quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Casa Grande em anos de chumbo

Acordei assustado com o barulho da janela batendo na parede, por causa do vento forte da madrugada. Resisti contra a necessidade de levantar para fechá-la. Mesmo coberto por um lençol e com o corpo todo encolhido, continuava sentindo frio. Muito exausto, fazia de tudo para pegar novamente no sono, tentando ignorar o rangido da janela que continuava balançando ao vento, agora sem dar pancadas.
Quando a dormência começou a me embriagar novamente, a janela voltou a bater, dessa vez com mais força. Parecia estar me provocando. O que será que ela tem contra mim? Será que não vê que estou com sono?, murmurei, brigando e esmurrando o colchonete. Enquanto levantava lentamente, fitei Arthur que continuava dormindo. Parecia estar bem melhor. Quando acordar, voltará a ser o mesmo!, sussurrei.
Deixando o amigo em seu merecido descanso, direcionei minhas atenções para a janela, única culpada por eu estar acordado. Pôxa vida, será que você não vê que estou tão cansado quanto Arthur?, reclamei mais uma vez antes de caminhar ao encontro da minha carrasca.
Com raiva, peguei em sua velha e maltratada madeira para fechá-la violentamente, mas logo fiquei com remorso imaginando há quantos séculos ela ali se sustentava bravamente. Arrependido pelos meus atos de incompreensão, fechei-a, para que ambos nos acalmássemos.
Quando me abaixei para apanhar um pedaço de madeira que pudesse escorar a janela barulhenta, escutei vozes baixas do lado de fora. Cautelosamente, estiquei o pescoço e me surpreendi com uma movimentação anormal na entrada da Casa Grande.
Estava muito escuro, a ponto de não se poder enxergar quase nada. O que querem com essa investigação, tamanha hora da noite?, indaguei-me. Poderiam ser ladrões, mas logo descartei essa hipótese, pois inexistia dentro da casa qualquer coisa valiosa. Será que alguém do grupo nos delatou? Pensei imediatamente em Gabriel, que naquele mesmo dia tinha demonstrado muito nervosismo e dado muitas desculpas para o seu atraso. Ele é o único que não olha as pessoas no rosto...
Aguçando mais a visão, percebi que eram cinco homens, sendo que os dois mais magros estavam olhando pela frecha da porta. Certamente não viam absolutamente nada. Se à luz do dia mal dava para enxergar o cofre que impedia a visão da galeria, imagine à noite! Os outros três, mais fortes, faziam a vigília ao lado da calçada. Aquilo era realmente muito estranho!
Meu coração acelerou abruptamente quando um dos que vigiavam ergueu a cabeça. Acho que não me viu! Será que me enxergou aqui, na janela? No mesmo instante, uma lanterna acesa foi direcionada para o buraco da porta, que estava protegida por um grande cadeado, no qual nunca confiei. Quando a luz da lanterna refletiu em suas roupas, percebi que eram “policiais”. Eles devem ter descoberto o nosso esconderijo!, afligi-me, colocando as mãos na cabeça.
Antes de acordar Arthur para uma fuga, olhei mais uma vez pela janela. Foi quando observei o guarda de maior estatura forçando o cadeado com um pé de cabra. Ele deve ter me visto! Corri em direção a Arthur, que acordou totalmente assustado. Logo ele, que acabara de se recuperar de uma das piores crises de esquizofrenia, passando quase dois dias fugindo das alucinações, agora teria que encarar a temível invasão, há tanto tempo esperada, e que quase o levou à loucura. Arthur não sabia o que fazer diante do medo e da aflição.
Depois de enrolar os três colchonetes, comecei a recolher todos os papéis, para eliminar qualquer suspeita sobre a nossa presença naquele lugar. Arthur não conseguia fazer absolutamente nada. Estava mais atrapalhando do que ajudando!
Quando o som que identifiquei ser o arrombamento da porta entrou em nossos ouvidos, ele se desesperou e correu para pegar o revólver que mantinha escondido por trás de uma janela. Pensei que fosse nos defender dos guardas, mas quando vi que estava apontando para a própria cabeça, entendi que passava por dois sérios problemas: os policiais e a esquizofrenia de Arthur, que acabara de voltar!
Pedi a ele que se acalmasse, contudo parecia nem me conhecer. Recuando para evitar que eu me aproximasse, quase enfiou o pé num buraco do piso, o que teria posto tudo a perder. Já tomado pelo desespero, coloquei minhas mãos em sua boca para que calasse, pois os policiais o escutariam e subiriam imediatamente. Não compreendendo o meu gesto, Arthur mordeu dois dedos da minha mão direita. Com a dor, quase deixei cair os papéis segurados pelo braço esquerdo.
Não tendo outra alternativa, cerrei o punho e dei um forte soco em seu rosto, esticando a mão rapidamente para segurar o revólver. Escutei as pisadas investigativas dos policiais, que já estavam dentro da Casa Grande. Pus as coisas no chão e segurei Arthur, com receio do piso ruir.
Antes de subir para o telhado, observei pelo buraco da madeira a luz da lanterna no primeiro pavimento. Logo estariam aqui no segundo andar. Tomei todo o cuidado para não fazer nenhum barulho. Nessas horas, qualquer som que não escutamos normalmente, parecia alto e agudo.
Com muito esforço consegui colocar Arthur na parte mais segura do telhado. Embora não crêssemos que uma invasão pudesse acontecer, havíamos nos preparado para isso. Nós, não! Arthur havia preparado aquela parte do telhado, cujo acesso se dava no final do corredor do segundo andar, para servir de esconderijo dentro da Casa Grande de Simplício Dias!
Voltei quase correndo para pegar todas as coisas que nos desvendaria. Agarrado aos três colchonetes, agachei-me para segurar os papéis e livros. Quando o fiz, deixei cair um bloco de anotações no piso de madeira, fazendo um barulho que imediatamente foi ouvido pelos policiais. Enquanto corria rumo ao telhado, entre tremores e gestos de agonia, escutei ordens de comando para o segundo pavimento.
Sem tempo a perder, subi para o telhado e lacrei a saída com seis telhas, deixando apenas uma brecha para observar a movimentação. A noite estava muito escura, dificultando o trabalho dos policiais e facilitando a nossa fuga.
Escutei quando subiram correndo. Tive certeza de que se continuassem naquele ritmo, a frágil estrutura do segundo pavimento não os agüentaria. E não deu em outra: quando os dois maiores subiram as escadas, no intuito de cumprir a ordem do superior, e colocaram os pés no piso de madeira, o mesmo se quebrou, jogando-os para o primeiro andar que, com o impacto do peso dos dois homens, também se rompeu. Daí, escutei apenas os gemidos de dores dos nossos algozes, que tinham ido parar, finalmente, no chão do térreo.
Enquanto os outros três cuidavam dos que caíram, escutei a voz irritada do que parecia ser o comandante da operação: Essa casa está completamente podre! Talvez aquele barulho tenha sido do piso, já querendo desmoronar. Não tem ninguém aqui!, esbravejou furiosamente. Senti um alívio ao ouvir aquele comentário. Estávamos, agora, a salvos.
Mesmo com o frio cortante da madrugada e a escuridão da noite sem lua, resolvi esperar um pouco mais no telhado. Com a confusão, não observei os dois pequenos cactos que cresciam no telhado. Joguei Arthur sobre eles, machucando-o ainda mais. Senti pena, mas não tive outra maneira de contornar aquela tensa situação. Até o amanhecer, permaneci assustado e atento a cada som.
Quando a aurora despontava no horizonte, retirei as telhas que nos ocultavam, e fui verificar como ficara o nosso esconderijo. Logo que cheguei ao lugar em que dormia, enxerguei uma imensa cratera no piso de madeira. O estrago impedia o contato com a escada que nos conduzia ao térreo e à galeria. Como faremos para sair daqui?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Tortura em anos de chumbo



Estava no meio de um pesadelo. Os policiais avançavam sobre mim, tapando meu nariz com tanta força, que eu sentia dor na face e não conseguia respirar. Preciso acordar! É só um sonho ruim...!, dizia, sufocado. Abri os olhos e me dei conta de que tudo aquilo estava acontecendo realmente! Melhor seria ter permanecido dormindo. Eles haviam invadido a Casa Grande e, dessa vez, nem a janela barulhenta me ajudou!
Não conseguia mover-me, nem reagir. Imobilizado contra o colchonete, não fazia a menor idéia do que havia acontecido com Arthur, até que vi, através dos reflexos das lanternas que usavam para guiarem-se na escuridão da Casa Grande, que ele permanecia dormindo tranqüilamente, no canto da parede. Entendi que queriam apenas a mim. Não conseguia saber quantos havia.
Tentei gritar, mas já estava amordaçado. Ergueram-me pelos cabelos e enfiaram um saco na minha cabeça. Rapidamente, fui conduzido pela escadaria. O silêncio era assustador. E só foi interrompido pelo rangido da porta que se abriu, deixando entrar no casarão o frio gélido da madrugada sem chuva. Estava totalmente acordado, e tentava não fazer nada que pudesse piorar minha situação. Como me encontraram???
Senti quando dobramos a esquina. Lá, empurraram-me bruscamente, fazendo-me perder o equilíbrio. Caí por cima de um dos meus braços, que estavam amarrados para trás. Retorci-me de dor. Em seguida, encostaram o meu rosto na calçada e uma chuva de pancadas caiu sobre mim. Sentia ser espremido pelo impacto dos punhos que faziam minha cabeça bater, repetidas vezes, contra as pedras da calçada. Aos poucos, o saco se tornou uma tortura a mais. Procurava ar para respirar e não o encontrava. O pano que me amordaçava impedia que eu lançasse para fora o sangue que jorrava. Sentia a boca cheia de sangue quente. Comecei a engasgar.
Eles chutaram com tanta força o meu corpo, que senti fraqueza imediatamente. Sem ar, sentia-me zonzo. Em agonia dentro daquele saco, já cheio de sangue, dava gemidos abafados de dor. Pareciam nem escutar o meu sofrimento. Estou morrendo...
Escutei, então, uma ordem para pararem de bater. Mesmo atordoado, distingui facilmente aquela voz familiar. - Dantas! Pressenti sua presença na saída da Casa Grande, mas não quis crer. Ouvi pisadas. Mais alguém havia chegado. Parecia estar ali apenas para assistir meu suplício, pois permanecera calado o tempo inteiro. Arrastaram-me como um animal morto por muito tempo. Agora sei o que Vicente sentiu!
Apesar do esmorecimento físico, fiz mais um esforço: passei a língua por dentro da boca e notei a ausência de alguns dentes. Devo ter engolido-os! Senti então uma dor lancinante enquanto arrastavam-me pelo chão. Com a roupa rasgada, minhas costas nuas iam sendo feridas pelo calçamento. Provava, assim, o gosto amargo das conseqüências de querer libertar a cidade que eu adotara como minha.
Dominado por uma sensação de desmaio, escutava apenas as fortes pegadas dos que me levavam. Eles permaneciam mudos, e concentrados no que faziam. O último som que ouvi foi o rangido de uma pesada porta sendo aberta. Não sei o que aconteceu depois.
Quando voltei a mim, estavam abrindo minhas pálpebras inchadas. Senti que derramavam um pó, que caiu também em meus lábios. Era pimenta! Impulsivamente, puxei as mãos para tentar aliviar a terrível ardência. De nada adiantou. Estava preso por correntes, que fizeram um barulho estridente.
A pimenta despertou-me totalmente. Escutei gargalhadas. De braços abertos e joelhos encostados no chão, senti-me um animal num matadouro. A corrente que contornava o meu corpo, indo até os pés, era bastante apertada, fazendo-me sentir claustrofobia. Meus olhos latejavam e eu os piscava seguidamente para que o ardor insuportável diminuísse.
Meus torturadores começaram a me interrogar sobre o paradeiro do meu avô. Eu não sabia o que responder. Um nó se formou em minha garganta, travando-a. Fiquei calado. Pelo que ouvi de um deles, não queriam que eu apagasse ou dormisse. E, principalmente, não queriam que eu morresse.
Com o rosto latejando e completamente inchado, tentei erguer a cabeça, que parecia estar amassada, para observar onde estava. Abri os olhos pela milésima vez, mas só divisei alguns detalhes ao meu redor que lembravam a masmorra aonde Vicente fora torturado até morrer. De repente, mãos fortes puxaram meus cabelos.

- Tá aqui o moleque, patrão!
- Há, há, há, há! O velho safado mandou esse moleque para me afrontar? É muito covarde mesmo! Quer usar o neto como isca! Se ele estiver aqui, vai ter que aparecer, pois o “netinho” dele está em minhas mãos – falava e me cuspia, fechando as mãos em punho.

Olhou-me bem, e me provocou:

- Como se não bastasse a mulher e a filha, quer te sacrificar agora, é? É brincadeira, não? É muito frouxo um homem desse! Fugiu há mais de vinte anos e agora manda o netinho na frente, para depois vir cantar de galo. Mas eu vou mostrar para ele. Ora se não vou! – exclamou gaguejando e me cuspiu novamente.

Aquele era o plano. Usar-me para pegar meu avô. Virou-se para Domingos e ordenou:

- Não o deixe dormir. E brinque um pouquinho com ele, para que aprenda a lição que o avô já devia ter aprendido. Ah!, e veja se consegue arrancar alguma informação do paradeiro daquele canalha.
- Há, há, há, há! Pode deixar, patrão, que a gente dá um jeitinho nele! Tava até com saudade disso. Fazia um tempinho que a gente não dava um trato em alguém, né, não, Dantas?
- Com certeza, Domingos!

Tentei escutar o que diziam depois que se afastaram, mas não ouvia nada. Algo escorria dos meus ouvidos, diminuindo cada vez mais minha audição. Minutos depois, com os olhos ainda ardendo por causa da pimenta, experimentei erguer pela segunda vez a cabeça e observar onde estava. Era o mesmo canto em que Vicente ficara pendurado na masmorra. Vendo-me aparentemente consciente, Domingos correu em minha direção e enfiou o cotovelo no meu estômago, fazendo-me abaixar novamente a cabeça, jorrando sangue. Quantas vezes me arrependi de tal atitude!

- Tá com saudades das minhas surras, moleque? Já quer começar a brincar de novo?
- Domingos, deixe para mais tarde!
- Que é isso Dantas? Tá mole, homem? O que tá acontecendo contigo?
- Nada, apenas quero vê-lo melhor... Depois, você pode fazer o que quiser!
- Tá com pena, Dantas?
- Não, apenas eu quero lhe perguntar umas coisinhas...
- Tudo bem! Faça o que lhe for da cabeça, mas deixe as pancadas pra mim. Ele é todo meu! Enquanto você conversa com o moleque, vou atrás de um fio de ferro para brincar com ele mais tarde.

Ainda consegui escutar um fio de voz daquele homem, mas não sabia se ele estava realmente se distanciando. Não confiei na minha audição, pois a perdia rapidamente. Nem percebi quando Dantas se aproximou de mim. Vi apenas os sapatos brilhantes encostarem-se ao meu joelho. Demorou alguns minutos em pé. Até que puxou meus cabelos para cima e, com um pano, limpou o meu rosto completamente desfigurado. Parecia estar me analisando.
Entre manchas brancas na visão, vi a testa franzida daquele homem. De repente, ele começou a abrir e fechar a boca, como se estivesse falando alguma coisa. Estou completamente surdo! Eu queria enxergar melhor os detalhes do seu rosto, mas parecia estar perdendo também a visão. Em uma das vezes que passava o pano para limpar o sangue endurecido da minha face, senti um carinho vindo das mãos pesadas de Dantas. Mesmo sem ter provas, parecia já estar seguro da conclusão que para ele também devia estar sendo macabra. Juro que naquele momento acreditei que fosse me salvar!
Finalmente, Dantas deixou cair a minha cabeça. Ergueu-se e ficou parado à minha frente, provavelmente dizendo alguma coisa. Angustiava-me muito não conseguir ouvir nada do que aquele homem falava. Até que tocou as correntes, balançando-as de leve, e se foi tranqüilamente, sem olhar para trás.
Ao mesmo tempo em que estava chocado com a frieza daquele homem, sentia-me aliviado por estar agora sozinho. Não percebia a presença de mais ninguém além de mim. A tristeza aos poucos demoveu minhas últimas forças. Chorei silenciosamente. Já não sentia medo, apenas amargura e decepção. As cenas do dia anterior na praça sucediam-se em minha mente. Mas eu não queria pensar nelas, pois aumentavam meu sofrimento.
Lamentei pela falta de cuidados na segurança. Como pude ser tão tolo? Arrisquei-me com tanta facilidade. Não poderia ter continuado na Casa Grande depois daquela invasão! Os pensamentos me atormentavam agora mais do que meu corpo, em trapos. Temi por aqueles homens e mulheres que haviam declarado publicamente apoio ao movimento; pessoas como Galdino Veras que, desde o dia em que se declarou a favor, fora deixado de lado pelo regime, e seria destruído depois.
Recusava-me a pensar sobre o que tinham feito a Arthur. Se não tivesse sido seqüestrado também, provavelmente conjeturava que eu fugira para a fazenda, abandonando a causa. As duas possibilidades me entristeciam. Não havia chance de socorro. A morte seria o meu consolo. Torci para que ela chegasse antes de Domingos. Deixei-me morrer. Até que um arrepio percorreu todo o meu corpo.
Um frio confortante penetrou nos meus sentidos, fazendo-me lentamente recuperar a visão, a audição e, principalmente, o equilíbrio mental. Senti-me novamente motivado a viver, mesmo tendo que suportar o suplício das torturas que sabia virem pela frente. Algo me dizia para continuar aparentando debilidade. Nesse momento, uma voz interior me disse: Você irá viver!
Mesmo com uma disposição absolutamente diferente, decidi permanecer na mesma posição para evitar que Domingos me flagrasse de pé. E ele chegou meia hora depois. Entre risos e palavras de escárnio, recomeçou a me espancar. Eu não sentia nada! Estava transpassado pela dor. Ainda cheguei a escutar a respiração ofegante de Domingos, que cansou o braço de tanto me bater. Como que revoltado com a recusa do seu corpo em continuar me torturando, Domingos disse: O que está havendo comigo? Nunca fiquei tão cansado em meus serviços!
Dominado pela raiva, pegou um pedaço de ferro. Foram alguns golpes leves. Logo ouvi o barulho do bastão bater na parede. Domingos sentou-se no chão, de tão exausto que ficara. Acho que estou ficando gripado... Todos os meus ossos doem! Você tem sorte, moleque! Vai ser o primeiro torturado a dormir, mas ninguém pode saber disso, viu? É o nosso segredinho! Veio em minha direção e verificou meu pulso. Ao confirmar que ainda estava vivo, deixou-me sozinho. Não confiava nele. Talvez tivesse apenas ido buscar outras ferramentas para me torturar ou até trouxesse outra pessoa para substituí-lo.
Muitas horas já haviam se passado sem que ninguém me incomodasse. Lentamente me recuperava. Cada minuto parecia uma eternidade. Esperava tensamente alguma outra investida de Domingos contra meu corpo.
Evitava cochilar, pois temia que quando o fizesse, seria acordado e novamente torturado. Cheguei a pensar que o melhor seria ficar ali e aproveitar o tempo sem suplícios. Se dormir..., sussurrei, ouvindo pela primeira vez o eco da minha voz dentro daquela masmorra, e sentindo a ausência dos dentes. Não consegui terminar a frase. Mas calculava que se dormisse seria surrado. Acordado estou a salvo!
Aliviei a bexiga, molhando as calças como uma criança. Mal saberia que quando fizesse isso de novo, sentiria uma dor que jamais esqueceria.

- Vovô o senhor está vivo?
- O que é isso, meu neto?
- Mas e o Movimento?
- Movimento o quê?
- É, vovô... os meus amigos: Vicente, Arthur, Antônio... Caroline! O que aconteceu com eles?
- De quem você está falando?
- Vovô, são as pessoas que estão me ajudando em Parnaíba!
- Há, há, há! Foi só um sonho, meu neto! Foi tudo um sonho!
- Não, eu tenho certeza que não foi, pois lembro da Casa Grande, da Praça da Graça, enfim de Parnaíba! Eu andei em suas ruas. Conheci a sua gente e quis lutar pela sua liberdade. Por que vim parar aqui? O que houve?
- Meu filho, é claro que você conheceu Parnaíba. Só que através de fotos. O que é muito diferente de pessoalmente. Vejo que essas estórias que ando lhe contando estão fazendo você ver coisas. Insisto, foi apenas um sonho.
- Não! – grito – Não foi! Eles são reais!

Vovô olhou-me colérico e disse:

- Você nunca foi de gritar comigo! O que está acontecendo com a educação que eu lhe dei! Chamarei um médico para saber o que está havendo! Vamos para a capital.

Fitei o rosto daquele homem, que nem de longe, parecia o meu avô, e firmemente lhe mandei embora, dizendo-lhe que não iria para onde ele queria me levar.

- Vá embora! – gritei-lhe.
- Menino! Respeite o seu avô!
- Ele jamais falaria comigo dessa forma! – retruquei.

O homem que tinha o mesmo aspecto físico do meu velho afastou-se, gritando para seu Zé que eu estava doente e precisava de um médico urgente. Quando os dois se aproximaram de mim, fitei-os grosseiramente.

- Zé, não vê? Ele nem me conhece mais!
- Por que ele está de olhos arregalados? Parece querer nos matar!
- Saiam daqui! Vão embora! – esperneei, mas estava preso em uma cama.

Os dois impostores sumiram e senti minha roupa sendo retirada. Acordei e percebi que não passara de um sonho e que eu continuava na masmorra. Observei Domingos retirando lentamente a minha bermuda. A primeira impressão que tive foi a de que ele cometeria um abuso sexual. Enxerguei, então, uma haste de ferro e um isqueiro, e fiquei apavorado! O que esse louco pretende, meu Deus?!
Fechei os olhos tentando fazer tudo aquilo desaparecer, mas de nada adiantou. Domingos enfiou vagarosamente a haste dentro do meu canal urinário. Escutando meus gemidos de dor, ele dava gargalhadas e pulava de felicidade. Espera que têm mais!, vibrava com sadismo.
Senti náuseas, e vomitei no seu rosto sorridente. Recuando, Domingos arrancou de uma vez o ferro que estava dentro de mim. E agora com raiva, enfiou rapidamente e acendeu o isqueiro, colocando para esquentar a ponta de fora da haste. Tento não lembrar das dores e sofrimentos que passei, mas até hoje tenho pesadelos.
O ferro foi esquentando e dilatando. A temperatura era cada vez mais elevada. Queimava tudo por dentro. Involuntariamente, me urinei. Aquele líquido saindo forçosamente pelo canal torturado pela haste de ferro quente, foi para mim um dos mais terríveis momentos da minha vida!
Apesar de estar perdendo os sentidos por causa do sofrimento, escutei quando a urina saiu chiando, como se estivesse fervendo instantaneamente. O que para aquele louco foram apenas alguns minutos de diversão e prazer, para mim foram horas de agonia. Depois que retirou a haste, senti-me impossibilitado de qualquer reação.
Entregue ao desfalecimento, senti a presença de uma segunda pessoa no local.

- Como está o nosso prisioneiro? –perguntou uma voz não muito estranha, carregada de sarcasmo.
- Estava esperando por você até agora, mas como demorou demais, dei o trato nele sozinho!
- Não dá para fazer de novo?
- Dá, ora!... É pra já!

Não conseguia identificar quem era aquele homem que guardava tanto ódio de mim e que, sem piedade, pedira mais uma tortura daquelas. Da mesma forma que antes, Domingos enfiou a haste com força. Gemi e apaguei. Não sei por quanto tempo fiquei inconsciente, nem quantos choques e pancadas me deram para que eu acordasse.
Vagamente escutei Domingos conversar com a pessoa que viera me ver ser torturado. Agucei a audição, mas ainda não identificava quem era o homem. Ele estava de costas para mim. Eu conheço essa voz!...
Os risos de escárnio, mesclados com prazer e ódio, aumentavam minha ânsia em sair daquela situação.
Num fio de esperança, analisei meu estado físico. Quanto tempo ainda posso suportar até aparecer uma chance de fugir? Olhei então para meu braço direito e vi meu punho totalmente roxo. Tentei mover os dedos, mas eles continuaram cerrados. Fiquei preocupado! A mensagem enviada pelo cérebro não funcionava. Lentamente, mirei meu outro braço, e reparei que vários ferimentos o contornavam até à mão que, ao contrário da esquerda, não estava arroxeada e podia mexer-se normalmente. Fiquei ainda mais tenso!
Das dezenas de pancadas que levei, nenhuma justificava a perda dos movimentos da mão direita ou aquela cor, que já se aproximava do preto. Então lembrei da claustrofobia que tive quando me vi preso pela corrente. E ela apertou muito o meu punho direito! Mas já faz tempo que não a sinto mais...
Sustentava todo o meu corpo sobre os joelhos esfolados. Sentia cãibra na perna esquerda. De cabeça baixa e mergulhado em pensamentos, nem percebi a aproximação do impiedoso rapaz que conversava com Domingos. Quando se dirigiu a mim, fingi estar desmaiado, o que não era muito difícil já que eu mal tinha forças para levantar a cabeça ou abrir meus olhos, por causa do inchaço.
Evitei encará-lo, pois já sabia a quem encontraria. Senti quando ele cuspiu duas vezes em meus cabelos. Ao ouvi-lo de perto, não tive mais nenhuma dúvida. Apesar do tom estar completamente carregado de ódio, reconheci a voz de Gabriel Marques.

- Este é o nosso prisioneiro, Domingos?
- Há, há, há , há!
- Pensa que é só chegar e mandar em tudo? Eu nunca fui teu empregado, sabia? – perguntava-me, chutando - Fiz questão de atrasar o teu almoço todos os dias. Eu adorei fazer isso, pois sabia que ficava te roendo de fome! Foi logo dominando o Antônio, e depois, a cada um dos meus amigos. Mas eu... eu nunca caí na tua lábia, seu moleque! Veio só para infernizar as nossas vidas! Nós já tínhamos feito história, não precisávamos fazer mais nada. Era só continuar como sempre fizemos: curtir nossa fama e nos gabar dos feitos de antigamente... Criticar? Criticar o quê? Por quê? A gente só tinha que falar mal nos bares, onde nenhum bêbado levasse a sério nossas palavras! Para parecer que somos oposição, que somos revolucionários. Intelectuais! Fazer umas poesias cheias de palavras que ninguém entende, que nunca vão ser entendidas nos cabarés nem nas igrejas. Nada de sair falando ou escrevendo coisas para despertar esse povo idiota que se diverte só falando mal da vida dos outros. Mas não! Tu convenceu todo mundo a cometer esse suicídio, acabando nossa política de boa vizinhança com o regime. Eu jamais fui com a tua cara, desde a primeira vez que te vi, lá na sinuca. Todo filho de uma puta! Mas a gota d’água foi quando me fez passar vergonha na reunião, com o Antônio me chamando atenção na frente dos outros. Foi a primeira vez que ele não me elogiou, não me engrandeceu por um dos títulos que eu tenho. Sabe quantos títulos eu tenho, seu moleque? Eu sou Gabriel Marques, membro de quatro academias! Na reunião passada ele tinha elogiado meu poema sobre a morte do meu pai. E agora, quando ele me chamou atenção, eu vi o teu olhar de gozação! Pensou que fosse ficar barato, né? Não ficou mesmo! – exclamou, colocando a ponta de um pedaço de madeira no meu queixo e me fazendo levantar a cabeça. Senti seu hálito de cachaça quando se aproximou e me cuspiu. Continuei de olhos fechados, como se estivesse inconsciente. Temia que ele fizesse mais alguma maldade contra o meu corpo, já destroçado – Naquele momento, prometi que me vingaria.

Como pude confiar numa pessoa tão desumana! Logo eu que cresci aprendendo a discernir quem tem caráter ou não! Vejo que não foi apenas o descuido com a minha própria segurança que fez eu ser preso. Foi uma traição que me trouxe até aqui! Enquanto lamentava, revia mentalmente a face de Gabriel na última reunião do Movimento. Deveria ter dado mais atenção àquele olhar rancoroso que ele me dirigiu durante alguns minutos.
Quantas revelações viriam mais pela frente! Depois de algum tempo de conversa, Gabriel se retirou e Domingos voltou para o seu posto, só que agora com um balde pesado na mão. Deve ter pegado na saída, pois acompanhara o coroinha sem carregar nada. Quando me viu consciente abriu um sorriso. Mesmo no escuro, divisei seus enormes dentes brancos, que chamavam a atenção. Ocupado em observar aquele rosto marcado por cicatrizes, esqueci de tentar descobrir o que havia dentro daquele balde. Não quero nem saber! Por que não me mata logo?
Domingos mudou de estratégia, ou essa atitude faz parte de uma nova fase de tortura! Estava psicologicamente destruído e temia que Domingos tivesse alguma nova idéia. Senti então a temperatura do balde, encostado propositalmente no meu joelho esquerdo, que imediatamente ficou queimado. Ao lado, encontravam-se a haste de ferro e o isqueiro que me tiraram metade da vida. Parado ali, continuavam sendo uma forma de martírio para mim. Domingos era impiedoso.

- Se abaixar a cabeça, jogo pimenta nos olhos! E se não responder as minhas perguntas, vai tomar um banho bem gostoso! Por mim, faria as duas coisas agora, mas o chefe não quer desse jeito!...

Como poderia falar para aquele monstro? Será que ele não vê que estou impossibilitado de pronunciar qualquer frase?! Quando tentei pronunciar algumas palavras, quase não agüentei de dor. E ainda tinha que manter erguida a minha cabeça, que duplicava o peso a cada minuto. Mesmo tremendo muito, escutei atentamente cada questionamento. E com muito sofrimento, respondia. Às vezes, Domingos completava as frases para mim, por causa da minha pronúncia quase inaudível. Percebi que o interesse dele era obter o máximo de respostas sobre o Movimento, e passei a usá-las da melhor maneira que podia. Tentava ganhar tempo para que a água esfriasse no balde.
Mesmo com apenas um olho aberto, observava cada reação daquele monstro. Ele queria saber onde meu avô estava e o que queria. Foram horas de interrogatório, só interrompidas com respingos da água quente do recipiente, pois Domingos irritava-se com minha tremedeira e me queimava, sacudindo o balde. A cada instante, passei a dar informações mais precisas. Satisfeito com as respostas, jogou a água, já morna, no meu corpo, fazendo-me encolher por inteiro.
Como consegui inventar tantas mentiras?! Dissera que vovô se escondia no Palacete da Chagas Rodrigues, e que de lá controlava todo o Movimento. Disse ao monstro que meu avô não era o único envolvido. Havia muita gente por trás de todo o esquema libertário. Minha satisfação em ter me livrado da tortura passou instantaneamente. Provavelmente vou morrer quando ele voltar! Arrepiei-me ao perceber que tinha piorado minha situação. Quando chegasse no palacete e não constatasse nada do que falara, voltaria disposto a me matar. No entanto, aos poucos, a idéia de morrer foi-me parecendo o único alívio.
Enquanto aguardava a morte definitiva, as memórias da minha infância na fazenda começaram a me confortar. Vovô, o senhor faz tanta falta! Logo nos encontraremos novamente! E seremos, outra vez, o menino e o velho fidalgo... Meus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela súbita volta de Domingos. Escutei os troncos do corredor caírem no chão. Ele vem furioso!... Mas por que voltou tão rápido?
Não importava. Cada pisada daquele monstro representava para mim um alívio. Tentava sorrir, contudo não conseguia. Iria perder a vida, e isso não me entristecia. Estava ansioso para que ele terminasse tudo. Queria enfrentar a morte com o mínimo de dignidade! Fiquei de pé com muito esforço. Vi então uma pessoa se aproximar. Era muito mais magro do que Domingos. Quem será? A escuridão me impedia de enxergar mais detalhes do seu porte físico. Estava muito confuso, pois só conseguia abrir apenas um olho, e ainda pela metade.

- Carlos! – chamou uma voz feminina, suavemente – Onde você está?

Caroline! Eu tenho certeza que é Caroline! Mesmo achando que fosse um delírio, gemi alto para que me escutasse. Quase não agüentei de felicidade, quando senti a delicadeza de suas mãos ao tocar em meu rosto deformado. Doeu-me muito quando perguntou se era eu mesmo que estava ali acorrentado. Juro que naquele momento quis morrer, mas compreendi tal desconfiança diante do que provavelmente estava vendo. Olhava para o meu rosto, chorando.

- Estou com medo!
- Ele voltará. Fuja! – falei baixinho, duvidando que estivesse escutado.
- Vamos sair daqui o mais rápido que pudermos, meu amor! Domingos acabou de sair e pode voltar a qualquer momento. – dizia, com a voz trêmula, enquanto me soltava das correntes – Meu Deus! O que fizeram com você? – lamentava chorando entre soluços, ao mesmo tempo em que tentava me carregar apoiada em seu ombro. – Não morra! Eu preciso de você mais do que nunca!

Ela precisa de mim! Ela me ama! Sentia-me disposto a viver. E como primeira atitude, decidi diminuir, com muito esforço, o peso que Caroline carregava. Abaixei a cabeça para apoiar os pés corretamente, e vi na cintura dela um revólver, o que me deixou mais seguro.
Subimos com muita dificuldade os degraus da masmorra. No momento em que abríamos a porta da prisão subterrânea, deparamo-nos com Domingos Jorge Velho. Surpreso, ele demorou alguns segundos para reagir. Até que se lançou sobre nós, empurrando-nos escada abaixo. Felizmente, Caroline caiu sobre mim.

- Cadê o revólver? – perguntava-se, procurando com desespero a arma que trazia na cintura.

Domingos desceu furioso e, pisando em mim, puxou os cabelos de Caroline que continuava à procura da arma. Ele levantou Caroline, sacudindo-a longe. Estiquei a mão para apanhar o revólver, mas nada achei. Desesperado, apressei-me para impedir que Caroline fosse espancada. A única coisa que enxergava eram os braços de Domingos, que se levantavam e se abaixavam sobre o corpo frágil de Caroline. Tentei gritar, correr, pular em cima daquele monstro, contudo com a queda na escada, meu corpo mantinha-se imóvel.
Em uma das inúmeras tentativas de me erguer, senti no chão o cano frio do revólver. Tentei abrir a mão direita, mas ela permaneceu fechada. Virei-me, sentindo meu corpo rasgar-se, até que consegui agarrar a arma. Apontei para as costas de Domingos, apertei o gatilho três vezes. Ouvi então um forte barulho. Abri meu olho destro e vi Domingos caído por cima de Caroline. Arduamente, fui me arrastando, mas os centímetros que me separavam dos dois, pareciam quilômetros.
Empurrando o corpo de Domingos, encontrei Caroline respirando sofregamente. Coloquei a mão em seu rosto e o senti encharcado de sangue. Enquanto eu tentava balbuciar algumas simples palavras, levantava a sua cabeça. Quando o fiz, ela sentiu a minha presença e, molemente, começou a falar chorando.

- Carlos, meu amor... você não pode morrer!... Não desista! Liberte esse povo. Só você pode fazer isso! Eu... eu estou morrendo!
- Caroline, não!... – balbuciei, desesperado.
- Nós seríamos uma família... uma família muito feliz... Eu, você... e... o nosso... filho...

(ela estava grávida)

- Meu Deus!!! Caroline!!! Caroline!!! Caroline!!!

Oração à Turma justiça, ética e cidadania –

Curso de bacharelado em ciências jurídicas/UESPI/campus de Parnaíba – ano 2006


Senhoras! Senhores!

Hoje é uma noite de júbilo, onde deve reinar um espírito de alegria porque celebramos a nossa vitória.

Quero dar aqui, em nome de todos os 35 formandos do Curso de Direito do segundo semestre de 2006 do Campus da Universidade Estadual do Piauí em Parnaíba, os nossos cordiais agradecimentos àqueles que participam desse ato solene.

Aos que vieram de longe, até de outros Estados, para prestigiar nossa formatura, sejam bem-vindos.

Autoridades, colegas, professores, parentes, amigos,

Essa é a “nossa noite” e os convido a relembrar por alguns instantes momentos importantes desses cinco anos em que estivemos juntos.

Todo esse tempo foi um encontro de vidas, de âmagos, de brios, de almas! Sentamo-nos lado a lado, por longos dez semestres. Nesse período, estivemos na maioria das vezes, separados pela distância construída pela cultura, ambições, princípios e idiossincrasias de cada um. Às vezes, separados apenas por orgulhos que nem mesmo sabemos por que os mantemos.

Mas, voltemos um pouco no tempo...

Voltemos ao dia da euforia da aprovação no Vestibular.

De diferentes formas e em diferentes pontos, rodas, templos, lares... ou bares, comemoramos individualmente a conquista da tão concorrida vaga no Curso de Direito da Universidade Estadual do Piauí.

Alguns aqui passaram de primeira, e isso, por si só, já era um troféu, carregado de muito simbolismo. Sabemos bem o que representa chegar ao nível superior no Nordeste brasileiro. E para nós piauienses, de longa data marcados pelos preconceito e etnocentrismo – que insistem em esnobar da nossa capacidade intelectual, não é diferente!...

Tratam-nos como se o sol do Equador prejudicasse nossos neurônios e nos impedisse de sermos críticos, sensíveis e competentes. Os estudantes da melhor escola do Brasil, Instituto Dom Barreto, que o digam.
Caríssimos, o que fazemos aqui hoje é entrar para um rol singular...

Simplício Dias, Leonardo Castelo Branco, Reis Velloso, Evandro Lins e Silva.

Só para citar algumas genialidades.

E o que eles têm em comum?

O que nós podemos ter em comum com eles?

Pensemos um pouco...

O que todo piauiense, nordestino, brasileiro tem de especial?

O que há de diferente nessa noite e que pode mudar nossas vidas?

O que pode inscrever nossos nomes nesse mesmo memorial histórico que guarda todos esses personagens?

A CORAGEM !!!

A coragem de desafiar nossas limitações, de lutar contra a tirania, ou o “destino”, ou os estereótipos, ou o que quer que seja que tente nos obrigar a conformarmo-nos com a mediocridade. Uma mediocridade que não faz parte de nós, mas querem nos convencer dela.

Acontece que fomos imbuídos, desde a primeira aula, do sentimento dos primeiros formandos em Direito desta Faculdade. Quem não lembra das dificuldades para termos esta cadeira em Parnaíba?
E quando havíamos obtido tal conquista fomos confrontados pelo desdém e descrédito de forças políticas, que aliadas a conglomerados econômicos, planejavam extinguir o curso em Parnaíba.

A resposta sobre a nossa capacidade veio no Exame de Ordem, que não deixou a desejar. Herdamos e manteremos tal tradição, não apenas para galgarmos postos profissionais, mas, principalmente, para honrar o esforço dos pioneiros.

SOMOS UMA GERAÇÃO CORAJOSA, VALENTE !!!

Todos que se formam nesta noite, sob o peso da tradição secular que essa beca possui, são pessoas que tiveram que ousar, acreditando que seria possível conquistar uma vaga nesse curso historicamente concorrido.

Senhoras. Senhores.

Quando começamos o curso, tudo era bem diferente.

Nós éramos diferentes.

Há cinco anos, o país vivia outra conjuntura. A universidade pública lutava contra o sucateamento. Somos, portanto, filhos de um período de transição entre uma mentalidade que via no ensino público um peso e outra que vê na educação a saída para os nossos mais profundos problemas sócio-econômicos.

Se me permitem uma rápida análise da conjuntura que marcou nossa graduação: sofremos com os atos perversos do neo-liberalismo que assolou o Brasil pós-ditadura militar.
Mas somos também testemunhas vívidas do processo de implantação de um modelo mais difícil, que é o modelo sócio-democrático.

Sim. Muito mais difícil !

Porque a democracia exige um nível de maturidade política, profissional, pessoal até, ao qual nós brasileiros, (nordestinos, em particular), não estamos acostumados.

Resistimos, a maioria de nós, por ainda estarmos presos aos vícios do paternalismo, do coronelismo, das tradições... e nós, parnaibanos por nascimento ou adoção, podemos falar bem sobre isso.

Fechando o parêntese da análise, ilustríssimos, continuemos com nossa retrospectiva. É difícil para as pessoas que convivem conosco admitir as mudanças, mas a verdade é que mudamos desde aquela tarde do dia onze de março de 2002.

A maioria de nós era apenas adolescente quando subiu a escadaria do velho Ginásio Parnaibano, naquele dia.

Ao atravessar o umbral daquele elegante prédio da Rua Grande, entramos na fôrma da vida adulta.

E, invertendo o ditado popular, depois da euforia de calouros, vieram as crises... pessoais, intelectuais, de convivência, de classes. Não nos enganemos: os preconceitos estiveram sempre ali, como um fantasma a nos atormentar.
Talvez nem precisemos lamentar o fato de que eles continuarão nos acompanhando. De certa forma, eles serão os divisores de água nas nossas trajetórias profissionais... farão a diferença entre uns e outros.

E assim como os preconceitos, caríssimos, os desafios também estão dentro de nós. A frase pode parecer apenas um jargão, mas é a verdade. Cada aula ao longo desses cinco anos foi uma batalha.

Uma batalha travada contra as nossas mais profundas convicções. Fosse por nos confrontar com uma lei com a qual não concordávamos, fosse por ter que aceitar coisas fora dos nossos padrões de “normalidade”.

Já éramos uma turma, com identidade própria, que no nosso caso é marcada pela heterogeneidade, quando perdemos a professora Taumaturgo. E, enquanto corpo, ficamos mutilados sem Alonso. A história dos formandos em Direito do ano de 2006 é incompleta sem essas pessoas.

Por outro lado, aprendemos a sobreviver às perdas. E, como nunca nos resta outra alternativa, a não ser seguir... seguimos!

Seguimos carregando aprendizados e pretensões.

Passando por provações.

Um dos momentos críticos foi a reta final - o estágio curricular. Foi aí que nos demos conta de que somos mais humanos do que gostaríamos.

Admitamos! Quem aqui não se viu muito abaixo do Olimpo ao chegar ao Serviço de Assistência Jurídica, o SAJU?? Quem aqui não sentiu uma certa acidez no estômago ao perceber que estava a anos-luz de distância do grande jurista que imaginava ser ao se deparar com as correções do professor Diógenes, da professora Sara, da professora Maria da Graça e do professor Marco Antônio?

Mas nem tudo foram espinhos.

Existiram momentos especiais.

Afetuosos, mesmo.

Fomos surpreendidos, ou melhor presenteados, em meados do curso por uma pessoa que adocicou nossa peregrinação pelo estudo das ciências jurídicas.

Sua dedicação, demonstrada pela quantidade de doutrinas que trazia para as aulas, denunciava sua face de pesquisadora.

Contudo, ninguém poderia supor que conheceríamos um lado seu que viria a ser sua principal marca. Entre uma lei e outra, como que para enternecer essa lida, poemas e textos cheios de ternura vieram pacificar os nossos ânimos, acalmar as feras que existem em nós... do aluno mais hostil ao mais sensível, todos se renderam ao encanto da inesquecível professora Zulmira.

E se saímos da adolescência praticamente naquelas salas, sob os olhares atentos de nossa querida Neném, é preciso reconhecer a importância de todos os funcionários que fazem a UESPI e, em especial, dos docentes.
De uma ponta a outra, seja dos mais rigorosos, como os professores Mariano e Cajubá, aos mais camaradas, como os professores Telius e Bacelar, cada um, ao seu modo, contribuiu com nossa formação intelectual e (por que não dizer?) nosso caráter.

Todos, dentro de suas peculiaridades, serviram de exemplos para nós.

Assim, caminhamos juntos para a maturidade!

Enfim, chegamos aqui.

Fim dos temores? Da insegurança? Felizmente, não!

— Digo: Felizmente não!

Caros colegas, só mais um pouco, e então, nada mais vai impedir que integremos essa confraria que já atravessa séculos de existência. E ouso dizer que é agora que começa a corrida das tartarugas rumo ao grande Atlântico!

Chegamos ao tempo dos verdadeiros desafios.

O maior deles?

Penso que está em compreendermos a necessidade de pagar nossa dívida para com a sociedade: devolver a ela aquilo que recebemos gratuita e privilegiadamente – o conhecimento científico.

Que o façamos, então, comprometidos com a dignidade humana, com a justiça social e com a construção de uma sociedade consciente de seus direitos e deveres.

Que ajudemos a construir um país realmente livre e soberano.

Um país de cidadãos e cidadãs!

Por isso mesmo nessa noite vamos fugir da competitividade que certamente insistirá em nos rondar, logo que ultrapassemos o umbral desta porta.

A estrela de hoje não somos nós. A estrela dessa noite é o Direito, o inexorável Direito. Inexorável como a vida. Inexorável como a morte.

Quem pode dele escusar-se?

Quem dele pode evadir-se?

E essa presença irresistível e fascinante na vida de cada homem ou mulher, do maior ao menor, é que faz muitos de nós almejarmos dominá-lo. Tenho que dizer, triste e feliz ao mesmo tempo, que isso é, caros colegas, impossível!

Para afirmar isso, valho-me do mito grego de Sísifo, o homem condenado a eternamente levar uma rocha montanha acima para, tão logo termine a missão, vê-la despencar novamente.

Qualquer comparação entre a metáfora da tarefa infindável, inacabada, porém jamais abandonada, com as intermináveis e solitárias madrugadas debruçados sobre os livros, certamente não é forçosa.
Eis onde o estudo da ciência jurídica nos lembra também o movimento incessante das ondas do mar.

A natureza perecível do conhecimento da lei torna infindável o dinamismo da natureza jurídica. E isso exige do operador do Direito, uma humildade e uma necessidade de buscar a reciclagem que devem se mirar no exemplo de Sísifo.

Quantas vezes vimos nossos livros serem transformados em meros instrumentos antropológicos, desatualizados semanas depois de adquiridos com tanto esforço?

Por mais frustrante que seja, nunca deixa de ser belo ver o Direito fugir ao controle.

Como um horizonte que jamais se alcança, mas sempre nos chama.

Ele não se deixa possuir. Será que foi essa constatação que levou Gomes Canotilho a dizer que “compreender o Direito em sua totalidade seria o mesmo que parar o vento com as mãos”? Se foi, ele estava com a razão!

A explicação para tal poder pode estar na própria natureza do Direito.

E o que é o Direito?

A resposta, garanto, está na ponta da língua de cada um que passou pelas aulas do professor Robério.
Filosofemos então, um pouco, sobre o Direito. Falemos, ainda que sem os fundamentos de Bobbio, Kelsen e Savigny, de sua natureza. Prestemos a ele a nossa justa homenagem.

De minha parte, só posso reconhecer que por mais que o ame, não posso falar mais dele do que por meio de alegorias. O Direito está para a sociedade, como a água para a vida.

Ambos permeiam todos os ciclos da existência humana.

Do primeiro banho, no nascimento, ao último, antes de descer à terra, a água e o Direito são as únicas companhias certas que os viventes têm.

E como o Parnaíba, o Velho Monge, do poeta Da Costa e Silva, o Direito também é uma fonte perene para a vida. E assim como o nosso barrento rio, o Direito também nasce em mananciais muito tênues. Na fraqueza nascem suas forças. Pois a quem se destina o Direito? Àqueles que dele precisam. Aos injustiçados, àqueles que por alguma razão, estão sem condição de ter seus direitos sozinhos.

Não é por acaso que essa turma de formandos da Universidade Estadual do Piauí se chama “justiça, ética e cidadania’.

Nossa escolha já foi feita:

Optamos por honrar o Direito, renunciando à omissão, à negligência, à indiferença, e à mediocridade.

Como novos bacharéis, comprometamo-nos com o que mais caracteriza o Direito: a defesa incessante dos direitos e garantias fundamentais da pessoa humana: o direito ao Direito.

Pois o Direito é, antes de tudo, um farol para os que navegam nesse mundo.

E o Direito se aproxima de sua finalidade justamente quando cria um efeito prático na vida dos cidadãos que o buscam ou o infringem. Efeito este, advindo do balançar de olhos entre o fato e a norma, parafraseando a elucubração de Miguel Reale quando dissertou sobre a característica tridimensional da ciência jurídica, composta pela repercussão do fato, o valor que a sociedade confere a ele, dando ensejo à lapidação da norma.

A imperfeição da teoria é denunciada pelo esquecimento de Reale, que não atinou para o fator tempo, mola propulsora do Direito, razão de sua retroalimentação. Mérito da vida que se renova sempre.

Mas o nosso Rio Parnaíba também nos remete à outra comparação com o Direito: a solidão de nossos deságües.

Para chegar à plenitude do mar do conhecimento, somos obrigados a suportar as pressões das margens, das limitações quer econômicas, quer sociais, quer pessoais. Só nós sabemos o quanto foi difícil chegar até aqui.

Até mesmo para os que contaram com ajuda.

Foi, inteiramente, uma experiência no deserto.

- Honestamente, será sempre.

Por fim, manifestamos nossa gratidão aos que conviveram conosco durante esse tempo e renovamos o convite para que permaneçam ao nosso lado porque nossa verdadeira batalha está apenas começando, afinal... o Direito, assim, como o tempo, não pára!


OBRIGADO !!!

___________________________
Rafael Castello Branco Ciarlini
Orador da Turma Justiça, ética e cidadania.

Conterrâneo de Assis Brasil


Ninguém precisa nascer num berço de intelectuais para operar as letras e suturá-las no papel. Nenhum homem é maestro do determinismo. A arte faz parte da nossa natureza. Passei por muitas dificuldades durante a lapidação da minha primeira obra literária. Dificuldades como na luta do velho no mar. As emoções não são postas no papel repentinamente. É preciso muito trabalho, persistência e, principalmente, paciência, sensibilidade. Exercitar a sensibilidade é algo ainda mais perturbador. Vale ressaltar que essa aprendizagem é constante, pois como já dizia Santo Agostinho: “Falar sobre palavras com palavras é tão complicado como entrelaçar os dedos e tentar coçá-los”.
Em muitos momentos, vi-me despido de inspiração, sugado e vazio de palavras. Então, saía do meu apartamento na Avenida Álvaro Mendes (onde morava) e caminhava lentamente, buscando nos prédios antigos, na revoada dos pardais, no matinal vento frio da nossa terra e nos rostos das pessoas algo que me reconduzisse ao meu labor.
Buscava inspiração na natureza que embeleza a cidade deixando-a graciosa pela manhã, dourada ao entardecer e sedutora nas madrugadas; nas casas com seus suntuosos telhados; nas ruas de calçamento liso e nas largas e arborizadas avenidas boêmias; nas ruelas e nos becos estreitos que ainda exalam coisas de um passado longínquo; nas praças que têm por teto a copa das árvores; e na gente trabalhadora e inteligente, que ainda guardam muitos enigmas a serem desvendados em prosa e em verso. A natureza alimenta o artista, assim como as amizades enriquecem o ser humano.
A inquietação diária, as constantes insônias, o isolamento do mundo real, a dedicação, a aprendizagem, o suor, o sangue em cada parágrafo, o estudo de cada substantivo, adjetivo e verbo, tentando colocá-los em seus devidos lugares, e finalmente, a sensação de realização pelo término do trabalho são de uma emoção difícil de descrever.
Dar vida a um romance não é a mesma coisa que confeccionar um artigo, crônica, ensaio ou poema. É algo demasiadamente complexo, conhecido só por aqueles que o fazem. Compararia com uma matryoshka deslizando na mão e se deixando ver numa série incontável de bonequinhas que se escondem no ventre umas das outras.
Queria um romance atemporal, que fosse uma espécie de protesto, mas também uma declaração de amor por parte de um filho desvairadamente apaixonado por sua terra. As lendas, passagens históricas, o clima, o hino, as pessoas, os lugares, tudo seria motivo de inspiração. Daria início ao relato de lutas, traições, assassinatos, romances e fugas. Os fatos históricos seriam descritos com a intenção de instigar o leitor a conferir o que é realidade e ficção.
Iniciar um capítulo e terminá-lo é o primeiro passo para a concretização do sonho de escrever um conto ou um romance. Escrever sobre experiências autobiográficas e subjetividades humanas conhecidas é o segredo para os personagens ganharem vidas e não serem como em muitos livros ruins, meros bonecos frios e sem cores.
Carregamos durante nossa existência todo tipo de sentimento, sejam eles bonitos ou feios. Falar deles é o mesmo que oferecer um copo d´água a um homem sedento ou como alimentar a quem morre de fome. Ter a coragem de olharmos no espelho todos os dias como seres defeituosos e cheios de frustrações, tudo isso é o que nos permite dar vida aos mocinhos e aos bandidos. Estão todos dentro da gente. Basta ter atitude e buscá-los sem medo.
Depois de seis meses de muito esforço, vejo a obra impressa e encadernada sobre a cama, pronta para a primeira das dezenas de revisões. Esse sim é um processo doloroso demais. Terminado, o livro é tratado pelo autor como um filho especial. A história e os personagens, mesmo ditos de ficção, são reais.
Os personagens já ganhavam vida, convivendo comigo no meu dia a dia, chegando até a tirar as minhas poucas horas de sono. Quantas vezes fui trabalhar sem dormir! Naquele ano de maior efervescência ia para as aulas na Faculdade de Direito e contava os minutos para chegar em casa e continuar a escrever. Havia momentos em que o desejo de acudir os personagens era maior que a razão, fazendo-me sair em plena aula, andando pelas ruas anotando tudo que vinha à mente, para não correr o risco de esquecer. Construir uma obra é algo extraordinário, pois não se restringe apenas a escrevê-la, vai mais além, substituindo o mundo real pelo mundo dos personagens do livro, onde você é o criador. É tão perturbadora essa sensação que às vezes você é acometido pela personalidade de uma das criações. O mais difícil é elaborar os papéis, pois o mesmo deve ser feito separadamente, sem interferência da individualidade dos outros personagens. Quem já fez um livro sabe do que estou falando. O autor é constantemente emprestado para os personagens, que só ganham vida através de sua capacidade de entendê-los. A criação só é possível porque a mesma já existe.
Em novembro de 2004, iniciei o processo doloroso da revisão de praticamente quatrocentas páginas investido das palavras de Picasso: “Toda obra é uma obra inacabada”. Finalizei o livro pretendendo tirar “férias das palavras” a fim de reabastecer as energias. Mas em pouco tempo, logo bateu uma saudade da rotina de expressar os sentimentos, de exercitar os sentimentos, as sensações e, principalmente, de criar e recriar um mundo de personagens. Precisava beber!
Leio alguns clássicos, compro alguns livros, percorro estantes de bibliotecas, contudo continuo a imaginar páginas e páginas de um novo livro que já nasceu dentro de mim naquele momento. Seria um romance bolivariano! É como se fosse um vício que entorpece o espírito e que nos domina de tal forma que largamos tudo para satisfazê-lo.
Sentava na cadeira da biblioteca e com o livro aberto de Assis Brasil colocado sobre a mesa, tentava concentrar-me na sua história, nos seus ensinamentos. Sei que é preciso aprender muito com o mestre! Entender e descobrir através de suas palavras os meus sentimentos. Todavia a angústia e o vazio se hospedam, novamente, em meu peito, já insatisfeito pela brusca parada do sonho que acabava de começar e eu intencionalmente interrompia. É preciso agir! E como se eu fosse um animal faminto, volto para a faina ingrata de escrever. Poucos valorizam, não é verdade? Cada palavra é como um gole de água gelada percorrendo uma garganta seca. Só assim eu me encontro, só assim eu sobrevivo. Só assim eu existo e consigo resistir nesse mundo. Sinto-me um escravo do encanto das letras.
Conheci Assis Brasil em 1991. A leitura do meu “Cantor Prisioneiro” era o bastante para os oito aninhos que carregava no ombro. Naquele tempo, estudava num colégio de Fortaleza. Foi ali que descobri o sabor da leitura. Desde então procurei conhecer mais sobre o nosso grande escritor conterrâneo. Queria seguir seus passos. E escrever livros foi uma das várias formas que encontrei. Sinto-me RICO por ser conterrâneo de um gênio como Assis Brasil.