quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Casa Grande em anos de chumbo

Acordei assustado com o barulho da janela batendo na parede, por causa do vento forte da madrugada. Resisti contra a necessidade de levantar para fechá-la. Mesmo coberto por um lençol e com o corpo todo encolhido, continuava sentindo frio. Muito exausto, fazia de tudo para pegar novamente no sono, tentando ignorar o rangido da janela que continuava balançando ao vento, agora sem dar pancadas.
Quando a dormência começou a me embriagar novamente, a janela voltou a bater, dessa vez com mais força. Parecia estar me provocando. O que será que ela tem contra mim? Será que não vê que estou com sono?, murmurei, brigando e esmurrando o colchonete. Enquanto levantava lentamente, fitei Arthur que continuava dormindo. Parecia estar bem melhor. Quando acordar, voltará a ser o mesmo!, sussurrei.
Deixando o amigo em seu merecido descanso, direcionei minhas atenções para a janela, única culpada por eu estar acordado. Pôxa vida, será que você não vê que estou tão cansado quanto Arthur?, reclamei mais uma vez antes de caminhar ao encontro da minha carrasca.
Com raiva, peguei em sua velha e maltratada madeira para fechá-la violentamente, mas logo fiquei com remorso imaginando há quantos séculos ela ali se sustentava bravamente. Arrependido pelos meus atos de incompreensão, fechei-a, para que ambos nos acalmássemos.
Quando me abaixei para apanhar um pedaço de madeira que pudesse escorar a janela barulhenta, escutei vozes baixas do lado de fora. Cautelosamente, estiquei o pescoço e me surpreendi com uma movimentação anormal na entrada da Casa Grande.
Estava muito escuro, a ponto de não se poder enxergar quase nada. O que querem com essa investigação, tamanha hora da noite?, indaguei-me. Poderiam ser ladrões, mas logo descartei essa hipótese, pois inexistia dentro da casa qualquer coisa valiosa. Será que alguém do grupo nos delatou? Pensei imediatamente em Gabriel, que naquele mesmo dia tinha demonstrado muito nervosismo e dado muitas desculpas para o seu atraso. Ele é o único que não olha as pessoas no rosto...
Aguçando mais a visão, percebi que eram cinco homens, sendo que os dois mais magros estavam olhando pela frecha da porta. Certamente não viam absolutamente nada. Se à luz do dia mal dava para enxergar o cofre que impedia a visão da galeria, imagine à noite! Os outros três, mais fortes, faziam a vigília ao lado da calçada. Aquilo era realmente muito estranho!
Meu coração acelerou abruptamente quando um dos que vigiavam ergueu a cabeça. Acho que não me viu! Será que me enxergou aqui, na janela? No mesmo instante, uma lanterna acesa foi direcionada para o buraco da porta, que estava protegida por um grande cadeado, no qual nunca confiei. Quando a luz da lanterna refletiu em suas roupas, percebi que eram “policiais”. Eles devem ter descoberto o nosso esconderijo!, afligi-me, colocando as mãos na cabeça.
Antes de acordar Arthur para uma fuga, olhei mais uma vez pela janela. Foi quando observei o guarda de maior estatura forçando o cadeado com um pé de cabra. Ele deve ter me visto! Corri em direção a Arthur, que acordou totalmente assustado. Logo ele, que acabara de se recuperar de uma das piores crises de esquizofrenia, passando quase dois dias fugindo das alucinações, agora teria que encarar a temível invasão, há tanto tempo esperada, e que quase o levou à loucura. Arthur não sabia o que fazer diante do medo e da aflição.
Depois de enrolar os três colchonetes, comecei a recolher todos os papéis, para eliminar qualquer suspeita sobre a nossa presença naquele lugar. Arthur não conseguia fazer absolutamente nada. Estava mais atrapalhando do que ajudando!
Quando o som que identifiquei ser o arrombamento da porta entrou em nossos ouvidos, ele se desesperou e correu para pegar o revólver que mantinha escondido por trás de uma janela. Pensei que fosse nos defender dos guardas, mas quando vi que estava apontando para a própria cabeça, entendi que passava por dois sérios problemas: os policiais e a esquizofrenia de Arthur, que acabara de voltar!
Pedi a ele que se acalmasse, contudo parecia nem me conhecer. Recuando para evitar que eu me aproximasse, quase enfiou o pé num buraco do piso, o que teria posto tudo a perder. Já tomado pelo desespero, coloquei minhas mãos em sua boca para que calasse, pois os policiais o escutariam e subiriam imediatamente. Não compreendendo o meu gesto, Arthur mordeu dois dedos da minha mão direita. Com a dor, quase deixei cair os papéis segurados pelo braço esquerdo.
Não tendo outra alternativa, cerrei o punho e dei um forte soco em seu rosto, esticando a mão rapidamente para segurar o revólver. Escutei as pisadas investigativas dos policiais, que já estavam dentro da Casa Grande. Pus as coisas no chão e segurei Arthur, com receio do piso ruir.
Antes de subir para o telhado, observei pelo buraco da madeira a luz da lanterna no primeiro pavimento. Logo estariam aqui no segundo andar. Tomei todo o cuidado para não fazer nenhum barulho. Nessas horas, qualquer som que não escutamos normalmente, parecia alto e agudo.
Com muito esforço consegui colocar Arthur na parte mais segura do telhado. Embora não crêssemos que uma invasão pudesse acontecer, havíamos nos preparado para isso. Nós, não! Arthur havia preparado aquela parte do telhado, cujo acesso se dava no final do corredor do segundo andar, para servir de esconderijo dentro da Casa Grande de Simplício Dias!
Voltei quase correndo para pegar todas as coisas que nos desvendaria. Agarrado aos três colchonetes, agachei-me para segurar os papéis e livros. Quando o fiz, deixei cair um bloco de anotações no piso de madeira, fazendo um barulho que imediatamente foi ouvido pelos policiais. Enquanto corria rumo ao telhado, entre tremores e gestos de agonia, escutei ordens de comando para o segundo pavimento.
Sem tempo a perder, subi para o telhado e lacrei a saída com seis telhas, deixando apenas uma brecha para observar a movimentação. A noite estava muito escura, dificultando o trabalho dos policiais e facilitando a nossa fuga.
Escutei quando subiram correndo. Tive certeza de que se continuassem naquele ritmo, a frágil estrutura do segundo pavimento não os agüentaria. E não deu em outra: quando os dois maiores subiram as escadas, no intuito de cumprir a ordem do superior, e colocaram os pés no piso de madeira, o mesmo se quebrou, jogando-os para o primeiro andar que, com o impacto do peso dos dois homens, também se rompeu. Daí, escutei apenas os gemidos de dores dos nossos algozes, que tinham ido parar, finalmente, no chão do térreo.
Enquanto os outros três cuidavam dos que caíram, escutei a voz irritada do que parecia ser o comandante da operação: Essa casa está completamente podre! Talvez aquele barulho tenha sido do piso, já querendo desmoronar. Não tem ninguém aqui!, esbravejou furiosamente. Senti um alívio ao ouvir aquele comentário. Estávamos, agora, a salvos.
Mesmo com o frio cortante da madrugada e a escuridão da noite sem lua, resolvi esperar um pouco mais no telhado. Com a confusão, não observei os dois pequenos cactos que cresciam no telhado. Joguei Arthur sobre eles, machucando-o ainda mais. Senti pena, mas não tive outra maneira de contornar aquela tensa situação. Até o amanhecer, permaneci assustado e atento a cada som.
Quando a aurora despontava no horizonte, retirei as telhas que nos ocultavam, e fui verificar como ficara o nosso esconderijo. Logo que cheguei ao lugar em que dormia, enxerguei uma imensa cratera no piso de madeira. O estrago impedia o contato com a escada que nos conduzia ao térreo e à galeria. Como faremos para sair daqui?

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