei todo o cuidado para não fazer nenhum barulho. Nessas horas, qualquer som que não escutamos normalmente, parecia alto e agudo.
Com muito esforço consegui colocar Arthur na parte mais segura do telhado. Embora não crêssemos que uma invasão pudesse acontecer, havíamos nos preparado para isso. Nós, não! Arthur havia preparado aquela parte do telhado, cujo acesso se dava no final do corredor do segundo andar, para servir de esconderijo dentro da Casa Grande de Simplício Dias!
Voltei quase correndo para pegar todas as coisas que nos desvendaria. Agarrado aos três colchonetes, agachei-me para segurar os papéis e livros. Quando o fiz, deixei cair um bloco de anotações no piso de madeira, fazendo um barulho que imediatamente foi ouvido pelos policiais. Enquanto corria rumo ao telhado, entre tremores e gestos de agonia, escutei ordens de comando para o segundo pavimento.
Sem tempo a perder, subi para o telhado e lacrei a saída com seis telhas, deixando apenas uma brecha para observar a movimentação. A noite estava muito escura, dificultando o trabalho dos policiais e facilitando a nossa fuga.
Escutei quando subiram correndo. Tive certeza de que se continuassem naquele ritmo, a frágil estrutura do segundo pavimento não os agüentaria. E não deu em outra: quando os dois maiores subiram as escadas, no intuito de cumprir a ordem do superior, e colocaram os pés no piso de madeira, o mesmo se quebrou, jogando-os para o primeiro andar que, com o impacto do peso dos dois homens, também se rompeu. Daí, escutei apenas os gemidos de dores dos nossos algozes, que tinham ido parar, finalmente, no chão do térreo.
Enquanto os outros três cuidavam dos que caíram, escutei a voz irritada do que parecia ser o comandante da operação: Essa casa está completamente podre! Talvez aquele barulho tenha sido do piso, já querendo desmoronar. Não tem ninguém aqui!, esbravejou furiosamente. Senti um alívio ao ouvir aquele comentário. Estávamos, agora, a salvos.
Mesmo com o frio cortante da madrugada e a escuridão da noite sem lua, resolvi esperar um pouco mais no telhado. Com a confusão, não observei os dois pequenos cactos que cresciam no telhado. Joguei Arthur sobre eles, machucando-o ainda mais. Senti pena, mas não tive outra maneira de contornar aquela tensa situação. Até o amanhecer, permaneci assustado e atento a cada som.
Quando a aurora despontava no horizonte, retirei as telhas que nos ocultavam, e fui verificar como ficara o nosso esconderijo. Logo que cheguei ao lugar em que dormia, enxerguei uma imensa cratera no piso de madeira. O estrago impedia o contato com a escada que nos conduzia ao térreo e à galeria. Como faremos para sair daqui?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tortura em anos de chumbo



Estava no meio de um pesadelo. Os policiais avançavam sobre mim, tapando meu nariz com tanta força, que eu sentia dor na face e não conseguia respirar. Preciso acordar! É só um sonho ruim...!, dizia, sufocado. Abri os olhos e me dei conta de que tudo aquilo estava acontecendo realmente! Melhor seria ter permanecido dormindo. Eles haviam invadido a Casa Grande e, dessa vez, nem a janela barulhenta me ajudou!
Não conseguia mover-me, nem reagir. Imobilizado contra o colchonete, não fazia a menor idéia do que havia acontecido com Arthur, até que vi, através dos reflexos das lanternas que usavam para guiarem-se na escuridão da Casa Grande, que ele permanecia dormindo tranqüilamente, no canto da parede. Entendi que queriam apenas a mim. Não conseguia saber quantos havia.
Tentei gritar, mas já estava amordaçado. Ergueram-me pelos cabelos e enfiaram um saco na minha cabeça. Rapidamente, fui conduzido pela escadaria. O silêncio era assustador. E só foi interrompido pelo rangido da porta que se abriu, deixando entrar no casarão o frio gélido da madrugada sem chuva. Estava totalmente acordado, e tentava não fazer nada que pudesse piorar minha situação. Como me encontraram???
Senti quando dobramos a esquina. Lá, empurraram-me bruscamente, fazendo-me perder o equilíbrio. Caí por cima de um dos meus braços, que estavam amarrados para trás. Retorci-me de dor. Em seguida, encostaram o meu rosto na calçada e uma chuva de pancadas caiu sobre mim. Sentia ser espremido pelo impacto dos punhos que faziam minha cabeça bater, repetidas vezes, contra as pedras da calçada. Aos poucos, o saco se tornou uma tortura a mais. Procurava ar para respirar e não o encontrava. O pano que me amordaçava impedia que eu lançasse para fora o sangue que jorrava. Sentia a boca cheia de sangue quente. Comecei a engasgar.
Eles chutaram com tanta força o meu corpo, que senti fraqueza imediatamente. Sem ar, sentia-me zonzo. Em agonia dentro daquele saco, já cheio de sangue, dava gemidos abafados de dor. Pareciam nem escutar o meu sofrimento. Estou morrendo...
Escutei, então, uma ordem para pararem de bater. Mesmo atordoado, distingui facilmente aquela voz familiar. - Dantas! Pressenti sua presença na saída da Casa Grande, mas não quis crer. Ouvi pisadas. Mais alguém havia chegado. Parecia estar ali apenas para assistir meu suplício, pois permanecera calado o tempo inteiro. Arrastaram-me como um animal morto por muito tempo. Agora sei o que Vicente sentiu!
Apesar do esmorecimento físico, fiz mais um esforço: passei a língua por dentro da boca e notei a ausência de alguns dentes. Devo ter engolido-os! Senti então uma dor lancinante enquanto arrastavam-me pelo chão. Com a roupa rasgada, minhas costas nuas iam sendo feridas pelo calçamento. Provava, assim, o gosto amargo das conseqüências de querer libertar a cidade que eu adotara como minha.
Dominado por uma sensação de desmaio, escutava apenas as fortes pegadas dos que me levavam. Eles permaneciam mudos, e concentrados no que faziam. O último som que ouvi foi o rangido de uma pesada porta sendo aberta. Não sei o que aconteceu depois.
Quando voltei a mim, estavam abrindo minhas pálpebras inchadas. Senti que derramavam um pó, que caiu também em meus lábios. Era pimenta! Impulsivamente, puxei as mãos para tentar aliviar a terrível ardência. De nada adiantou. Estava preso por correntes, que fizeram um barulho estridente.
A pimenta despertou-me totalmente. Escutei gargalhadas. De braços abertos e joelhos encostados no chão, senti-me um animal num matadouro. A corrente que contornava o meu corpo, indo até os pés, era bastante apertada, fazendo-me sentir claustrofobia. Meus olhos latejavam e eu os piscava seguidamente para que o ardor insuportável diminuísse.
Meus torturadores começaram a me interrogar sobre o paradeiro do meu avô. Eu não sabia o que responder. Um nó se formou em minha garganta, travando-a. Fiquei calado. Pelo que ouvi de um deles, não queriam que eu apagasse ou dormisse. E, principalmente, não queriam que eu morresse.
Com o rosto latejando e completamente inchado, tentei erguer a cabeça, que parecia estar amassada, para observar onde estava. Abri os olhos pela milésima vez, mas só divisei alguns detalhes ao meu redor que lembravam a masmorra aonde Vicente fora torturado até morrer. De repente, mãos fortes puxaram meus cabelos.

- Tá aqui o moleque, patrão!
- Há, há, há, há! O velho safado mandou esse moleque para me afrontar? É muito covarde mesmo! Quer usar o neto como isca! Se ele estiver aqui, vai ter que aparecer, pois o “netinho” dele está em minhas mãos – falava e me cuspia, fechando as mãos em punho.

Olhou-me bem, e me provocou:

- Como se não bastasse a mulher e a filha, quer te sacrificar agora, é? É brincadeira, não? É muito frouxo um homem desse! Fugiu há mais de vinte anos e agora manda o netinho na frente, para depois vir cantar de galo. Mas eu vou mostrar para ele. Ora se não vou! – exclamou gaguejando e me cuspiu novamente.

Aquele era o plano. Usar-me para pegar meu avô. Virou-se para Domingos e ordenou:

- Não o deixe dormir. E brinque um pouquinho com ele, para que aprenda a lição que o avô já devia ter aprendido. Ah!, e veja se consegue arrancar alguma informação do paradeiro daquele canalha.
- Há, há, há, há! Pode deixar, patrão, que a gente dá um jeitinho nele! Tava até com saudade disso. Fazia um tempinho que a gente não dava um trato em alguém, né, não, Dantas?
- Com certeza, Domingos!

Tentei escutar o que diziam depois que se afastaram, mas não ouvia nada. Algo escorria dos meus ouvidos, diminuindo cada vez mais minha audição. Minutos depois, com os olhos ainda ardendo por causa da pimenta, experimentei erguer pela segunda vez a cabeça e observar onde estava. Era o mesmo canto em que Vicente ficara pendurado na masmorra. Vendo-me aparentemente consciente, Domingos correu em minha direção e enfiou o cotovelo no meu estômago, fazendo-me abaixar novamente a cabeça, jorrando sangue. Quantas vezes me arrependi de tal atitude!

- Tá com saudades das minhas surras, moleque? Já quer começar a brincar de novo?
- Domingos, deixe para mais tarde!
- Que é isso Dantas? Tá mole, homem? O que tá acontecendo contigo?
- Nada, apenas quero vê-lo melhor... Depois, você pode fazer o que quiser!
- Tá com pena, Dantas?
- Não, apenas eu quero lhe perguntar umas coisinhas...
- Tudo bem! Faça o que lhe for da cabeça, mas deixe as pancadas pra mim. Ele é todo meu! Enquanto você conversa com o moleque, vou atrás de um fio de ferro para brincar com ele mais tarde.

Ainda consegui escutar um fio de voz daquele homem, mas não sabia se ele estava realmente se distanciando. Não confiei na minha audição, pois a perdia rapidamente. Nem percebi quando Dantas se aproximou de mim. Vi apenas os sapatos brilhantes encostarem-se ao meu joelho. Demorou alguns minutos em pé. Até que puxou meus cabelos para cima e, com um pano, limpou o meu rosto completamente desfigurado. Parecia estar me analisando.
Entre manchas brancas na visão, vi a testa franzida daquele homem. De repente, ele começou a abrir e fechar a boca, como se estivesse falando alguma coisa. Estou completamente surdo! Eu queria enxergar melhor os detalhes do seu rosto, mas parecia estar perdendo também a visão. Em uma das vezes que passava o pano para limpar o sangue endurecido da minha face, senti um carinho vindo das mãos pesadas de Dantas. Mesmo sem ter provas, parecia já estar seguro da conclusão que para ele também devia estar sendo macabra. Juro que naquele momento acreditei que fosse me salvar!
Finalmente, Dantas deixou cair a minha cabeça. Ergueu-se e ficou parado à minha frente, provavelmente dizendo alguma coisa. Angustiava-me muito não conseguir ouvir nada do que aquele homem falava. Até que tocou as correntes, balançando-as de leve, e se foi tranqüilamente, sem olhar para trás.
Ao mesmo tempo em que estava chocado com a frieza daquele homem, sentia-me aliviado por estar agora sozinho. Não percebia a presença de mais ninguém além de mim. A tristeza aos poucos demoveu minhas últimas forças. Chorei silenciosamente. Já não sentia medo, apenas amargura e decepção. As cenas do dia anterior na praça sucediam-se em minha mente. Mas eu não queria pensar nelas, pois aumentavam meu sofrimento.
Lamentei pela falta de cuidados na segurança. Como pude ser tão tolo? Arrisquei-me com tanta facilidade. Não poderia ter continuado na Casa Grande depois daquela invasão! Os pensamentos me atormentavam agora mais do que meu corpo, em trapos. Temi por aqueles homens e mulheres que haviam declarado publicamente apoio ao movimento; pessoas como Galdino Veras que, desde o dia em que se declarou a favor, fora deixado de lado pelo regime, e seria destruído depois.
Recusava-me a pensar sobre o que tinham feito a Arthur. Se não tivesse sido seqüestrado também, provavelmente conjeturava que eu fugira para a fazenda, abandonando a causa. As duas possibilidades me entristeciam. Não havia chance de socorro. A morte seria o meu consolo. Torci para que ela chegasse antes de Domingos. Deixei-me morrer. Até que um arrepio percorreu todo o meu corpo.
Um frio confortante penetrou nos meus sentidos, fazendo-me lentamente recuperar a visão, a audição e, principalmente, o equilíbrio mental. Senti-me novamente motivado a viver, mesmo tendo que suportar o suplício das torturas que sabia virem pela frente. Algo me dizia para continuar aparentando debilidade. Nesse momento, uma voz interior me disse: Você irá viver!
Mesmo com uma disposição absolutamente diferente, decidi permanecer na mesma posição para evitar que Domingos me flagrasse de pé. E ele chegou meia hora depois. Entre risos e palavras de escárnio, recomeçou a me espancar. Eu não sentia nada! Estava transpassado pela dor. Ainda cheguei a escutar a respiração ofegante de Domingos, que cansou o braço de tanto me bater. Como que revoltado com a recusa do seu corpo em continuar me torturando, Domingos disse: O que está havendo comigo? Nunca fiquei tão cansado em meus serviços!
Dominado pela raiva, pegou um pedaço de ferro. Foram alguns golpes leves. Logo ouvi o barulho do bastão bater na parede. Domingos sentou-se no chão, de tão exausto que ficara. Acho que estou ficando gripado... Todos os meus ossos doem! Você tem sorte, moleque! Vai ser o primeiro torturado a dormir, mas ninguém pode saber disso, viu? É o nosso segredinho! Veio em minha direção e verificou meu pulso. Ao confirmar que ainda estava vivo, deixou-me sozinho. Não confiava nele. Talvez tivesse apenas ido buscar outras ferramentas para me torturar ou até trouxesse outra pessoa para substituí-lo.
Muitas horas já haviam se passado sem que ninguém me incomodasse. Lentamente me recuperava. Cada minuto parecia uma eternidade. Esperava tensamente alguma outra investida de Domingos contra meu corpo.
Evitava cochilar, pois temia que quando o fizesse, seria acordado e novamente torturado. Cheguei a pensar que o melhor seria ficar ali e aproveitar o tempo sem suplícios. Se dormir..., sussurrei, ouvindo pela primeira vez o eco da minha voz dentro daquela masmorra, e sentindo a ausência dos dentes. Não consegui terminar a frase. Mas calculava que se dormisse seria surrado. Acordado estou a salvo!
Aliviei a bexiga, molhando as calças como uma criança. Mal saberia que quando fizesse isso de novo, sentiria uma dor que jamais esqueceria.

- Vovô o senhor está vivo?
- O que é isso, meu neto?
- Mas e o Movimento?
- Movimento o quê?
- É, vovô... os meus amigos: Vicente, Arthur, Antônio... Caroline! O que aconteceu com eles?
- De quem você está falando?
- Vovô, são as pessoas que estão me ajudando em Parnaíba!
- Há, há, há! Foi só um sonho, meu neto! Foi tudo um sonho!
- Não, eu tenho certeza que não foi, pois lembro da Casa Grande, da Praça da Graça, enfim de Parnaíba! Eu andei em suas ruas. Conheci a sua gente e quis lutar pela sua liberdade. Por que vim parar aqui? O que houve?
- Meu filho, é claro que você conheceu Parnaíba. Só que através de fotos. O que é muito diferente de pessoalmente. Vejo que essas estórias que ando lhe contando estão fazendo você ver coisas. Insisto, foi apenas um sonho.
- Não! – grito – Não foi! Eles são reais!

Vovô olhou-me colérico e disse:

- Você nunca foi de gritar comigo! O que está acontecendo com a educação que eu lhe dei! Chamarei um médico para saber o que está havendo! Vamos para a capital.

Fitei o rosto daquele homem, que nem de longe, parecia o meu avô, e firmemente lhe mandei embora, dizendo-lhe que não iria para onde ele queria me levar.

- Vá embora! – gritei-lhe.
- Menino! Respeite o seu avô!
- Ele jamais falaria comigo dessa forma! – retruquei.

O homem que tinha o mesmo aspecto físico do meu velho afastou-se, gritando para seu Zé que eu estava doente e precisava de um médico urgente. Quando os dois se aproximaram de mim, fitei-os grosseiramente.

- Zé, não vê? Ele nem me conhece mais!
- Por que ele está de olhos arregalados? Parece querer nos matar!
- Saiam daqui! Vão embora! – esperneei, mas estava preso em uma cama.

Os dois impostores sumiram e senti minha roupa sendo retirada. Acordei e percebi que não passara de um sonho e que eu continuava na masmorra. Observei Domingos retirando lentamente a minha bermuda. A primeira impressão que tive foi a de que ele cometeria um abuso sexual. Enxerguei, então, uma haste de ferro e um isqueiro, e fiquei apavorado! O que esse louco pretende, meu Deus?!
Fechei os olhos tentando fazer tudo aquilo desaparecer, mas de nada adiantou. Domingos enfiou vagarosamente a haste dentro do meu canal urinário. Escutando meus gemidos de dor, ele dava gargalhadas e pulava de felicidade. Espera que têm mais!, vibrava com sadismo.
Senti náuseas, e vomitei no seu rosto sorridente. Recuando, Domingos arrancou de uma vez o ferro que estava dentro de mim. E agora com raiva, enfiou rapidamente e acendeu o isqueiro, colocando para esquentar a ponta de fora da haste. Tento não lembrar das dores e sofrimentos que passei, mas até hoje tenho pesadelos.
O ferro foi esquentando e dilatando. A temperatura era cada vez mais elevada. Queimava tudo por dentro. Involuntariamente, me urinei. Aquele líquido saindo forçosamente pelo canal torturado pela haste de ferro quente, foi para mim um dos mais terríveis momentos da minha vida!
Apesar de estar perdendo os sentidos por causa do sofrimento, escutei quando a urina saiu chiando, como se estivesse fervendo instantaneamente. O que para aquele louco foram apenas alguns minutos de diversão e prazer, para mim foram horas de agonia. Depois que retirou a haste, senti-me impossibilitado de qualquer reação.
Entregue ao desfalecimento, senti a presença de uma segunda pessoa no local.

- Como está o nosso prisioneiro? –perguntou uma voz não muito estranha, carregada de sarcasmo.
- Estava esperando por você até agora, mas como demorou demais, dei o trato nele sozinho!
- Não dá para fazer de novo?
- Dá, ora!... É pra já!

Não conseguia identificar quem era aquele homem que guardava tanto ódio de mim e que, sem piedade, pedira mais uma tortura daquelas. Da mesma forma que antes, Domingos enfiou a haste com força. Gemi e apaguei. Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente, nem quantos choques e pancadas me deram para que eu acordasse.
Vagamente escutei Domingos conversar com a pessoa que viera me ver ser torturado. Agucei a audição, mas ainda não identificava quem era o homem. Ele estava de costas para mim. Eu conheço essa voz!...
Os risos de escárnio, mesclados com prazer e ódio, aumentavam minha ânsia em sair daquela situação.
Num fio de esperança, analisei meu estado físico. Quanto tempo ainda posso suportar até aparecer uma chance de fugir? Olhei então para meu braço direito e vi meu punho totalmente roxo. Tentei mover os dedos, mas eles continuaram cerrados. Fiquei preocupado! A mensagem enviada pelo cérebro não funcionava. Lentamente, mirei meu outro braço, e reparei que vários ferimentos o contornavam até à mão que, ao contrário da esquerda, não estava arroxeada e podia mexer-se normalmente. Fiquei ainda mais tenso!
Das dezenas de pancadas que levei, nenhuma justificava a perda dos movimentos da mão direita ou aquela cor, que já se aproximava do preto. Então lembrei da claustrofobia que tive quando me vi preso pela corrente. E ela apertou muito o meu punho direito! Mas já faz tempo que não a sinto mais...
Sustentava todo o meu corpo sobre os joelhos esfolados. Sentia cãibra na perna esquerda. De cabeça baixa e mergulhado em pensamentos, nem percebi a aproximação do impiedoso rapaz que conversava com Domingos. Quando se dirigiu a mim, fingi estar desmaiado, o que não era muito difícil já que eu mal tinha forças para levantar a cabeça ou abrir meus olhos, por causa do inchaço.
Evitei encará-lo, pois já sabia a quem encontraria. Senti quando ele cuspiu duas vezes em meus cabelos. Ao ouvi-lo de perto, não tive mais nenhuma dúvida. Apesar do tom estar completamente carregado de ódio, reconheci a voz de Gabriel Marques.

- Este é o nosso prisioneiro, Domingos?
- Há, há, há , há!
- Pensa que é só chegar e mandar em tudo? Eu nunca fui teu empregado, sabia? – perguntava-me, chutando - Fiz questão de atrasar o teu almoço todos os dias. Eu adorei fazer isso, pois sabia que ficava te roendo de fome! Foi logo dominando o Antônio, e depois, a cada um dos meus amigos. Mas eu... eu nunca caí na tua lábia, seu moleque! Veio só para infernizar as nossas vidas! Nós já tínhamos feito história, não precisávamos fazer mais nada. Era só continuar como sempre fizemos: curtir nossa fama e nos gabar dos feitos de antigamente... Criticar? Criticar o quê? Por quê? A gente só tinha que falar mal nos bares, onde nenhum bêbado levasse a sério nossas palavras! Para parecer que somos oposição, que somos revolucionários. Intelectuais! Fazer umas poesias cheias de palavras que ninguém entende, que nunca vão ser entendidas nos cabarés nem nas igrejas. Nada de sair falando ou escrevendo coisas para despertar esse povo idiota que se diverte só falando mal da vida dos outros. Mas não! Tu convenceu todo mundo a cometer esse suicídio, acabando nossa política de boa vizinhança com o regime. Eu jamais fui com a tua cara, desde a primeira vez que te vi, lá na sinuca. Todo filho de uma puta! Mas a gota d’água foi quando me fez passar vergonha na reunião, com o Antônio me chamando atenção na frente dos outros. Foi a primeira vez que ele não me elogiou, não me engrandeceu por um dos títulos que eu tenho. Sabe quantos títulos eu tenho, seu moleque? Eu sou Gabriel Marques, membro de quatro academias! Na reunião passada ele tinha elogiado meu poema sobre a morte do meu pai. E agora, quando ele me chamou atenção, eu vi o teu olhar de gozação! Pensou que fosse ficar barato, né? Não ficou mesmo! – exclamou, colocando a ponta de um pedaço de madeira no meu queixo e me fazendo levantar a cabeça. Senti seu hálito de cachaça quando se aproximou e me cuspiu. Continuei de olhos fechados, como se estivesse inconsciente. Temia que ele fizesse mais alguma maldade contra o meu corpo, já destroçado – Naquele momento, prometi que me vingaria.

Como pude confiar numa pessoa tão desumana! Logo eu que cresci aprendendo a discernir quem tem caráter ou não! Vejo que não foi apenas o descuido com a minha própria segurança que fez eu ser preso. Foi uma traição que me trouxe até aqui! Enquanto lamentava, revia mentalmente a face de Gabriel na última reunião do Movimento. Deveria ter dado mais atenção àquele olhar rancoroso que ele me dirigiu durante alguns minutos.
Quantas revelações viriam mais pela frente! Depois de algum tempo de conversa, Gabriel se retirou e Domingos voltou para o seu posto, só que agora com um balde pesado na mão. Deve ter pegado na saída, pois acompanhara o coroinha sem carregar nada. Quando me viu consciente abriu um sorriso. Mesmo no escuro, divisei seus enormes dentes brancos, que chamavam a atenção. Ocupado em observar aquele rosto marcado por cicatrizes, esqueci de tentar descobrir o que havia dentro daquele balde. Não quero nem saber! Por que não me mata logo?
Domingos mudou de estratégia, ou essa atitude faz parte de uma nova fase de tortura! Estava psicologicamente destruído e temia que Domingos tivesse alguma nova idéia. Senti então a temperatura do balde, encostado propositalmente no meu joelho esquerdo, que imediatamente ficou queimado. Ao lado, encontravam-se a haste de ferro e o isqueiro que me tiraram metade da vida. Parado ali, continuavam sendo uma forma de martírio para mim. Domingos era impiedoso.

- Se abaixar a cabeça, jogo pimenta nos olhos! E se não responder as minhas perguntas, vai tomar um banho bem gostoso! Por mim, faria as duas coisas agora, mas o chefe não quer desse jeito!...

Como poderia falar para aquele monstro? Será que ele não vê que estou impossibilitado de pronunciar qualquer frase?! Quando tentei pronunciar algumas palavras, quase não agüentei de dor. E ainda tinha que manter erguida a minha cabeça, que duplicava o peso a cada minuto. Mesmo tremendo muito, escutei atentamente cada questionamento. E com muito sofrimento, respondia. Às vezes, Domingos completava as frases para mim, por causa da minha pronúncia quase inaudível. Percebi que o interesse dele era obter o máximo de respostas sobre o Movimento, e passei a usá-las da melhor maneira que podia. Tentava ganhar tempo para que a água esfriasse no balde.
Mesmo com apenas um olho aberto, observava cada reação daquele monstro. Ele queria saber onde meu avô estava e o que queria. Foram horas de interrogatório, só interrompidas com respingos da água quente do recipiente, pois Domingos irritava-se com minha tremedeira e me queimava, sacudindo o balde. A cada instante, passei a dar informações mais precisas. Satisfeito com as respostas, jogou a água, já morna, no meu corpo, fazendo-me encolher por inteiro.
Como consegui inventar tantas mentiras?! Dissera que vovô se escondia no Palacete da Chagas Rodrigues, e que de lá controlava todo o Movimento. Disse ao monstro que meu avô não era o único envolvido. Havia muita gente por trás de todo o esquema libertário. Minha satisfação em ter me livrado da tortura passou instantaneamente. Provavelmente vou morrer quando ele voltar! Arrepiei-me ao perceber que tinha piorado minha situação. Quando chegasse no palacete e não constatasse nada do que falara, voltaria disposto a me matar. No entanto, aos poucos, a idéia de morrer foi-me parecendo o único alívio.
Enquanto aguardava a morte definitiva, as memórias da minha infância na fazenda começaram a me confortar. Vovô, o senhor faz tanta falta! Logo nos encontraremos novamente! E seremos, outra vez, o menino e o velho fidalgo... Meus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela súbita volta de Domingos. Escutei os troncos do corredor caírem no chão. Ele vem furioso!... Mas por que voltou tão rápido?
Não importava. Cada pisada daquele monstro representava para mim um alívio. Tentava sorrir, contudo não conseguia. Iria perder a vida, e isso não me entristecia. Estava ansioso para que ele terminasse tudo. Queria enfrentar a morte com o mínimo de dignidade! Fiquei de pé com muito esforço. Vi então uma pessoa se aproximar. Era muito mais magro do que Domingos. Quem será? A escuridão me impedia de enxergar mais detalhes do seu porte físico. Estava muito confuso, pois só conseguia abrir apenas um olho, e ainda pela metade.

- Carlos! – chamou uma voz feminina, suavemente – Onde você está?

Caroline! Eu tenho certeza que é Caroline! Mesmo achando que fosse um delírio, gemi alto para que me escutasse. Quase não agüentei de felicidade, quando senti a delicadeza de suas mãos ao tocar em meu rosto deformado. Doeu-me muito quando perguntou se era eu mesmo que estava ali acorrentado. Juro que naquele momento quis morrer, mas compreendi tal desconfiança diante do que provavelmente estava vendo. Olhava para o meu rosto, chorando.

- Estou com medo!
- Ele voltará. Fuja! – falei baixinho, duvidando que estivesse escutado.
- Vamos sair daqui o mais rápido que pudermos, meu amor! Domingos acabou de sair e pode voltar a qualquer momento. – dizia, com a voz trêmula, enquanto me soltava das correntes – Meu Deus! O que fizeram com você? – lamentava chorando entre soluços, ao mesmo tempo em que tentava me carregar apoiada em seu ombro. – Não morra! Eu preciso de você mais do que nunca!

Ela precisa de mim! Ela me ama! Sentia-me disposto a viver. E como primeira atitude, decidi diminuir, com muito esforço, o peso que Caroline carregava. Abaixei a cabeça para apoiar os pés corretamente, e vi na cintura dela um revólver, o que me deixou mais seguro.
Subimos com muita dificuldade os degraus da masmorra. No momento em que abríamos a porta da prisão subterrânea, deparamo-nos com Domingos Jorge Velho. Surpreso, ele demorou alguns segundos para reagir. Até que se lançou sobre nós, empurrando-nos escada abaixo. Felizmente, Caroline caiu sobre mim.

- Cadê o revólver? – perguntava-se, procurando com desespero a arma que trazia na cintura.

Domingos desceu furioso e, pisando em mim, puxou os cabelos de Caroline que continuava à procura da arma. Ele levantou Caroline, sacudindo-a longe. Estiquei a mão para apanhar o revólver, mas nada achei. Desesperado, apressei-me para impedir que Caroline fosse espancada. A única coisa que enxergava eram os braços de Domingos, que se levantavam e se abaixavam sobre o corpo frágil de Caroline. Tentei gritar, correr, pular em cima daquele monstro, contudo com a queda na escada, meu corpo mantinha-se imóvel.
Em uma das inúmeras tentativas de me erguer, senti no chão o cano frio do revólver. Tentei abrir a mão direita, mas ela permaneceu fechada. Virei-me, sentindo meu corpo rasgar-se, até que consegui agarrar a arma. Apontei para as costas de Domingos, apertei o gatilho três vezes. Ouvi então um forte barulho. Abri meu olho destro e vi Domingos caído por cima de Caroline. Arduamente, fui me arrastando, mas os centímetros que me separavam dos dois, pareciam quilômetros.
Empurrando o corpo de Domingos, encontrei Caroline respirando sofregamente. Coloquei a mão em seu rosto e o senti encharcado de sangue. Enquanto eu tentava balbuciar algumas simples palavras, levantava a sua cabeça. Quando o fiz, ela sentiu a minha presença e, molemente, começou a falar chorando.

- Carlos, meu amor... você não pode morrer!... Não desista! Liberte esse povo. Só você pode fazer isso! Eu... eu estou morrendo!
- Caroline, não!... – balbuciei, desesperado.
- Nós seríamos uma família... uma família muito feliz... Eu, você... e... o nosso... filho...

(ela estava grávida)

- Meu Deus!!! Caroline!!! Caroline!!! Caroline!!!

Oração à Turma justiça, ética e cidadania –

Curso de bacharelado em ciências jurídicas/UESPI/campus de Parnaíba – ano 2006


Senhoras! Senhores!

Hoje é uma noite de júbilo, onde deve reinar um espírito de alegria porque celebramos a nossa vitória.

Quero dar aqui, em nome de todos os 35 formandos do Curso de Direito do segundo semestre de 2006 do Campus da Universidade Estadual do Piauí em Parnaíba, os nossos cordiais agradecimentos àqueles que participam desse ato solene.

Aos que vieram de longe, até de outros Estados, para prestigiar nossa formatura, sejam bem-vindos.

Autoridades, colegas, professores, parentes, amigos,

Essa é a “nossa noite” e os convido a relembrar por alguns instantes momentos importantes desses cinco anos em que estivemos juntos.

Todo esse tempo foi um encontro de vidas, de âmagos, de brios, de almas! Sentamo-nos lado a lado, por longos dez semestres. Nesse período, estivemos na maioria das vezes, separados pela distância construída pela cultura, ambições, princípios e idiossincrasias de cada um. Às vezes, separados apenas por orgulhos que nem mesmo sabemos por que os mantemos.

Mas, voltemos um pouco no tempo...

Voltemos ao dia da euforia da aprovação no Vestibular.

De diferentes formas e em diferentes pontos, rodas, templos, lares... ou bares, comemoramos individualmente a conquista da tão concorrida vaga no Curso de Direito da Universidade Estadual do Piauí.

Alguns aqui passaram de primeira, e isso, por si só, já era um troféu, carregado de muito simbolismo. Sabemos bem o que representa chegar ao nível superior no Nordeste brasileiro. E para nós piauienses, de longa data marcados pelos preconceito e etnocentrismo – que insistem em esnobar da nossa capacidade intelectual, não é diferente!...

Tratam-nos como se o sol do Equador prejudicasse nossos neurônios e nos impedisse de sermos críticos, sensíveis e competentes. Os estudantes da melhor escola do Brasil, Instituto Dom Barreto, que o digam.
Caríssimos, o que fazemos aqui hoje é entrar para um rol singular...

Simplício Dias, Leonardo Castelo Branco, Reis Velloso, Evandro Lins e Silva.

Só para citar algumas genialidades.

E o que eles têm em comum?

O que nós podemos ter em comum com eles?

Pensemos um pouco...

O que todo piauiense, nordestino, brasileiro tem de especial?

O que há de diferente nessa noite e que pode mudar nossas vidas?

O que pode inscrever nossos nomes nesse mesmo memorial histórico que guarda todos esses personagens?

A CORAGEM !!!

A coragem de desafiar nossas limitações, de lutar contra a tirania, ou o “destino”, ou os estereótipos, ou o que quer que seja que tente nos obrigar a conformarmo-nos com a mediocridade. Uma mediocridade que não faz parte de nós, mas querem nos convencer dela.

Acontece que fomos imbuídos, desde a primeira aula, do sentimento dos primeiros formandos em Direito desta Faculdade. Quem não lembra das dificuldades para termos esta cadeira em Parnaíba?
E quando havíamos obtido tal conquista fomos confrontados pelo desdém e descrédito de forças políticas, que aliadas a conglomerados econômicos, planejavam extinguir o curso em Parnaíba.

A resposta sobre a nossa capacidade veio no Exame de Ordem, que não deixou a desejar. Herdamos e manteremos tal tradição, não apenas para galgarmos postos profissionais, mas, principalmente, para honrar o esforço dos pioneiros.

SOMOS UMA GERAÇÃO CORAJOSA, VALENTE !!!

Todos que se formam nesta noite, sob o peso da tradição secular que essa beca possui, são pessoas que tiveram que ousar, acreditando que seria possível conquistar uma vaga nesse curso historicamente concorrido.

Senhoras. Senhores.

Quando começamos o curso, tudo era bem diferente.

Nós éramos diferentes.

Há cinco anos, o país vivia outra conjuntura. A universidade pública lutava contra o sucateamento. Somos, portanto, filhos de um período de transição entre uma mentalidade que via no ensino público um peso e outra que vê na educação a saída para os nossos mais profundos problemas sócio-econômicos.

Se me permitem uma rápida análise da conjuntura que marcou nossa graduação: sofremos com os atos perversos do neo-liberalismo que assolou o Brasil pós-ditadura militar.
Mas somos também testemunhas vívidas do processo de implantação de um modelo mais difícil, que é o modelo sócio-democrático.

Sim. Muito mais difícil !

Porque a democracia exige um nível de maturidade política, profissional, pessoal até, ao qual nós brasileiros, (nordestinos, em particular), não estamos acostumados.

Resistimos, a maioria de nós, por ainda estarmos presos aos vícios do paternalismo, do coronelismo, das tradições... e nós, parnaibanos por nascimento ou adoção, podemos falar bem sobre isso.

Fechando o parêntese da análise, ilustríssimos, continuemos com nossa retrospectiva. É difícil para as pessoas que convivem conosco admitir as mudanças, mas a verdade é que mudamos desde aquela tarde do dia onze de março de 2002.

A maioria de nós era apenas adolescente quando subiu a escadaria do velho Ginásio Parnaibano, naquele dia.

Ao atravessar o umbral daquele elegante prédio da Rua Grande, entramos na fôrma da vida adulta.

E, invertendo o ditado popular, depois da euforia de calouros, vieram as crises... pessoais, intelectuais, de convivência, de classes. Não nos enganemos: os preconceitos estiveram sempre ali, como um fantasma a nos atormentar.
Talvez nem precisemos lamentar o fato de que eles continuarão nos acompanhando. De certa forma, eles serão os divisores de água nas nossas trajetórias profissionais... farão a diferença entre uns e outros.

E assim como os preconceitos, caríssimos, os desafios também estão dentro de nós. A frase pode parecer apenas um jargão, mas é a verdade. Cada aula ao longo desses cinco anos foi uma batalha.

Uma batalha travada contra as nossas mais profundas convicções. Fosse por nos confrontar com uma lei com a qual não concordávamos, fosse por ter que aceitar coisas fora dos nossos padrões de “normalidade”.

Já éramos uma turma, com identidade própria, que no nosso caso é marcada pela heterogeneidade, quando perdemos a professora Taumaturgo. E, enquanto corpo, ficamos mutilados sem Alonso. A história dos formandos em Direito do ano de 2006 é incompleta sem essas pessoas.

Por outro lado, aprendemos a sobreviver às perdas. E, como nunca nos resta outra alternativa, a não ser seguir... seguimos!

Seguimos carregando aprendizados e pretensões.

Passando por provações.

Um dos momentos críticos foi a reta final - o estágio curricular. Foi aí que nos demos conta de que somos mais humanos do que gostaríamos.

Admitamos! Quem aqui não se viu muito abaixo do Olimpo ao chegar ao Serviço de Assistência Jurídica, o SAJU?? Quem aqui não sentiu uma certa acidez no estômago ao perceber que estava a anos-luz de distância do grande jurista que imaginava ser ao se deparar com as correções do professor Diógenes, da professora Sara, da professora Maria da Graça e do professor Marco Antônio?

Mas nem tudo foram espinhos.

Existiram momentos especiais.

Afetuosos, mesmo.

Fomos surpreendidos, ou melhor presenteados, em meados do curso por uma pessoa que adocicou nossa peregrinação pelo estudo das ciências jurídicas.

Sua dedicação, demonstrada pela quantidade de doutrinas que trazia para as aulas, denunciava sua face de pesquisadora.

Contudo, ninguém poderia supor que conheceríamos um lado seu que viria a ser sua principal marca. Entre uma lei e outra, como que para enternecer essa lida, poemas e textos cheios de ternura vieram pacificar os nossos ânimos, acalmar as feras que existem em nós... do aluno mais hostil ao mais sensível, todos se renderam ao encanto da inesquecível professora Zulmira.

E se saímos da adolescência praticamente naquelas salas, sob os olhares atentos de nossa querida Neném, é preciso reconhecer a importância de todos os funcionários que fazem a UESPI e, em especial, dos docentes.
De uma ponta a outra, seja dos mais rigorosos, como os professores Mariano e Cajubá, aos mais camaradas, como os professores Telius e Bacelar, cada um, ao seu modo, contribuiu com nossa formação intelectual e (por que não dizer?) nosso caráter.

Todos, dentro de suas peculiaridades, serviram de exemplos para nós.

Assim, caminhamos juntos para a maturidade!

Enfim, chegamos aqui.

Fim dos temores? Da insegurança? Felizmente, não!

— Digo: Felizmente não!

Caros colegas, só mais um pouco, e então, nada mais vai impedir que integremos essa confraria que já atravessa séculos de existência. E ouso dizer que é agora que começa a corrida das tartarugas rumo ao grande Atlântico!

Chegamos ao tempo dos verdadeiros desafios.

O maior deles?

Penso que está em compreendermos a necessidade de pagar nossa dívida para com a sociedade: devolver a ela aquilo que recebemos gratuita e privilegiadamente – o conhecimento científico.

Que o façamos, então, comprometidos com a dignidade humana, com a justiça social e com a construção de uma sociedade consciente de seus direitos e deveres.

Que ajudemos a construir um país realmente livre e soberano.

Um país de cidadãos e cidadãs!

Por isso mesmo nessa noite vamos fugir da competitividade que certamente insistirá em nos rondar, logo que ultrapassemos o umbral desta porta.

A estrela de hoje não somos nós. A estrela dessa noite é o Direito, o inexorável Direito. Inexorável como a vida. Inexorável como a morte.

Quem pode dele escusar-se?

Quem dele pode evadir-se?

E essa presença irresistível e fascinante na vida de cada homem ou mulher, do maior ao menor, é que faz muitos de nós almejarmos dominá-lo. Tenho que dizer, triste e feliz ao mesmo tempo, que isso é, caros colegas, impossível!

Para afirmar isso, valho-me do mito grego de Sísifo, o homem condenado a eternamente levar uma rocha montanha acima para, tão logo termine a missão, vê-la despencar novamente.

Qualquer comparação entre a metáfora da tarefa infindável, inacabada, porém jamais abandonada, com as intermináveis e solitárias madrugadas debruçados sobre os livros, certamente não é forçosa.
Eis onde o estudo da ciência jurídica nos lembra também o movimento incessante das ondas do mar.

A natureza perecível do conhecimento da lei torna infindável o dinamismo da natureza jurídica. E isso exige do operador do Direito, uma humildade e uma necessidade de buscar a reciclagem que devem se mirar no exemplo de Sísifo.

Quantas vezes vimos nossos livros serem transformados em meros instrumentos antropológicos, desatualizados semanas depois de adquiridos com tanto esforço?

Por mais frustrante que seja, nunca deixa de ser belo ver o Direito fugir ao controle.

Como um horizonte que jamais se alcança, mas sempre nos chama.

Ele não se deixa possuir. Será que foi essa constatação que levou Gomes Canotilho a dizer que “compreender o Direito em sua totalidade seria o mesmo que parar o vento com as mãos”? Se foi, ele estava com a razão!

A explicação para tal poder pode estar na própria natureza do Direito.

E o que é o Direito?

A resposta, garanto, está na ponta da língua de cada um que passou pelas aulas do professor Robério.
Filosofemos então, um pouco, sobre o Direito. Falemos, ainda que sem os fundamentos de Bobbio, Kelsen e Savigny, de sua natureza. Prestemos a ele a nossa justa homenagem.

De minha parte, só posso reconhecer que por mais que o ame, não posso falar mais dele do que por meio de alegorias. O Direito está para a sociedade, como a água para a vida.

Ambos permeiam todos os ciclos da existência humana.

Do primeiro banho, no nascimento, ao último, antes de descer à terra, a água e o Direito são as únicas companhias certas que os viventes têm.

E como o Parnaíba, o Velho Monge, do poeta Da Costa e Silva, o Direito também é uma fonte perene para a vida. E assim como o nosso barrento rio, o Direito também nasce em mananciais muito tênues. Na fraqueza nascem suas forças. Pois a quem se destina o Direito? Àqueles que dele precisam. Aos injustiçados, àqueles que por alguma razão, estão sem condição de ter seus direitos sozinhos.

Não é por acaso que essa turma de formandos da Universidade Estadual do Piauí se chama “justiça, ética e cidadania’.

Nossa escolha já foi feita:

Optamos por honrar o Direito, renunciando à omissão, à negligência, à indiferença, e à mediocridade.

Como novos bacharéis, comprometamo-nos com o que mais caracteriza o Direito: a defesa incessante dos direitos e garantias fundamentais da pessoa humana: o direito ao Direito.

Pois o Direito é, antes de tudo, um farol para os que navegam nesse mundo.

E o Direito se aproxima de sua finalidade justamente quando cria um efeito prático na vida dos cidadãos que o buscam ou o infringem. Efeito este, advindo do balançar de olhos entre o fato e a norma, parafraseando a elucubração de Miguel Reale quando dissertou sobre a característica tridimensional da ciência jurídica, composta pela repercussão do fato, o valor que a sociedade confere a ele, dando ensejo à lapidação da norma.

A imperfeição da teoria é denunciada pelo esquecimento de Reale, que não atinou para o fator tempo, mola propulsora do Direito, razão de sua retroalimentação. Mérito da vida que se renova sempre.

Mas o nosso Rio Parnaíba também nos remete à outra comparação com o Direito: a solidão de nossos deságües.

Para chegar à plenitude do mar do conhecimento, somos obrigados a suportar as pressões das margens, das limitações quer econômicas, quer sociais, quer pessoais. Só nós sabemos o quanto foi difícil chegar até aqui.

Até mesmo para os que contaram com ajuda.

Foi, inteiramente, uma experiência no deserto.

- Honestamente, será sempre.

Por fim, manifestamos nossa gratidão aos que conviveram conosco durante esse tempo e renovamos o convite para que permaneçam ao nosso lado porque nossa verdadeira batalha está apenas começando, afinal... o Direito, assim, como o tempo, não pára!


OBRIGADO !!!

___________________________
Rafael Castello Branco Ciarlini
Orador da Turma Justiça, ética e cidadania.

Conterrâneo de Assis Brasil


Ninguém precisa nascer num berço de intelectuais para operar as letras e suturá-las no papel. Nenhum homem é maestro do determinismo. A arte faz parte da nossa natureza. Passei por muitas dificuldades durante a lapidação da minha primeira obra literária. Dificuldades como na luta do velho no mar. As emoções não são postas no papel repentinamente. É preciso muito trabalho, persistência e, principalmente, paciência, sensibilidade. Exercitar a sensibilidade é algo ainda mais perturbador. Vale ressaltar que essa aprendizagem é constante, pois como já dizia Santo Agostinho: “Falar sobre palavras com palavras é tão complicado como entrelaçar os dedos e tentar coçá-los”.
Em muitos momentos, vi-me despido de inspiração, sugado e vazio de palavras. Então, saía do meu apartamento na Avenida Álvaro Mendes (onde morava) e caminhava lentamente, buscando nos prédios antigos, na revoada dos pardais, no matinal vento frio da nossa terra e nos rostos das pessoas algo que me reconduzisse ao meu labor.
Buscava inspiração na natureza que embeleza a cidade deixando-a graciosa pela manhã, dourada ao entardecer e sedutora nas madrugadas; nas casas com seus suntuosos telhados; nas ruas de calçamento liso e nas largas e arborizadas avenidas boêmias; nas ruelas e nos becos estreitos que ainda exalam coisas de um passado longínquo; nas praças que têm por teto a copa das árvores; e na gente trabalhadora e inteligente, que ainda guardam muitos enigmas a serem desvendados em prosa e em verso. A natureza alimenta o artista, assim como as amizades enriquecem o ser humano.
A inquietação diária, as constantes insônias, o isolamento do mundo real, a dedicação, a aprendizagem, o suor, o sangue em cada parágrafo, o estudo de cada substantivo, adjetivo e verbo, tentando colocá-los em seus devidos lugares, e finalmente, a sensação de realização pelo término do trabalho são de uma emoção difícil de descrever.
Dar vida a um romance não é a mesma coisa que confeccionar um artigo, crônica, ensaio ou poema. É algo demasiadamente complexo, conhecido só por aqueles que o fazem. Compararia com uma matryoshka deslizando na mão e se deixando ver numa série incontável de bonequinhas que se escondem no ventre umas das outras.
Queria um romance atemporal, que fosse uma espécie de protesto, mas também uma declaração de amor por parte de um filho desvairadamente apaixonado por sua terra. As lendas, passagens históricas, o clima, o hino, as pessoas, os lugares, tudo seria motivo de inspiração. Daria início ao relato de lutas, traições, assassinatos, romances e fugas. Os fatos históricos seriam descritos com a intenção de instigar o leitor a conferir o que é realidade e ficção.
Iniciar um capítulo e terminá-lo é o primeiro passo para a concretização do sonho de escrever um conto ou um romance. Escrever sobre experiências autobiográficas e subjetividades humanas conhecidas é o segredo para os personagens ganharem vidas e não serem como em muitos livros ruins, meros bonecos frios e sem cores.
Carregamos durante nossa existência todo tipo de sentimento, sejam eles bonitos ou feios. Falar deles é o mesmo que oferecer um copo d´água a um homem sedento ou como alimentar a quem morre de fome. Ter a coragem de olharmos no espelho todos os dias como seres defeituosos e cheios de frustrações, tudo isso é o que nos permite dar vida aos mocinhos e aos bandidos. Estão todos dentro da gente. Basta ter atitude e buscá-los sem medo.
Depois de seis meses de muito esforço, vejo a obra impressa e encadernada sobre a cama, pronta para a primeira das dezenas de revisões. Esse sim é um processo doloroso demais. Terminado, o livro é tratado pelo autor como um filho especial. A história e os personagens, mesmo ditos de ficção, são reais.
Os personagens já ganhavam vida, convivendo comigo no meu dia a dia, chegando até a tirar as minhas poucas horas de sono. Quantas vezes fui trabalhar sem dormir! Naquele ano de maior efervescência ia para as aulas na Faculdade de Direito e contava os minutos para chegar em casa e continuar a escrever. Havia momentos em que o desejo de acudir os personagens era maior que a razão, fazendo-me sair em plena aula, andando pelas ruas anotando tudo que vinha à mente, para não correr o risco de esquecer. Construir uma obra é algo extraordinário, pois não se restringe apenas a escrevê-la, vai mais além, substituindo o mundo real pelo mundo dos personagens do livro, onde você é o criador. É tão perturbadora essa sensação que às vezes você é acometido pela personalidade de uma das criações. O mais difícil é elaborar os papéis, pois o mesmo deve ser feito separadamente, sem interferência da individualidade dos outros personagens. Quem já fez um livro sabe do que estou falando. O autor é constantemente emprestado para os personagens, que só ganham vida através de sua capacidade de entendê-los. A criação só é possível porque a mesma já existe.
Em novembro de 2004, iniciei o processo doloroso da revisão de praticamente quatrocentas páginas investido das palavras de Picasso: “Toda obra é uma obra inacabada”. Finalizei o livro pretendendo tirar “férias das palavras” a fim de reabastecer as energias. Mas em pouco tempo, logo bateu uma saudade da rotina de expressar os sentimentos, de exercitar os sentimentos, as sensações e, principalmente, de criar e recriar um mundo de personagens. Precisava beber!
Leio alguns clássicos, compro alguns livros, percorro estantes de bibliotecas, contudo continuo a imaginar páginas e páginas de um novo livro que já nasceu dentro de mim naquele momento. Seria um romance bolivariano! É como se fosse um vício que entorpece o espírito e que nos domina de tal forma que largamos tudo para satisfazê-lo.
Sentava na cadeira da biblioteca e com o livro aberto de Assis Brasil colocado sobre a mesa, tentava concentrar-me na sua história, nos seus ensinamentos. Sei que é preciso aprender muito com o mestre! Entender e descobrir através de suas palavras os meus sentimentos. Todavia a angústia e o vazio se hospedam, novamente, em meu peito, já insatisfeito pela brusca parada do sonho que acabava de começar e eu intencionalmente interrompia. É preciso agir! E como se eu fosse um animal faminto, volto para a faina ingrata de escrever. Poucos valorizam, não é verdade? Cada palavra é como um gole de água gelada percorrendo uma garganta seca. Só assim eu me encontro, só assim eu sobrevivo. Só assim eu existo e consigo resistir nesse mundo. Sinto-me um escravo do encanto das letras.
Conheci Assis Brasil em 1991. A leitura do meu “Cantor Prisioneiro” era o bastante para os oito aninhos que carregava no ombro. Naquele tempo, estudava num colégio de Fortaleza. Foi ali que descobri o sabor da leitura. Desde então procurei conhecer mais sobre o nosso grande escritor conterrâneo. Queria seguir seus passos. E escrever livros foi uma das várias formas que encontrei. Sinto-me RICO por ser conterrâneo de um gênio como Assis Brasil.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Parnaíba e um olhar para si mesma


Das águas de um caudaloso rio a cidade roubou seu nome. E a intimidade com o Rio Parnaíba fez com que diferentes povos, a começar pelas nações indígenas pré-coloniais, por essas terras se apaixonassem. Foi assim com os desbravadores vindos d’além mar, que logo foram seduzidos pelo balanço das águas sempre se oferecendo à terra e presenteando-a com recursos e promessas de prosperidade. E os novos habitantes foram abençoados com séculos de riqueza, graças à capacidade do rio de se estender como um tapete até o Oceano Atlântico, permitindo-lhes alcançar às mais longínquas margens.
A partir dessa época, Parnaíba começou a se destacar como um importante centro sócio-econômico brasileiro, construindo uma História digna de ser propagada e reconhecida aquém e além dos limites do seu Estado. Desses anos áureos, herdou um variado patrimônio histórico que reúne desde um rico conjunto arquitetônico até uma expressão folclórica única, ainda viva em seus bairros mais antigos. Também construiu uma extensa lista de ações protagonizadas por parnaibanos, o que traduz a potencialidade dessa gente.
Contrastando com o atraso do restante do país, a altaneira Vila de São João da Parnahyba foi proclamada Metrópole das Províncias do Norte, título recebido de Dom Pedro I, em 1823, por ter sido a primeira desta região a proclamar a Independência do Brasil. Logo depois, ainda embalada pelo espírito de liberdade, a vila aderiu ao Movimento republicano e separatista da Confederação do Equador, indo de encontro aos interesses do Imperador que, meses antes, solicitara o apoio parnaibano de Simplício Dias oferecendo em troca a transformação de Parnaíba em capital do Piauí. Simplício não aceitou o convite para assumir o cargo de Presidente da Província piauiense, rompendo com o Império e aliando-se aos ideais de Frei Caneca. Recusou o cargo para permanecer fiel aos próprios ideais e Parnaíba continuar como o berço da liberdade da região.
Após o fracasso do movimento republicano e a morte de Simplício, o Coronel Miranda Osório assume o comando de Parnaíba e obtém o ápice das conquistas políticas: a elevação de sua vila à condição de cidade, em 14 de Agosto de 1844. Infelizmente essa promoção, que já era merecida há muito tempo, teve um preço alto: a repressão da rebelião popular maranhense, Balaiada, que teve o apoio de parte da população parnaibana. Miranda aliou-se aos interesses do Império e destruiu os planos dos balaios revoltados contra aquela estrutura sócio-política e econômica, que oprimia a massa pobre formada por índios, negros e mestiços.
Acalmados os ventos revolucionários à custa de baioneta e cadeia, a nova cidade seguiu se desenvolvendo e se afastando cada vez mais da realidade estadual. Nas artes, na política e nas obras, a ousadia era a marca parnaibana. Precursora no Nordeste da navegação comercial de longo curso para a Europa e da industrialização, Parnaíba ganhou a fama de pioneira. Os primeiros barcos a vapor, locomotiva, bicicleta e automóvel do Estado apareceram por aqui. Enquanto as outras vilas piauienses eram ultrapassados feudos, em Parnaíba já imperava um espírito capitalista por ser possível adquirir os últimos modelos do mercado internacional. Mandava-se para o estrangeiro matéria-prima com a ânsia de receber sofisticados produtos. A elite parnaibana ostentava a vaidade de cidade cosmopolita graças aos móveis, roupas, perfumes, alimentos, medicamentos, ferramentas, automóveis e utensílios domésticos de várias partes do mundo que se misturavam aos produtos industrializados na própria terra.
Tudo o que era produzido no estrangeiro existia na Princesinha do Igaraçu e aeroclube, estação radiofônica, televisão, telefone, usina elétrica, hospital, farmácia, banco, agência dos correios, biblioteca e escola pública foram algumas de suas novidades, assim como os dois primeiros times de futebol piauiense, também criados em Parnaíba: o “International Athletic Club” e o “Parnahyba Sport Club”. Por trás dessas conquistas existiam pessoas que, além de poder financeiro, possuíam erudição e visão de futuro. Era o legado cultural daqueles que, tempos atrás, criaram aqui a segunda orquestra sinfônica do Brasil.
Poucos sabem, mas a velha Rua Grande guarda vários estilos arquitetônicos, fenômeno raro na região, o que revela ainda a existência de diferentes ciclos econômicos, pois como é próprio em cada época, a arquitetura reflete a natureza do poder. Uma descrição dessa fortuna construída com pedras, e que simboliza o passado glorioso da cidade, vem de uma estreita relação entre a opulência e a fé. Das inúmeras igrejas e capelas, nenhuma é tão simbólica quanto a Igreja de Nossa Senhora da Graça. Cheia de detalhes, como o revestimento em ouro do altar-mor, a Matriz é rica nos estilos barroco e rococó que, nos séculos XVIII e XIX, caracterizavam as cidades mais desenvolvidas do Nordeste brasileiro.
Mas Parnaíba não foi apenas um centro comercial e industrial, pois atraídas pela possibilidade de riqueza, pessoas de todas as regiões brasileiras e do exterior geraram a mais complexa formação social do Estado: em diferentes épocas, índios, africanos, brasileiros, europeus e árabes miscigenaram-se, originando uma sociedade de identidade cultural aparentemente informe. O sotaque, o modo de vida e o conjunto de prédios diversificados – expressão mais visível dessas culturas que aqui aportaram – refletem essa extraordinária variedade.
O devido reconhecimento dessa formação miscigenada, no entanto, ainda não ocorreu. Desde o início, a mistura racial foi marcada pelo etnocentrismo existente principalmente nos brancos ocidentais que aportaram em Parnaíba. Ante os outros povos, os europeus buscaram impor seu tradicionalismo gerando parnaibanos preocupados com a exaltação de suas origens estrangeiras. Começava assim o apego aos brasões e sobrenomes como forma de se diferenciarem pela genealogia. Era a garantia de pertencer à civilização ariana, a uma linhagem superior, única descendente de Adão, possuidora da “verdadeira fé” (a religião do Papa), da “cor” de Deus e da língua culta. Naturalmente, a postura diante dos descendentes de outras etnias – negros e índios – era de desrespeito. Para os sem tradição restava um tratamento de inferioridade, pois eram vistos como “sub-raças”. Com o sistema escravocrata, a riqueza concentrava-se exclusivamente nas famílias tradicionais, enquanto para o povo sobrava a miséria e uma desumana exploração.
Mesmo em períodos de declínio, as famílias tradicionais mantiveram-se no comando de toda a vida parnaibana. A mudança só veio após o último ciclo de desenvolvimento econômico da cidade. A exportação de cera de carnaúba durante as duas Grandes Guerras, levou Parnaíba a uma de suas maiores participações na economia internacional. Esse quadro se alterou drasticamente com o fim da Segunda Guerra Mundial. A nativa carnaúba parecia vingar, por fim, as excluídas massas parnaibanas que nada aproveitaram dos tempos de glória vividos apenas pela casta dominante. A decadência da cidade, chorada desde então pela elite, refere-se, na verdade, à sua própria derrocada econômica. O tempo em que a tradição genealógica era sinônimo de abastança passava junto com o apogeu da cera de carnaúba.
O golpe foi tão profundo que, pela primeira vez, a riqueza se afastava das margens do rio. Diante disso, a elite não se conformou com o fato de, mesmo detendo os conhecimentos, ter perdido o controle sobre o fluxo financeiro que, gradualmente, mudava de endereço passando a concentrar-se nos arredores da cidade, talvez até nas mãos daqueles que, outrora, não passavam de serviçais em pomposas indústrias e residências. Essa brusca mudança trouxe um desafio histórico para Parnaíba. Como jamais houve em outras épocas, surgiu uma luta diferente: a cidade vê-se desafiada a encontrar sua verdadeira identidade e retomar as rédeas de seu destino, decidindo para onde e de que jeito quer ir, antes de voltar a crescer.
Para que as águas do progresso deságüem de novo no mar, a sociedade parnaibana, formada por pessoas de diversas origens, deve assumir sua miscigenação e reconhecer que sua História foi construída do esforço não apenas de europeus, como reza a elite, mas do suor de indígenas, afro-brasileiros, judeus, árabes, e brasileiros de todos os cantos desse país que fincaram às barrentas margens do Igaraçu seus projetos e sonhos. Só o reconhecimento dessa cultura híbrida pode orientar a construção de um modelo de desenvolvimento que leve Parnaíba a considerar as necessidades de todo seu povo, ao contrário do que ocorreu ao longo do tempo. Qualquer planejamento para o futuro deve nascer de uma ampla discussão dos diferentes setores sociais, onde cada um tenha voz e exercite sua cidadania, sem diferenças de qualquer natureza. Esse deve ser o novo espírito dessa terra, pois os rumos de Parnaíba não podem mais serem decididos apenas por uma camada social que se agarra a preconceitos contra quem não pertence às famílias tradicionais.
A miscigenação não pode mais ser vista como fraqueza, tibieza, perversão e causa de desgraças, como convém à cultura formal, sempre a postos para reproduzir os pontos de vista dos dominadores, agora traumatizados com sua decadência. Junto com esse comportamento entranhado de posições preconceituosas e da supervalorização da cultura estrangeira cresceu o sentimento pessimista e a barreira que impede o associativismo, o reconhecimento do sucesso alheio, o incentivo ao desenvolvimento comunitário e a participação na vida pública. Daí a expressão “Parnaíba, terra do já teve”, que permeia desde poemas e cantigas até os meios de comunicação. Mais grave: dificulta a valorização da História parnaibana, pois mesmo já não mantendo a “pureza” da cor em virtude da mistura que já ocorreu, a elite parnaibana insiste em agir como se os de origem popular ou pobre devessem manter-se em papéis subservientes, não servindo, portanto, para casarem dignamente, exercerem funções de chefia numa empresa ou até mesmo participarem de uma boa conversa na calçada de casa.
Há uma luta de classe, portanto, também cultural, pois é a visão de mundo da elite que tem balizado as manifestações artísticas reconhecidas em Parnaíba: ao retratar seus temas de interesse, a elite reproduz sua visão dos acontecimentos como se essa fosse sagrada e indiscutível. A apropriação da História pela elite se concretiza nas datas cívicas. Tradicionalmente, as confraternizações são marcadas por eventos de cunho intelectual e participativo somente em redutos elitizados, relegando-se aos parnaibanos comuns a concessão de participarem através de números folclóricos, como o bobo da corte. Nos bairros, montam-se circos de apresentações artísticas, como se o povo não tivesse direito ao conhecimento, nem sua opinião fosse digna de ser ouvida.
Para reverter isso, faz-se imprescindível resgatar e incluir na História oficial parnaibana a memória daqueles que até hoje permanecem anônimos - negros, índios e migrantes -, embora tenham sido suas mãos que consolidaram a glória dessa terra. Isso poderá dar fim ao estranhamento entre o povo e a cidade: aquele se sente à parte da História; esta se queixa da rejeição de seus filhos, sem compreender que ela é quem os tem ignorado, não lhes permitindo reconhecer-se como um só povo – genuíno troféu conquistado num secular percurso marcado por paixões e combates. Com a inclusão desses novos personagens e a releitura dos fatos, a extraordinária trajetória histórica de Parnaíba poderá ser enriquecida, ganhando contornos ainda mais valorosos. A reconciliação da cidade com seus desconhecidos heróis deverá começar pela cultura popular, quando essa for cantada em verso e prosa pelos artistas da terra. Ao se reconhecer na arte, o povo sentir-se-á sinônimo de Parnaíba, identificando-se inteiramente com ela, com suas ruas, com seus feitos, sentindo-se sua alma, cúmplice de seus sonhos e desejos, desesperadamente comprometido com seu destino.
Mesmo nos poucos registros deixados pelos senhores brancos, vestígios da memória popular podem ser extraídos. E no espaço físico, ela ainda está trancafiada nos bairros, nos guetos, apartada do centro da cidade. Essas áreas preservam a heterogeneidade cultural parnaibana, com costumes bem distintos entre si. Ao ignorá-los, mantém-se silenciadas as classes populares que, ao longo de sua existência, foram encontrando, especialmente no artesanato, meios de expressarem suas características e visões de mundo: com produtos típicos da região, os artesãos vão retratando nativos, cenas do cotidiano e, assim, modelando a face da cidade, que é reconhecida como o centro artesanal mais criativo do Nordeste. E as lendas dos nossos índios, que jamais tiveram destaque em espaços elitizados, ressurgem em peças teatrais construídas em escolas públicas da periferia. Dos povos indígenas, dizimados do Piauí pela brutal ocupação branca, ficou um legado cultural protegido pelos braços do Delta do Parnaíba. Enquanto nas comunidades deltáicas a presença indígena é perceptível, no Catanduvas, um dos berços de Parnaíba, ainda se conserva costumes africanos que não puderam ser apagados pelos grilhões da escravidão, assim como os belos sonhos que deram à luz ao encantador bumba-meu-boi jamais foram abortados pelo pelourinho.
Sabiamente, José Saramago aconselha: “Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas”. Quem são, portanto, os verdadeiros pais de Parnaíba? E quem construiu os casarões? Ou onde estão anotados os nomes dos que abriram picadas nas matas, expandindo a cidade para além da Esplanada da Estação? Que fim levaram os vareiros do Rio Parnaíba quando a navegação decaiu? Que “causos” ocorreram durante o crescimento, não apenas do Porto Salgado, mas das dezenas de bairros que surgiram em menos de um século?
Por tudo isso, Parnaíba precisa olhar para si mesma e reler toda a sua trajetória. É chegada a época de seu amadurecimento histórico, de um reencontro do povo com a cidade e, consequentemente, suas causas. Os desafios atuais são outros, mas o espírito de luta é o mesmo. Parnaíba requer de seus filhos, com ou sem tradição, um empenho em favor de seu crescimento e de sua vocação como pólo regional. Assim como Simplício Dias (e possivelmente outros menos renomados) foi capaz de abrir mão de seus próprios bens em favor das causas parnaibanas, é necessário que cada um assuma seu papel de cidadão, consciente de que qualquer modelo de desenvolvimento precisa passar pelo crivo de toda a sociedade.

Aquarela do Delta



Com o olhar fixo na tela presa no cavalete, o artista observa minuciosamente seu costumeiro cenário: aberta, a janela cinza mostra uma vista turva, de onde se pode ver as últimas folhas secas caindo no chão. Ao fundo, ruínas de casas abandonadas. Não há vida, tudo é desolação. As lembranças retratadas são sempre tristes. A amargura guardada em seu peito não lhe permite enxergar a vida das cores. Porém, uma olhada para conferir os detalhes oferecidos pela cidade flagra os últimos raios do pôr da lua prateando o Rio Igaraçu e uma nova imagem surge em sua mente absorta. O pintor toma o colorido das tintas para substituir as pinceladas de cor fúnebre pela luminosidade que lhe invade os olhos e, de pincel na mão, ele começa, rapidamente, a alterar os sombrios traços. Uma cidade-aquarela nasce junto com seus sonhos.
A partir do parapeito da cobertura do histórico Hotel Delta, divisa-se uma imensa floresta de palmeiras, oitizeiros e coqueiros que se assemelham a um mar verde. Ao longe, dunas brancas ponteiam o horizonte. Como se saísse das entranhas desse paraíso, o Igaraçu desliza manso pelo cais do Porto das Barcas. Embaixo, os pássaros fazem barulhentas revoadas nas copas das árvores parecendo anunciar as novidades do dia, enquanto os seculares casarões preparam-se para avançar mais um passo majestoso em suas existências misteriosas.
Erguida à base de óleo de baleia, Parnaíba sobreviveu aos modismos passageiros, à busca do enriquecimento fácil e só nas últimas décadas começou a superar as frustrações pela perda do filão da cera da carnaúba. Do passado, ficaram palacetes e ruelas que vêm testemunhando a luta contínua do povo parnaibano para alcançar novos apogeus econômicos. A brilhante trajetória histórica que a destacou no Nordeste a torna agora delicada e frágil, carente de políticas públicas responsáveis.
Nascida sob o signo do pioneirismo e riqueza, Parnaíba é a única cidade piauiense que pode se orgulhar de ter sustentado os gastos do Estado e sido um importante pólo de desenvolvimento econômico. Suas características a credenciam como Portal para o único Delta das Américas em mar aberto. Isso faz com que aos interesses comuns com as outras cidades, como saneamento básico e melhoria das vias de acesso, sejam somados outros desafios de caráter interno. Muito há para conquistar. Prova disso é que a Embratur classificou esse paraíso como o terceiro Pólo Turístico do Brasil ainda inexplorado.
Ironicamente, todo esse patrimônio sócio-ambiental manteve-se protegido ao longo do tempo graças às fracassadas tentativas de transformar Parnaíba em sede do Governo Estadual e, posteriormente, ao retrocesso econômico sofrido pela Princesinha do Igaraçu ocasionado pela conjuntura internacional do Pós-guerra e agravado pela absorção draconiana de recursos pela neófita capital, que ainda hoje suga o grosso dos investimentos a fim de sobreviver no tórrido e inóspito interior do Piauí. Devida a essa incômoda relação política, os municípios deltáicos são obrigados a tolerar a presença predatória da capital (Teresina) no Pólo Costa do Delta.
Nem mesmo o declínio financeiro sofrido por Parnaíba em meados do século passado impediu sua natural vocação para o crescimento que, ao contrário de outros tempos, tem agora perspectivas livres da necessidade de destruir seu santuário ecológico. Basta compreender que se o progresso do século XX tivesse sido desenfreado em Parnaíba, e todos que aqui chegaram houvessem enriquecido, não teríamos um Delta preservado com suas ilhas cheias de pássaros, caranguejos, manguezais e animais silvestres em pleno século XXI. E os traços pintados por Simplício Dias da Silva, ainda no início do século XIX, formando o primeiro mapa do Delta do Rio Parnaíba, comporiam apenas um quadro surrealista.
Se tivesse sido assim, Parnaíba não seria uma das cidades mais românticas do Nordeste com sua doce tranqüilidade nas ruas, ar puro, silêncio à noitinha, amigos de infância e lugares sossegados para passear. Não existiriam carroças puxadas por cavalos nas avenidas, as praças não seriam lugares para solitários pensadores e os donos das quitandas não confiariam que um desconhecido qualquer quitasse uma dívida depois. O encontro perfeito entre o pôr do sol e a curva do Igaraçu na Beira Rio não seria tão bonito, nem as águas barrentas poderiam embalar solitárias canoas presas ao tronco, à espera do labor do dia seguinte. Talvez o mar não conservasse mais seu sedutor tom verde-esmeralda. Diante disso, surge uma intrigante pergunta: essa é uma rica cidade pobre ou uma pobre cidade rica?
Com uma posição geográfica privilegiada, similar às metrópoles litorâneas, Parnaíba vê diante de si a possibilidade de ascender sem cometer os mesmos erros dessas grandes cidades, cujo desenvolvimento se fez à custa da destruição dos mangues, mata nativa, flora e fauna silvestre, recursos naturais, e da modificação de suas características originais. A exploração imobiliária nas orlas priva a população da brisa do mar e altera o fluxo natural da ventilação continental, acarretando o aumento progressivo da temperatura e agravando os efeitos da poluição, provocando assim danos irreparáveis na vida dos animais e vegetais. As águas fluviais deixaram de serem potáveis pela poluição de resíduos lançados por indústrias, residências e até hospitais. O desregrado crescimento populacional dessas cidades vem gerando vários problemas que comprometem seriamente os aspectos sócio-ambientais, refletindo não só nas alterações ecológicas, mas nas relações humanas que necessitam das benesses do meio ambiente para sobreviver.
Parnaíba ainda guarda um jeito de cidade pequena. As festas ainda são familiares; à tardinha, rodas de cadeiras se formam nas calçadas atraindo vizinhos para manterem os assuntos em dia, sem medo algum da violência urbana. Mesmo resguardando essas raridades na globalização e no capitalismo, a Princesinha do Igaraçu ocupa uma importante posição política no Estado por ter potencial para se transformar num pólo referencial de desenvolvimento equilibrado no Nordeste brasileiro, e talvez no mundo.
É em sua história gloriosa que a cidade também encontra outra interessante fonte de enriquecimento: dona de um Patrimônio Histórico e Natural, Parnaíba poderá se consolidar no Turismo Cultural. Para isso é necessário interromper o processo de abandono e deterioração que muito desse legado – em especial a Memória – tem sofrido com o passar do tempo. O prédio de maior importância histórica do Estado, a Casa Grande de Simplício Dias, está em ruínas assim como as Histórias de Parnaíba e do Piauí, que vêm sendo continuamente violadas. Com os prédios novos que desfiguram as antigas construções sobram-nos as migalhas de uma cultura que cada vez mais fica esquecida.
E os poucos que tentam relembrá-la e perpetuá-la vão se deixando levar pelo esmorecimento ao avistar o asfalto, produto da modernidade, avançar sobre o impotente Centro Histórico. Enquanto os palacetes vão sendo cruelmente demolidos ou alterados, as galerias subterrâneas permanecem esquecidas. Há pouco tempo perdemos os jardins Landri Sales e Rosário do Largo da Matriz. Menos sortes tiveram as praças Cel. Jonas Correia e a Antônio do Monte, que viraram pocilgas. Enterradas nesses escombros, estão as verdadeiras festas populares. Não há mais lugar para as lembranças do carnaval de rua do Simpatia e do Bloco Tulipa, das festas juninas, do bumba-meu-boi, dos forrós, das marujadas, do coco perenuê, das quermesses e dos desfiles cívicos. Nem recordações dos fraternos Natais e Ano Novo que eram vividos na Praça da Graça. Para os que resistem ao desânimo resta fantasiar a História contada pelos mais velhos.
Ainda assim, a cidade mantém-se firme. Não se sabe se por causa da brisa do rio ou da majestade das palmeiras, o fato é que Parnaíba sempre se postou ao lado da liberdade, do desprendimento, às vezes pagando caro por insistir em ser um tanto orgulhosa. Cada calçada guarda uma pegada histórica, um sonho, uma vida. Pelas suas ruelas caminharam homens com a disposição de guerreiros, prontos para batalhas em prol não apenas da sobrevivência, mas da independência e de idéias ousadas para suas épocas.
Hoje, a cidade precisa, urgentemente, resgatar suas lendas e mitos, seus fatos e seus personagens, pois do contrário, casarões e becos não conseguirão revelar os tesouros que guardam. Para envolver a população, que é componente fundamental desse projeto de resgate, é imprescindível ampliar o conhecimento dos cidadãos acerca de todo esse patrimônio. A participação do povo na definição dos rumos de sua cidade é uma das maneiras mais seguras de garantir, por exemplo, a colaboração com a preservação dos bens tombados e, conseqüentemente, com o sucesso do Turismo Cultural, que deverá ser uma das bandeiras da região.
Preparando-se para recepcionar um tipo específico de turistas, Parnaíba poderá cultivar um turismo diferente de outros cantos do Brasil. É importante compreender que Parnaíba detém ecossistemas frágeis, que não podem ser arriscados em hipótese alguma em decisões que atendam apenas aos interesses meramente econômicos. Isso não significa dizer que com o Turismo Cultural e o Ecoturismo haverá perdas financeiras, pois o setor é sustentado por um público com alto poder aquisitivo.
No espaço urbano, o cuidado tem que ser reforçado para atender às especificidades de cidade-aquarela do Delta. Por isso, os cidadãos precisam utilizar os mecanismos de atuação social. É o caso do Plano Diretor, que disciplina o progresso e adequa cada área da cidade às verdadeiras necessidades da comunidade, alicerçando um modelo que criará impactos positivos na situação econômica, social, física, territorial e ambiental de Parnaíba. Com o Planejamento Urbano, Parnaíba não só está obedecendo à Lei Federal Nº 10.257/01, como está se organizando para o futuro.
Ciente de que pertence a um corredor turístico, Parnaíba experimenta novamente o papel de líder supremo do Norte. Esse novo ciclo de crescimento deverá superar definitivamente as distorções deixadas na região pela desorganizada urbanização promovida no Brasil a partir da segunda metade do século XX, quando se emanciparam centenas de pequenas localidades, ávidas por gerir sozinhas seus próprios recursos, pois as sedes dos municípios a quem pertenciam eram vistas apenas como concentradoras de renda. Foi assim que a extensa Parnaíba se viu desnorteada, com a transformação de sua zona rural em cidades circunvizinhas.
Em pouco tempo, os recém-criados municípios perceberam que a emancipação política não garantia a independência sócio-econômica. Do sistema de saúde ao comércio, tudo ainda passa por Parnaíba. Essa necessidade de convivência facilitou o apagamento da mágoa causada pelas separações e, novamente, Parnaíba se reencontrou com o seu destino, tendo pela frente o desafio de planejar um desenvolvimento equilibrado e sustentável para o futuro e que leve em conta a realidade de todas as localidades que dependem de sua infra-estrutura.
Os planejamentos devem incluir as necessidades dos vizinhos, considerando-se que Parnaíba tem uma participação decisiva nos interesses da região. A atuação em grupo é o modelo político que deverá se consolidar nesse século, pois no mundo globalizado tem mais poder quem está coeso. O fato do Norte do Piauí ter municípios tão diferentes entre si possibilita a formação de consórcios nos mais variados setores, abrangendo desde o potencial agropecuário até à exploração turística de seus cerca de sessenta sítios arqueológicos. Essa rica diversidade dá ao pólo do Delta uma particularidade que o torna referência nacional: em geral, os pólos agregam cidades com características bem semelhantes, concentrando-se em poucas áreas.
A centralização de equipamentos em Parnaíba habilita-a como gestora do pólo do Delta, pois enquanto cidade-universitária cabe-lhe formar profissionais qualificados para a região, assim como conduzir o processo de transformação da realidade regional, visando a otimização da Bacia leiteira; a estruturação do Ecoturismo (Lagoa do Portinho, Delta do Rio Parnaíba, Parque Nacional de Sete Cidades, Pedra do Sal, Projeto Peixe-boi, desenvolvimento do Projeto Orla...); a criação da Universidade Federal da Parnaíba; a organização do Artesanato e do Distrito de Irrigação dos Tabuleiros Litorâneos; a internacionalização do aeroporto para a exportação dos produtos do agronegócio e do extrativismo; a melhoria da infra-estrutura; e o ordenamento dos recursos pesqueiros.
Nesse projeto de desenvolvimento Parnaíba deve priorizar também a recuperação da qualidade ambiental do Baixo Parnaíba, que vem há muito tempo sendo degradado desde o Alto e Médio Parnaíba pelo desmatamento das matas ciliares e das várzeas, assoreamento, queimadas, esgotos, erosão e lançamento de agrotóxicos. Há dez anos, cientistas japoneses publicaram pesquisa realizada no Rio Parnaíba que identificou muitos desses problemas. Segundo os pesquisadores nipônicos, medidas adequadas e investimentos poderiam transformar o rio em uma grande hidrovia. O tempo passou e nada disso aconteceu. O descaso para com o Parnaíba agravou a situação de tal forma que a poesia de H. Dobal sobre o Velho Monge está prestes a virar profecia: “É um fio na memória um rio esgotado”.
De acordo com estudos da Fundação Rio Parnaíba (Furpa), em menos de duas décadas, a quarta maior bacia brasileira e a segunda do Nordeste corre o risco de ser extinta. A sobrevivência do Piauí e de parte do Maranhão depende da urgente reabilitação do Rio Parnaíba. A preservação da aquarela de Simplício Dias depende inteiramente da conscientização sobre a nossa vital relação com esse meio ambiente. Embora cada cidadão tenha sua parcela de responsabilidade, essa é ainda maior nas mãos daqueles que dispõem, no presente, de condições legais para elaborar e gerir as políticas públicas que edificarão o futuro parnaibano. Finalizo parafraseando o poeta R. Petit, autor do Hino da Parnaíba: “A doce sombra da paz suprema, progredir sempre é o nosso lema”.

Ilha do Amor

Saudades da Ilha do Amor (São Luís)! Nostálgicas lembranças da capital do Maranhão, fundada por franceses, colonizada pelos portugueses e cobiçada pelos holandeses.
“Terra Morena” de Gonçalves Dias, Aluízio de Azevedo, Manoel Beckman, Josué Montello, Ferreira Gullar, João do Valle, Zeca Baleiro, Alcione, Maria Aragão, Ana Jansen, Carlos Nina, Nina Rodrigues... Terra do arroz de cuxá, do tambor de crioula, do Cacuriá de Dona Tetê, do Boizinho Barrica, da jussara com camarão, do guaraná Jesus, das ruas estreitas de nomes curiosos (Rua do Sol, Beco da Bosta, Praça da Alegria...), casarões antigos, cidade dos azulejos, cidade dos bem-te-vis, tão bem retratada na música Ilha encantada de Zé Pereira Godão: “São Luís, minha ilha encantada namorada das noites de luar navegante amor, vem meu beija-flor/mãe guerreira, amante das ondas do mar...”; e de tantas outras personalidades renomadas.
Ah, quem dera estivesse lá agora e encontrasse os poetas no Reviver... Rever o amigo ancião de barbas e cabelos inteiramente alvos, sandálias franciscanas, camisa de mangas compridas, branca, por fora da calça folgada, da mesma cor - o velho poeta Nauro Machado, um amado artista ludovicense. Encontrei-o uma vez apoiado em sua bengala, encostado em uma das pedras de cantaria da Praia Grande, quando o reconheci não me segurei e lhe dei um abraço.
A primeira vez que estive em São Luís, esta bela e afável cidade, foi em meados do ano de 1999. Recordo-me de como meu coração de 16 anos se sentiu quando atravessei a ponte São Francisco e avistei, com os olhos atentos, o Centro Histórico. Foi algo difícil de descrever e que só tempos depois entendi na letra do Hino da cidade, intitulado “Louvação de São Luís”, de autoria de Bandeira Tribuzi: “Quero ler nas ruas: fontes, cantarias, torres e mirantes, igrejas, sobrados nas lentas ladeiras que sobem angústias sonhos do futuro glórias do passado”.
Intitulada de Atenas Brasileira, São Luís despertou em mim uma irresistível inveja. Olhar aqueles prédios conservados, suas fachadas multicoloridas, o cheiro boêmio da vida, a luz dourada do crepúsculo nas calçadas e paralelepípedos das ladeiras... era uma mistura de exaltação e angústia. Ao mesmo tempo em que me encantava com os seus laços de fita estendidos como um tapete por onde eu passava, doía-me lembrar de Parnaíba, talvez a mesma dor de Carlos Drummond de Andrade em sua “Confidência de Itabirano”: Itabira é apenas uma fotografia na parede.Mas como dói!
São Luís é uma resposta convincente pra quem diz que ninguém se interessa por prédios históricos! É uma prova viva de que conservar cada azulejo vale à pena. De que zelar cuidadosamente de sua cultura é uma questão de sobrevivência. Andar pelo Reviver é como atravessar um portal do tempo... lendo “Os Tambores de São Luís” (autor: Josué Montello) a gente consegue ouvir até os ruídos dos cascos dos cavalos sobre as pedras da Rua da Estrela.
Depois de apreciar o pôr-do-sol na escadaria do João do Vale, recuperei o fôlego na lanchonete do francês (experimentando o croissant... e o brioche...). Para alimentar o espírito, visitei o Poeme-se – um sebo onde funciona um ciber e uma livraria -, e a Casa do Maranhão, onde os artistas moram e criam suas obras.
Na parte nova da cidade, não deixei de ir à Litorânea. Aproveitei tudo o que tem lá, especialmente a comida. O caranguejo ainda é maranhense, ao contrário do Ceará, que há muito só consome o do Delta...
De qualquer forma, sei que fui encantado (sou ludovicense de coração) por uma terra que seduziu inúmeros piauienses, como César Nascimento que em versos resume bem o que o sinto: “Eu jamais te esquecerei São Luís do Maranhão” (trecho da música Ilha Magnética, de César Nascimento).

Psicografia



Fora do quarto, o vento quente e a tempestade de areia cobrem as ruas e distanciam cada vez mais a chegada das chuvas do mês de Dezembro. Imagino a velocidade e o avanço das dunas na Lagoa do Portinho. Realmente John Darst estava certo quando disse que “o Homem modificou a face do Globo a ponto de destruir a harmonia do meio em que estava destinado a viver”. De um tempo para cá, o clima de Parnaíba tem sofrido grandes mudanças. A cidade nesse final de ano respira um ar melancólico: o verde desbotado das árvores, o canto triste dos pássaros, o gemido fúnebre do rio Parnaíba fazendo-me recordar as palavras de Mário Baptista: “A vida piauiense está, de tal maneira presa ao Parnaíba, que se por cataclismo, este desaparecesse, não há dúvida de que o Piauí também não poderia continuar vivendo”. O nosso poeta H. Dobal escreveu em versos os seus sentimentos sobre a lenta e agonizante morte do Rio Parnaíba: “Meu rio Parnaíba feito lembrança, não corre mais entre barrancos, é um fio na memória um rio esgotado”.
Pois bem, foi envolvido nesse cenário que de caneta em mãos comecei, lentamente, a rabiscar uma folha de papel. Fiz um traço e pus nela três pontos, identificando algumas fases de minha vida. Detive-me por um tempo tentando alcançar, de imediato, a conclusão almejada pelos meus pensamentos. Era um assunto novo, contudo não era inédito. No dia anterior eu havia pensado nisso e exposto o assunto com incipientes detalhes. É interessante e misterioso o complexo funcionamento do nosso espírito. As coisas estão sempre ali, porém nos afastamos de tal maneira que começamos a esquecer das coisas, dos momentos...
Os meus primeiros anos de vida foram cobertos por uma escuridão, daquelas de mata fechada, coberta pelas verdes copas das árvores. Lá, eu divagava, sem saber para onde ir, sem destino algum. Teve um instante, do qual não me recordo nitidamente, que desgarrei daquele bando perdido na floresta. Fugi como um animal selvagem seguindo os seus próprios instintos de sobrevivência.
A cada investida na mata e a cada mudança de atitude, o clarão da luz do sol invadia os meus olhos, quase cegos pelo negrume da floresta. Fazia muito tempo que planejava quebrar os grilhões, contudo nem eu mesmo sabia disso. Todavia quando decidi não colocar mais as máscaras, e sim mostrar o que sou, sofri pesadas represálias, da mesma forma que um animal selvagem tentando sobreviver sozinho diante das leis da natureza.
Foram anos sem compreender o porquê as hipocrisias me angustiavam. Até que eu percebi que o motivo estava intimamente vinculado à minha maneira de não ser eu mesmo e ser um deles, hipócritas. Tirei as vestimentas do corpo e me encarei no espelho. Foi doloroso chegar à terrível conclusão de que até aquele momento eu não era diferente de nenhum daqueles aos quais eu repugnava.
Completada essa primeira etapa, levei mais alguns anos remando, penosamente, contra a correnteza de um rio carregado de piranhas. Agora, sinto-me no outro lado da margem, imaginando e ainda me preocupando com o rumo da vida dos que ficaram perdidos na mata.
Naquele tempo tive que sacrificar muitas coisas dentro de mim, assim como o vaqueiro que na passagem da boiada pelo rio, oferta um dos seus gados mais fracos, em troca da integridade física do rebanho. Muitos sentimentos tiveram que ser retirados das minhas costas, não só para me salvar fisicamente, mas, também, para não afundar, pois sentia-me muito pesado e o ato de nadar era quase impossível.
A travessia para o lado oposto do rio deixou-me coberto por uma frieza gélida, daquelas de congelar o coração. Definitivamente não sou o mesmo. Perdi a necessidade de visitá-los, não os sinto mais dentro de mim, e o pior, vejo-os como nocivos ao meu equilíbrio corpo-espírito. A sensação que tenho é que eu parti para nunca mais voltar.
Aquele tempo representa a minha mais decisiva e importante transição de vida. Sinto-me independente, seguro do que sinto e do que sou capaz de sentir. Alimentei durante anos angústias, amarguras e ressentimentos, sem saber o que tanto pretendia buscar e que tanto essas emoções ruins sobrecarregavam a minha alma e prejudicavam a minha saúde. Enquanto divagava na mata ou nadava contra a correnteza, enfrentando o rio e suas pestes, estava acometido por uma doença espiritual, que pouco a pouco formava manchas doloridas em meu corpo. Há tempos estava atrás do instante exato em que me tornara livre dos pensamentos ruins. A cada dia que passa o meu espírito está em ascendente processo de harmonia e paz. Agora sobre a minha ausência, ela se deu por vários e profundos motivos, que vão além do óbvio, do real.
Foram anos construindo a minha edificação do outro lado da margem. Enganei-me quanto à firmeza de seu alicerce. A enxurrada levou as paredes e junto com ela, o eco guardado de minha voz, de minhas confissões. Sentado na lama e com o corpo desfalecido, chorei vendo o que escorria pelos meus dedos. Ouro - pensei. Deixei-me cair no chão para que o meu corpo fosse consumido pela lama. Quando as nuvens escuras encheram o céu e as luzes do sol sumiram, vi o quanto havia sido enganado: não era ouro o que segurava em minhas mãos, era apenas sangue, o meu sangue.