UM ROSTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Parte II
A armadilha
Qual pai que ama
sua filha não quer protegê-la? As meninas assim como passarinho são vítimas de uma armadilha, traídas pela
sua própria candura que as impedem de reconhecer os ataques ferozes de seu
algoz e se defender, escapando da arapuca a tempo.
Quantas meninas
são encantadas por adultos que se passam por príncipes?
Quantas, antes mesmo de
sua festa de debutante, entregam sua inocência em troca dos sabores - e
dissabores - da vida precocemente adulta?
Com tão pouca idade, não há maturidade
suficiente para discernir entre bem e mal, ou avaliar as conseqüências de seus
atos. Toda menina tem direito de ser ingênua, porque para ela, nada a impede de
viver de amor, como para qualquer menina-moça, o amor é suficiente.
Príncipe
encantado, eterno namorado, grande amor de sua vida. Paixão inebriante que ordena
que o siga e obedeça. Ainda que essa postura a faça desafiar os próprios pais.
De repente, menina-moça passa a ser menina-mulher, brigada com sua própria
família, afasta-se do lar doce lar e leva junto o primeiro filho.
Ainda de
natureza doce e amigável, a menina-mulher convive com outra família, e a
carência naturalmente a faz chamar outra de mãe e outro de pai. Para viver em
harmonia, submete-se como uma filha às ordens e vontades alheias e estranhas.
Mas não demora
muito para que o
sonho representado nos romances pelo “felizes
para sempre”, que por muito tempo esteve acalentado em seu peito, venha a parecer
mera figura de linguagem aprisionada no final de livros e filmes.
Aos poucos, os
vícios do companheiro – farrear e ficar de ressaca até tarde – o início das
ofensas, dos empurrões começam a incomodar a menina-mulher, hoje não tão mais
mulher, hoje semelhante à coisa.
Ressentida com a
absoluta falta de carinho, o choro e a tristeza tornam-se companheiros do dia a
dia. A violência doméstica lhe é empurrada goela abaixo, junto com o amargo da
intolerância e a podridão da desumanidade. Quem sai do lar doce lar para sofrer?
Quem entrega a vida em troca da morte?
O romantismo acabou.
Amar transformou-se em sofrer. Nem mesmo o nascimento de um filho, que durante
algum tempo lhe protegeu do mal e lhe dopou da triste realidade do cotidiano,
lhe ajudou a administrar as agruras de um relacionamento conturbado, equilibrar-se
sobre as bases frágeis da relação e, principalmente, esforça-se para não
desagradar. Como o príncipe pôde tornar-se num ser desprovido de afeto, de
piedade?
As discussões, existentes em
qualquer relacionamento saudável, ganham proporções gigantescas com a violência
doméstica, passando a ser decididos na força física. A menina-mulher sente-se como
propriedade e se vê muitas vezes acuada como um animal indefeso. Vinícius de
Moraes descreve bem esse momento:
De repente do
riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Um comentário:
seu blog é um lixo.
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